Durante a Puberdade
ASCETISMO NA PUBERDADE
Alternando com os excessos e as irrupções pulsionais do id e com outras atitudes, aparentemente contraditórias, registra-se por vezes, na adolescên-
cia, um antagonismo em relação às pulsões que ultrapassa de longe, em in- tensidade, tudo o que, a título de recalcamento, estamos habituados a ver em condições normais ou nos casos mais ou menos graves de neurose. Na maneira como se manifesta e na amplitude de seu âmbito, parece-se menos com os sintomas de uma pronunciada doença neurótica do que com o ascetismo dos fanáticos religiosos. Na neurose, verificamos haver sempre uma conexão entre o recalcamento de uma pulsão e a natureza ou qualidade da pulsão recalcada. Assim, os histéricos recalcam os impulsos genitais associados com os desejos objetivados do complexo de Edipo, mas são mais ou menos indiferentes ou tolerantes em sua atitude relativamente a outros desejos pulsionais, por exemplo, os impulsos anais ou agressivos. Os neuróticos obsessivos reprimem os desejos sádico-anais que, em conseqüência da regressão, passaram a ser os veículos de sua sexualidade, mas toleram a gratificação oral e não se mostram particularmente desconfiados de quaisquer impulsos exibicionistas que possam ter, desde que não estejam diretamente ligados ao núcleo de suas respectivas neuroses. Na melancolia, as tendências orais são as que sofrem particular repúdio, ao passo que os pacientes fóbicos recalcam os impulsos associados ao complexo de castração. Em nenhum desses casos se verifica um repúdio indiscriminado da pulsão e sempre apuramos, ao analisá-los, a existência de uma relação definida entre a qualidade da pulsão recalcada e as razões do sujeito para expulsá-la da consciência.
Deparamo-nos com um quadro diferente quando, ao analisarmos ado- lescentes, investigamos os motivos do seu repúdio da pulsão. E verdade que, também nesse caso, o ponto de partida do processo se encontra naqueles centros de vida pulsional que estão sujeitos a uma inibição especial, como as fantasias de incesto do período pré-puberal ou a crescente tendência para atividades físicas onanistas, em que tais desejos encontram sua descarga. Mas, a partir desse ponto, o processo amplia-se mais ou menos indiscriminadamente a toda a vida. Como já observei, os adolescentes estão menos preocupados com a gratificação ou frustração de desejos pulsionais específicos do que com a gratificação ou frustração pulsional como tal. Os jovens que passam peta espécie de fase ascética que tenho em mente parecem temer mais a quantidade do que a qualidade de suas pulsões. Desconfiam da fruição em geral e, assim, sua política mais segura parece ser, simplesmente, contrariar os desejos mais urgentes com proibições mais severas. Sempre que a pulsão diz “Eu quero", o ego replica “Não terás”, de um modo bastante parecido ao empregado pelos pais rigorosos, nos primeiros anos de treino de seus filhos pequenos. Essa desconfiança adolescente da pulsão tem uma perigosa tendência para generalizar-se. Poderá começar pelos desejos pulsionais, propriamente ditos, e ampliar-se às necessidades físicas mais comuns. Todos nós conhecemos jovens que renunciaram severamente a quaisquer impulsos que tivessem o sabor de sexualidade e evitaram a sociedade dos de sua própria idade, declinando participar em quaisquer divertimentos e, à moda verdadeiramente puritana, recusando ter alguma coisa a ver com teatro, música
ou dança. Podemos compreender que existe uma conexão entre a abstenção de bonitas e atraentes roupas e a proibição de sexualidade. Começamos, porém, a ficar inquietos quando essa renúncia se estende a coisas que são inofensivas e necessárias, como no caso de um jovem que recusa qualquer proteção contra o frio, mortificando o corpo de todos os modos possíveis e expondo sua saúde a riscos desnecessários; quando não só renuncia a determinadas espécies de prazer oral mas, “em princípio”, reduz sua alimentação diária ao mínimo; quando, pelo fato de ter gozado de longas noites de profundo sono, se obriga a estar de pé muito cedo; quando é relutante ao riso ou ao sorriso; ou quando, em casos extremos, retém a defecação e a micção o maior tempo possível, baseando-se em que não deve ceder imediatamente a todas as necessidades físicas.
Há ainda outro ponto em que essa espécie de repúdio da pulsão difere do recalcamento ordinário. Na neurose, estamos acostumados a ver que, quando certa gratificação da pulsão é recalcada, se encontra um substituto para a mesma. Na histeria, isso se faz por meio da conversão, isto é, a excitação sexual encontra uma via de descarga em outras zonas ou processos corporais que se tornaram sexualizados. Na neurose obsessiva, registra-se um prazer substitutivo no nível em que a regressão teve lugar, ao passo que nas fobias há, pelo menos, algum ganho triunfal. Ou as formas proibidas de gratificação são trocadas por outros modos de fruição, através do processo de deslocamento e formação reativa, enquanto sabemos que verdadeiros sintomas neuróticos, como os ataques histéricos, os tiques, as ações obsessivas, o hábito de ficar cismático, etc., representam compromissos em que as solicitações pulsionais do id não são menos efetivamente satisfeitas do que os ditames do ego e do superego. Porém, no repúdio da pulsão, característico da adolescência, não há escapatória para tal gratificação substitutiva: o mecanismo parece ser de natureza diferente. Em vez de formações de compromisso (correspondentes aos sintomas neuróticos) e os usuais processos de deslocamento, regressão e inversão contra o ego, encontramos, quase invariavelmente, uma transição radical do ascetismo para o excesso pulsional, em que o adolescente induz, de súbito, em tudo o que ele anteriormente considerara proibido e despreza qualquer espécie de restrição externa. Em virtude de seu caráter anti-social, os excessos desses adolescentes são manifestações indesejáveis; não obstante, do ponto de vista analítico, representam uma recuperação transitória e espontânea do estado anterior de ascetismo. Quando essa recuperação não ocorre, e o ego, de certo modo inexplicável, é suficientemente forte para manter seu repúdio da pulsão, sem desvios de qualquer espécie, o resultado é uma paralisia das atividades vitais do sujeito - uma espécie de condição ou estado catatônico que já não pode continuar a ser olhado como um fenômeno normal da puberdade e deve ser reconhecido como uma afecção psicótica.
Levanta-se a questão de saber se estamos realmente justificados em dife- renciar o repúdio da pulsão, durante a puberdade, do usual processo de recalcamento. A base para tal distinção teórica é que, no caso dos adolescentes,
o processo se inicia cora o medo mais da quantidade da pulsão do que da quali- dade de quaisquer impulsos dados; e acaba, não em gratificações substitutivas ou formações de compromisso, mas em uma justaposição ou sucessão abrupta de renúncias pulsionais e excessos pulsionais ou, como seria mais correto dizer, na sua alternação. Por outro lado, sabemos que no recalcamento neurótico comum o investimento quantitativo da pulsão a ser recalcada é um importante fator e que na neurose obsessiva é muito usual a proibição e a indulgência sucederem-se reciprocamente. Não obstante, ainda temos a impressão de que um processo mais primitivo e menos complexo está em ação, não no recalcamento propriamente dito, mas no ascetismo da adolescência; possivelmente, este representa um caso especial ou, melhor, uma fase preliminar do recalcamento.
O estudo analítico das neuroses sugeriu, há muito tempo, a existência na natureza humana de uma disposição para repudiar certas pulsões, em particular as pulsões sexuais, de um modo indiscriminado e independente da experiência individual. Essa disposição parece constituir uma herança filo- genética, uma espécie de depósito acumulado de atos de recalcamento praticados durante muitas gerações e meramente continuados, não iniciados, por indivíduos. Para descrever essa atitude dualista da humanidade em face da vida sexual aversão constitucional conjugada com o desejo apaixonado Bleuler cunhou o termo ambivalência.
Durante os períodos mais calmos da vida, o antagonismo primordial entre o ego e a pulsão - o medo da força das pulsões, como lhe chamamos - é pouco mais do que um conceito teórico. Presumimos que seja, invariavelmente, a base para a angústia pulsional, mas, para o observador, tende a obscurecer-se, em virtude dos fenômenos mais notórios e salientes que decorrem da angústia objetiva ou da angústia de consciência e resultantes de choques a que o indivíduo foi exposto.
Provavelmente, o aumento da quantidade de pulsão na puberdade e em outros períodos da vida, em que há um súbito afluxo de energia pulsional, acentua esse antagonismo primário em um grau tal que se converte em um específico e ativo mecanismo de defesa. Sendo assim, o ascetismo da puberdade deve ser interpretado não como uma série de atividades de recalcamento, quali- tativamente condicionadas, mas simplesmente uma manifestação da hostilidade inata entre o ego e as pulsões, a qual é indiscriminada, primária e primitiva.