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Figura 1 – Localização do estado do Ceará – Brasil

2 RISCOS DE DESASTRES NATURAIS: CONCEITOS, COMPONENTES E RELAÇÕES NATUREZA/SOCIEDADE

2.2 Os Riscos Naturais: uma situação de probabilidade

2.2.2 As Vulnerabilidades: do natural ao social

Um dos conceitos mais empregados nas últimas décadas é o de vulnerabilidade, estando presente nas ciências da natureza e da sociedade, sob diferentes concepções, mas sendo aplicado em diversos objetos de estudos.

Grosso modo, ser vulnerável é estar de alguma forma exposto a algum evento adverso, cuja ocorrência pode provocar impactos negativos sobre o ser/entidade vulnerável. Neste sentido, o último não é apenas um indivíduo ou grupo social, mas pode ser qualquer entidade física ou abstrata (por exemplo, uma empresa, um ecossistema, um sistema político), que possa ser afetada por um determinado evento perigoso. No dicionário, o termo vulnerável é conceituado como “que se pode vulnerar; diz-se do lado fraco de um assunto ou questão e do ponto por onde alguma coisa ou alguém pode ser atacada” (ROCHA; PIRES, 1996).

Há diversos conceitos de vulnerabilidade que respondem às orientações teóricas, resultado de uma multidimensionalidade de termos no entorno de diferentes objetos de análise. A ausência do entendimento desta diversidade de realidades pelos pesquisadores é a principal causa da falta de consenso conceitual da vulnerabilidade (ALMEIDA, 2010).

Embasado nas propostas de Leone e Vinet (2006) e Dauphiné (2005), Almeida (2010) argumenta que os métodos para a análise das vulnerabilidades podem seguir dois caminhos, a saber: abordagens setoriais e abordagens globais/sistêmicas. Conforme o referido autor, na primeira as vulnerabilidades podem ser definidas ao infinito, dependo da complexidade do objeto estudado, porém para a análise dos riscos ambientais as vulnerabilidades podem ser física, social, institucional, ambiental, patrimonial, funcional e econômica (Quadro 2).

Quadro 2 – Tipos de vulnerabilidade aplicados aos estudos dos fenômenos naturais

Tipo de Vulnerabilidade Características

Vulnerabilidade física (ou estrutural, ou corporal)

Concentram-se na análise das construções, das redes de infraestrutura e do potencial de perdas humanas.

Vulnerabilidade humana ou social

Avalia os retornos de experiência sobre as capacidades de resposta, adaptações, comportamentos e suas consequências socioeconômicas e territoriais. Acrescenta-se ainda a percepção das ameaças ou da memória do risco, o conhecimento dos meios de proteção, os tipos de comportamentos potenciais.

Vulnerabilidade institucional

Trata da capacidade de resposta das instituições diante da crise; funciona como fator indireto da vulnerabilidade social.

Vulnerabilidade ambiental e patrimonial

Analisa os danos sobre os componentes ambientais – vegetação, solos, recursos hídricos, fauna e aspectos culturais provocados por fenômenos naturais.

Vulnerabilidade funcional e econômica

Avalia as disfunções no que tange às atividades econômicas, rupturas nas redes de comunicação e transporte, entre outros. Fonte: Almeida, 2010 baseado em Leone e Vinet (2006).

Já as vulnerabilidade globais e sistêmicas consistem nas abordagens holísticas e inter, multi e pluridisciplinares que buscam a integração de um maior número possível de vulnerabilidade setoriais, principalmente por meio da mensuração (ALMEIDA, 2010).

Com relação aos riscos ambientais, a vulnerabilidade representa uma situação no qual há indivíduos, grupos sociais, espaços e bens sujeitos às adversidades promovidas por um evento ambiental de ordem social, tecnológica ou natural. Portanto, ela é o produto das condições físicas, sociais, econômicas, culturais e ambientais adversas (TOMINAGA, 2009). Neste sentido, vulnerabilidade natural, ambiental, social e socioambiental são termos construtores de uma realidade que põem em destaque os riscos.

2.2.2.1 A Vulnerabilidade dos Espaços Naturais

Nas geociências, o conceito de vulnerabilidade está associado ao qualitativo natural e corresponde ao maior ou menor estágio de estabilidade/instabilidade dos elementos físicos e bióticos, frente à dinâmica dos processos morfopedogenéticos e de fitosucessão, atuantes em cada unidade ecodinâmica (TRICART, 1977). Deste modo, ela resulta dos processos decorrentes das inter-relações entre os componentes integrantes da paisagem natural.

Com relação à vulnerabilidade ambiental, esta corresponde à capacidade de resposta do meio aos efeitos adversos provocados por ações antrópicas, variando conforme suas características naturais e humanas e afetando diretamente a estabilidade do meio (SANTOS; CALDEYRO, 2007; TAGLIANI, 2002). Neste sentido, além dos atributos naturais também são considerados os impactos das atividades humanas sobre a dinâmica dos sistemas naturais.

Santos (2006) corrobora com essa definição ao argumentar que a vulnerabilidade ambiental pode ser entendida como o grau de exposição de um determinado ambiente aos diferentes fatores que podem acarretar efeitos adversos, como impactos e riscos ambientais. Assim, as áreas ambientalmente mais vulneráveis tendem a apresentar um maior risco aos usos humanos.

Para Spörl e Ross (2004) no atual cenário de mudanças tecnológicas, sociais e econômicas qualquer alteração nos componentes dos sistemas naturais pode provocar mudanças de comportamento significativas, de modo que os estudos sobre as dinâmicas ambientais são ferramentas essenciais ao planejamento do território. Os autores afirmam que:

Estes estudos relativos às fragilidades dos ambientes são de extrema importância ao planejamento ambiental. A identificação dos ambientes naturais e suas fragilidades potenciais e emergentes proporcionam uma melhor definição das diretrizes e ações a serem implementadas no espaço físico-territorial, servindo de base para o zoneamento e fornecendo subsídios à gestão do território (SPÖRL; ROSS, 2004, p. 40).

Nestes termos, as vulnerabilidades natural e ambiental podem ser importantes fontes de informações para a gestão territorial, pois apresentam à dinâmica e a degradação do espaço natural, bem como indica as potencialidades, as limitações e os riscos às ocupações humanas (OLÍMPIO; ZANELLA, 2012).

2.2.2.2 A Vulnerabilidade Social aos Riscos Naturais

A vulnerabilidade social reflete as condições objetivas e subjetivas que originam ou aumentam a predisposição dos grupos sociais a serem afetados negativamente por um perigo natural (SOUZA; ZANELLA, 2009), possibilitando estimar quais os danos que a sociedade receberá após materialização deste.

Ela não apresenta uma homogeneidade espacial, mas é mais intensa em porções específicas que concatenam fatores que a ampliam, resultando em uma distribuição espacial dos riscos que revela a segregação socioespacial e socioambiental de uma sociedade. Portanto, vulnerabilidade social aos eventos naturais intensos é, em grande parte, função da distribuição dos indivíduos e dos seus bens sobre espaços em risco (VEYRET; RICHEMOND, 2007).

O Glossário de Defesa Civil Estudos de Riscos e Medicina de Desastres (CASTRO, CALHEIROS, MOURA, 2004) define vulnerabilidade como:

1. Condição intrínseca ao corpo ou sistema receptor que, em interação com