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As vontades do eu diante da responsabilidade pelos outros – Responsabilidade

3 A RESPONSABILIDADE EM LEVINAS

3.3 As vontades do eu diante da responsabilidade pelos outros – Responsabilidade

Diante de um humano entendido da forma como Levinas o define é de fundamental importância analisar aquelas que sempre foram consideradas dimensões humanas básicas. Se o humano não pode mais ser entendido enquanto independente dos outros, o que significaria falar em um sujeito que fundamenta a si mesmo e que nasce já com uma consciência de si, tratar dele conforme a tradição o faz já não se sustenta por completo.

A própria noção de ser humano enquanto ser social é redefinida. O ser humano é um ser social por necessitar do outro para existir. A vida em sociedade passa a ser compreendida como consequência dessa necessidade, uma vez que a sociedade existe para que todos tenham seus direitos garantidos através da potencialização da responsabilidade que um tem por todos. O Estado, representação daquilo que entendemos por sociedade hoje, não pode mais ser consi- derado como central. A manutenção do mesmo não é mais uma finalidade em si mesma, e sim um meio na luta por direitos, inclusive e principalmente pelo direito a vida em sua diversidade. Evidentemente que na prática isso nem sempre acontece. Mostramos isso no primeiro capítulo, como consequência de uma vida totalizada.

Abrir mão da responsabilidade pelos outros se mostra cada vez mais como uma atitude geradora de catástrofes. A indiferença, uma das principais formas de negar a responsabilidade que se tem pelo outro, já foi “gatilho” de muitos conflitos e guerras. Hoje, tal atitude ainda se mostra presente quando alguém considera preguiçoso aquele que não consegue trabalho ou afirma que todos têm as mesmas condições de “vencer na vida”. Está presente na fala dos su- jeitos que diminuem os outros devido à sua condição social, cor da pele, raça, religião, cultura. Se revela também nas situações dos inúmeros refugiados ao longo do planeta quando a hospi- talidade lhes é negada ao serem tratados como “pragas” que invadem os países considerados

184 É preciso novamente destacar que isso não significa que o eu garante os direitos do outro somente para garantir

os seus. Ou seja, garantir os direitos do outro não pode ser uma atitude de interesse particular. Devo garanti-los independentemente da garantia dos meus direitos. Se terei meus direitos ou não ao garantir os dos outros é algo sobre o qual não devo me preocupar. Isso não significa que eu não possa me preocupar com os meus direitos. Significa apenas que a garantia dos meus direitos não pode ser condição para que eu lute pela garantia dos direitos do outro.

“de primeiro mundo”. A própria condição de refugiado já mostra um contexto onde o outro não está sendo respeitado.

É preciso, também, se dar conta que a negação da responsabilidade por Outrem não se reduz a eventos que são considerados merecedores das páginas de livros que contam a história humana ou a situações do dia-a-dia que são facilmente identificadas por seu caráter desrespei- toso em relação aos direitos de cada sujeito. Elas podem ser sutis e identificadas em situações consideradas como banais por seu caráter comum. Quando alguém desperdiça alimentos ao invés de doá-los para quem tem fome, quando alguém não devolve o troco que recebeu a mais, quando alguém tira proveito pessoal de determinada situação prejudicando mesmo que mini- mamente o outro, há ali um descaso para com ele que se traduz enquanto irresponsabilidade em relação ao outro que clama por justiça.

No Brasil, existe um termo clássico para tais atitudes. É o famoso “jeitinho brasileiro” que revela a incapacidade dos sujeitos em perceber que suas atitudes, por mais inofensivas que pareçam, sempre prejudicam um outro que deveria ser de sua responsabilidade. E a justificativa é quase sempre a mesma: “é meu direito”, ou, “é minha liberdade”. Tais ideias mostram, para Levinas, a ineficácia humana em reconhecer o outro como outro e uma adoção cada vez mais crescente por parte do eu, de uma vida totalizada. Há uma abundância de possibilidades que se abrem conforme a humanidade progride ao mesmo tempo em que se fortalece cada vez mais uma escassez de solidariedade e respeito ao próximo.

A crise do humanismo em nossa época tem, sem dúvida, sua fonte na experiência da ineficácia humana posta em acusação pela própria abundância de nossos meios de agir e pela extensão de nossas ambições. No mundo, em que as coisas estão em seu lugar, em que os olhos, as mãos e os pés sabem encontrá-las, em que a ciência prolonga a topografia da percepção e da práxis, mesmo ao transfigurar seu espaço; nos lugares onde se localizam cidades e campos que os humanos habitam, ordenando-se, segundo diversos conjuntos, entre os entes; em toda essa realidade “correta”, o contrassenso dos vastos empreendimentos frustrados – em que política e técnica resultam na nega- ção dos projetos que os norteiam – mostra a inconsistência do homem, joguete de suas obras. Os mortos que ficaram sem sepultura nas guerras e os campos de extermínio afiançam a ideia de uma morte sem amanhã e tornam tragicômica a preocupação para consigo mesmo e ilusórias tanto a pretensão do animal rationale a um lugar privile- giado no cosmos, como a capacidade de dominar e de integrar a totalidade do ser numa consciência de si.185

Tudo em nome de um conceito de liberdade cunhado pela tradição que se configura como cada vez mais individualista. Ajudar o outro se torna um empecilho ao crescimento pes- soal, ao menos que ajuda-lo traga alguma recompensa.

Entretanto, Levinas nos alerta a respeito da necessidade em rever nossas noções de liberdade. Aquela liberdade tão sonhada, em que o eu pode fazer o que quiser, quando lhe der vontade, e que as ações que o eu pratica sejam consideradas como direito dele, não importa o que vão causar, é considerada por Levinas distópica. Por que não utópica? Por que, em primeiro lugar, como vimos, um sujeito que vive apenas consigo mesmo jamais desenvolve uma subje- tividade. Em segundo lugar, um sujeito com uma liberdade ilimitada se autodestruiria, uma vez que anularia a presença do outro, presença que é necessária mesmo depois do nascimento do eu. Levinas nos convida então, a voltar nossa atenção para aquilo que consideramos ser a liber- dade sob um olhar fenomenológico e ético. Diante de tal olhar e a partir do que foi apresentado até aqui, fica evidente que o conceito de liberdade também precisa ser ressignificado. Foi o que Levinas fez e é o que apresentaremos no próximo capítulo.