CAPÍTULO 2 – ALGUNS ASPECTOS DO SISTEMA TEMPO-
2.2 Aspecto
Na seção anterior desse capítulo discutimos acerca da teoria de Reichenbach (1947) sobre o tempo porque a utilizaremos ao longo deste trabalho. Sendo ela de fundamental importância para a análise do item ainda e para a teoria assumida neste trabalho sobre aspecto, que é outra questão muito ligada ao item e suas interpretações.
O aspecto é uma categoria semântica pela qual há “diferentes maneiras de visualizar a constituição temporal interna de uma situação” (COMRIE, 1976), ou em uma outra concepção, não só visualizar, mas intervir ou penetrar na composição temporal de uma predicação, considerando, assim, aspecto como uma unidade subatômica, ao passo que o tempo seria atômico e indivisível (PARSONS, 1990).
Na estrutura aspectual podem influenciar diversos fatores, tais como verbos, advérbios e perífrases aspectuais, isso sem contabilizar os objetos que combinam com eles e tantos outros elementos que influenciam na sua realização. A combinação de tudo isso é que vai permitir um olhar sob a perspectiva não mais da escolha do falante, mas sim dos intervalos. Por isso, assumimos com Klein (1994) que aspecto (gramatical) é a relação entre o intervalo de referência e o intervalo do evento. Vejamos a diferença entre os exemplos:
(16) a. João correu de moto.
b. João estava correndo de moto quando Maria chegou. A sentença (16a) nos diz que em algum momento do passado, João correu de moto e esse evento está acabado. Já (16b), em algum intervalo do passado João estava correndo no momento em que Maria chegou, mas, se o evento de correr de moto está acabado ou não, nada podemos afirmar. Somos capazes de dizer que o evento em (16b) iniciou, mas seu término é incerto. Perceba que, ao descrevermos essas duas sentenças, falamos sobre a duração do evento, seu início e seu término e, assim, falamos de aspecto verbal.
Para representar essa relação entre os intervalos, Klein (1994) introduziu um novo operador o “estar contido”, símbolo da matemática “” e para os casos em que há simultaneidade e igualdade “”. Nesse caso, em (16b), o intervalo do evento (João estar correndo) é anterior ao intervalo de fala e isso é dado pelo tempo. Também, o intervalo do evento inclui o
intervalo de referência (chegada da Maria) e isso é o aspecto imperfectivo: o evento transborda a referência.
Com o intuito de sistematizar essa organização dos intervalos, caracterizados como inclusos, simultâneos ou anteriores, Klein (1994) dividiu o sistema aspectual das línguas em perfectivo, imperfectivo e prospectivo. Abaixo, melhor explicados e exemplificados os dois primeiros que são os que nos interessam aqui:
a) Perfectivo
No perfectivo o TSit19 está (17) Eu estudei.
Figura 6 – Representação da sentença (17) Eu estudei
Se o tempo da situação está incluído no tempo da referência, o evento está fechado no tempo, por isso é perfectivo. Essa relação entre Tsit e TT é melhor visualizada em sentenças com adjuntos temporais:
19 Enquanto estivermos tratando da teoria de Klein (1994), utilizaremos sua nomenclatura, depois voltaremos às nomenclaturas introduzidas por Ilari (1997), com base em Reichenbach (1947).
(18) A Maria se apaixonou no momento em que João estava fazendo a janta.
Maria se apaixonou evento de João fazer a janta.
Figura 7 – Representação da sentença (18) A Maria se apaixonou no momento em que João estava fazendo a janta.
Para saber qual intervalo que está contido no qual, basta pensarmos qual dos eventos já estava acontecendo quando um outro evento entra em cena. Por exemplo, em (18), primeiro João estava fazendo a janta para nesse intervalo Maria se apaixonar, logo, Maria se apaixonou (Tsit) está contido ou é igual ao evento de janta (TT). Sua notação é a seguinte: Tsit TT. b) Imperfectivo
No imperfectivo o Tsit começa antes ou simultaneamente ao TT e termina depois dele. Assim, o Tsit contém o TT (TT TSit):
(19) Eu estava estudando, quando o menino gritou.
Figura 8 – Representação da sentença (19) Eu estava estudando, quando o menino gritou.
O Tsit (estar estudando) já estava acontecendo quando houve o TT (grito), portanto, o grito está incluído no Tsit. Nesse caso, o evento de estudar pode se estender para além do intervalo de referência, ele está, pois, se desenrolando no tempo, sem que haja, contudo, um comprometimento com
o final, tomando o intervalo de referência como pano de fundo. Ele está, pois, em aberto. Segundo Smith (1997), assumindo Comrie (1976), o aspecto verbal se subdivide em dois:
Há basicamente dois pontos de vista: o perfectivo e o imperfectivo. Quando o falante escolhe o primeiro, ele descreve uma situação por completo, i.e., com seu começo, meio e fim; quando escolhe o segundo, ele descreve uma parte da situação, i.e., ou o começo, ou o meio, ou o fim (BERTUCCI, 2011, p. 16)
Esse é um dos pontos cruciais deste trabalho. O ainda pode ocorrer livremente e com mesma interpretação nos dois pontos de vista? Conforme os dados empíricos apresentados no primeiro capítulo, já apontados por Ilari (1984) e verificados em Gritti (2008), ele não se combina com essa situação acabada do perfectivo sem algum auxílio contextual. É também objetivo deste trabalho explicar o porquê dessa restrição.
A literatura defende que um evento télico veiculado sob o aspecto perfectivo acarreta o alcance do telos desse evento, ou seja, que “o perfectivo denota um evento como um todo, incluindo, então, seu início e fim (COMRIE, 1976; KAMP & REYLE, 1993), entre outros. Essa é a leitura que Kratzer (1998) faz do texto de Klein (1994), o evento télico perfectivo chegou ao seu final, atingiu seu objetivo, porque ele está contido no tempo de referência (t (e) t), conforme as fórmulas de Kratzer (1998):
(20) [[imperfectivo]] = P. t. e [t (e) P(e)] (21) [[perfectivo]] = P. t. e [(e) t P(e)]
A denotação (20), do imperfectivo, afirma que o imperfectivo denota um conjunto de eventos P tal que o tempo do evento inclui o tempo de referência. O ME, representado na fórmula por (e)
,
contém o momento de referência: t (e). Já a denotação do perfectivo em (21) é o conjunto de eventos que têm a propriedade de ser P e cujo intervalo está contido no momento de referência: (e) t. Assim, no perfectivo, o MR inclui o intervalo em que o evento ocorreu ou o momento do evento até ser concluído, e isso acarreta que o evento se completou.Como veremos mais adiante, na seção 2.4, a ocorrência de ainda não está condicionada ao alcance ou não do telos. Assim, iremos considerar, com Kratzer (1998), que o evento descrito no aspecto perfectivo pode estar
acabado (no sentido de que o intervalo de evento está contido no intervalo de referência)
Dadas as teorias de tempo e aspecto propostas para as línguas e que iremos adotar ao longo deste trabalho, é necessário visualizar como se comporta o sistema tempo-aspectual do português brasileiro mediante tal aparato. Em seguida, faz-se também necessário conhecer como é a atuação do ainda dentro desse cenário.