• Nenhum resultado encontrado

Capítulo V – A Trajetória da Pesquisa: Caminhos e Descaminhos

5.1. O Contexto da Pesquisa

5.1.1. As Vozes das Professoras no Programa de Formação

A análise da forma de implantação do PEC – Formação Universitária remete àqueles que em tese são, de acordo com Nóvoa e os discursos oficiais, “os principais responsáveis pela sua formação”, ou seja, os próprios professores. Como “principais responsáveis”, a questão que fica é: “suas vozes” foram ouvidas durante a concepção do programa? Essa concepção foi gestada em co-autoria com os principais interessados e “principais responsáveis” pela própria formação?

A resposta emitida pelas alunas-professoras, a duas das questões que integram o questionário elaborado e distribuído às treze professoras pesquisadas (todos os questionários foram respondidos por docentes do sexo feminino): “De alguma forma você participou ou foi participada de como o PEC – Formação Universitária desenvolver-se-ia? Qual a sua posição a respeito?”, fornece algumas pistas sobre a participação dos professores na concepção do Programa. Essas pistas permitem afirmar que mais uma vez o ideário de “professor reflexivo”88, “intelectual transformador”89 e principalmente “o principal responsável pela sua formação” não saiu do âmbito do discurso. Esses profissionais foram participados do evento quando este já era fato consumado, aliás, pronto para ser consumido.

É evidente a situação de desconforto da professora, conforme bem o demonstra a transcrição de algumas das afirmações por elas proferidas:

Senti-me como se estivesse entrando por uma rua estranha, sem saber onde iria sair (P1).

Senti-me como aluno que vai pela primeira vez à escola, aprender tudo de novo (P3).

Pelo que me lembro, antes do curso começar, fomos participados de como ele seria. Num outro momento fomos consultados sobre o andamento do curso, demos algumas

88

Professor reflexivo é aquele capaz de assumir um processo de reflexão-na-ação (Schön), ou seja, acumular “um conhecimento tácito que mobiliza e elabora durante a sua própria acção. Sob pressão de múltiplas e simultâneas solicitações da vida escolar, o professor activa os seus recursos intelectuais, no mais amplo sentido da palavra (conceitos, teorias, crenças, dados, procedimentos, técnicas), para elaborar um diagnóstico rápido da situação, desenhar estratégias de intervenção e prever o curso futuro dos acontecimentos” (Pérez Gomes, 1995).

89

Entendemos o intelectual transformador como extensão do intelectual orgânico, conceito muito utilizado por Gramsci para designar o intelectual historicamente comprometido com um determinado corpo social. O intelectual transformador se opõe ao intelectual tradicional.: “o intelectual orgânico de grupos sociais historicamente pré-existentes [...] [que] expressam uma importante função ‘ como representante de uma continuidade histórica que não foi interrompida nem pelas mais complicadas e radicais rupturas sociais e política’”. Nesse sentido o intelectual transformador seria o intelectual comprometido com uma mudança político-social,( cf. Nosella, 2004, p. 165).

notas e algumas sugestões, que não foram aproveitadas. Creio que nossas sugestões deveriam ter sido aproveitadas para melhorar alguns aspectos do curso (P4). Não. Talvez quem elaborou o projeto tenha menosprezado a capacidade dos professores da rede que participariam do curso (P6).

Não.Gostaria de ter participado, de dar opiniões (P8).

Não. Acredito que as coisas aconteceram muito às pressas, mas também não acredito que não iria ser muito diferente se nós professores soubéssemos. Acho que alguns até desistiriam (P9).

Não tinha nenhuma informação. Nem a mais remota idéia, de que na verdade o curso seria montado durante a sua execução (P11).

Das treze professoras entrevistadas apenas duas fizeram referência a informações prévias, embora genéricas, que aconteceram na apresentação do curso, na sede da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (foram eles os P4, P12 E P13, muito embora o P4 afirme que nenhuma das sugestões foi aproveitada); as outras dez professoras afirmaram não terem sido informados, ou mesmo participado em algum momento da concepção do curso. Das dez professoras (77%) que alegam não terem sido chamados a participar, sete sentiram-se incomodadas com essa ausência de informação e participação. De forma geral sentiram-se desprovidas de saber, como é possível inferir pela fala das professoras destacadas. Ao recuperar as Memórias produzidas pela P10, uma das professoras que afirma não ter sido informada sobre o programa de formação continuada, é possível desvelar a forma como se sentiu frente a um programa desencadeado sem sequer uma consulta aos principais interessados, as futuras alunas-professoras:

[...] somos obrigados em julho a mudar nossas rotinas, já prontas desde o inicio de fevereiro.

E lá vem o PEC. Correria. Muda aqui muda ali, é inscrição que é feita. Idas à Sul – 3, era como se eu tivesse implorando por algo que eu não pedi. Precisei me inscrever 4 vezes e quando finalmente consegui, haviam me inscrito no período da tarde e para não perder a vaga, perdi abonadas, ganhei justificadas e injustificadas na prefeitura por conta disso.

O PEC inicialmente me motivava no sentido de aprender, da aquisição de conhecimentos, mas não me agradava o fato de não saber qual era a real formação que eu teria direito...

Em relação a esse aspecto uma das especialistas entrevistadas (diretora de escola, que atuou junto a dezessete professoras que freqüentaram o PEC – Formação Universitária), assim se manifesta:

Nem tudo foi bom. Alguns dos profissionais reclamavam bastante das tarefas; das dificuldades de escrever, não conseguiram digerir, quanto mais escrever o que viu (sic) no Programa. Elas [as professoras] são de um tempo em que responsabilidade é fazer as lições de casa, não estão acostumadas a se perguntar do porquê e para quem fazer. Portanto o Programa seria melhor aproveitado se os organizadores tivessem elaborado diagnóstico [sobre para] quem este trabalho estava direcionado (E4).

O conteúdo do que expressa essa diretora deixa clara a insatisfação, inclusive por parte das pessoas que não freqüentaram o curso, da ausência das ‘vozes’ dos principais interessados, os professores.

Segundo Tardif (2002, p. 241) é preciso reconhecer que,

Em primeiro lugar os professores de profissão são sujeitos do conhecimento [o que implica] reconhecer, ao mesmo tempo, que deveriam ter o direito de dizer algo a respeito da sua própria formação profissional, pouco importa que ela aconteça na universidade, nos institutos ou em qualquer outro ligar. É estranho que os professores tenham a missão de formar pessoas e que se reconheça que possuem competência para tal, mas que ao mesmo tempo, não se reconheça que possuem a competência para atuar em sua própria formação e para controlá-la ao menos em parte, isto é ter o poder e o direito de determinar, com outros atores da educação, seus conteúdos e formas.

Aos professores cabe refletir sobre a condução que as políticas públicas têm feito de suas vidas profissionais e de “abandonar uma atitude defensiva e ‘tomar palavra’ na construção do futuro da escola e da sua profissão” (Nóvoa, 2002, p. 48).

“Tomar a palavra”, fazendo uso de suas vozes, que por muito tempo foram abafadas. Usar a voz para se expressar sobre o que necessitam, suas angústias, como se percebem na estrutura social e, sobretudo para se fazer reconhecer enquanto sujeitos portadores de conhecimentos, atores e co-autores da sua própria formação.

Documentos relacionados