Capítulo 4: Globalização: definições em fragmentos discursivos
4.1.1 Análise do material empírico do período de 1995 a 1999
4.1.1.4 Aspecto Cultural
Os discursos discriminatórios servem à dominação e à exclusão social, como destaca Sodré88.
[...] Drácula, bem o sabem os aficionados, não se reflete no espelho —logo, é sem imagem. O mito do vampiro tem sido persistente no imaginário contemporâneo, talvez porque indique, com alguma magia, a armação da cultura em construção de uma identidade. O conde Drácula é o inverso da identidade normalizada pela cultura pequeno-burguesa. E, para coroar todas as suas inversões antropológicas, não aparece no espelho. Mais uma razão, assim, para a atualidade desse mito. Na sociedade da imagem (anagrama de magia) ou dos dispositivos de visão, o sujeito só existe se aparece no "espelho", isto é, se tem condições socioculturais de ter imagem publicamente
reconhecível.[...] Ao contrário do que possam pensar os otimistas das chamadas tecno-democracias ocidentais, apologistas do mundo neoliberal, a globalização cultural só tem exacerbado a discriminação étnica. [...] (SODRÉ, M. Uma genealogia das imagens do racismo. Folha de S. Paulo, São Paulo, 19 mar. 1995. Mais! p. 6-6.)
Analisando o gosto por músicas com conteúdo crítico irreverente, que misturam o idioma vernáculo com o inglês, Gabeira89 afirma:
[...] O idioma dominante que conquista o mundo numa marcha avassaladora, navegando pela Internet, pelos canais de TV e pela música popular, perde aqui, nos Mamonas e em Falcão, todo seu poder ameaçador. Na verdade, despojado da pronúncia exata de suas palavras, das leis gramaticais, ele é engolido pelo nosso idioma e se transforma apenas num instrumento que amplia o vocabulário. Falcão e os Mamonas, com esse artifício, fazem o mesmo que os três porquinhos que construíram uma casa de cimento ou o caçador que salvou a avó de Chapeuzinho Vermelho. Eles derrotam o lobo mau, eles comem o lobo. Mas os perigos não param no idioma. Globalização significa consumo universal: [...] Se o idioma e o consumo forem equacionados, restará ainda um novo obstáculo. A globalização não reorganiza apenas a linguagem universal nem o estoque de produtos que teremos de usar, de Nova York a Nova Deli, ela é uma reestruturação do charme, do que é atraente ou não, in ou out. [...](GABEIRA F. Mamonas cantam medo da aldeia global. Folha de S. Paulo, São Paulo, 04 dez. 1995. Ilustrada, p. 5-10.)
Os “riscos de degeneração da democracia” no mundo globalizado são tratados no argumento de Lafer90.
[...] Em síntese, e para arrematar, explicitando os termos de referência deste texto, no contexto de um colóquio voltado para os riscos de degeneração da democracia: 1. uma das condições de governabilidade no mundo contemporâneo é a capacidade de o sistema político processar, simultaneamente, a cultura do saber e a do informar, sob pena de ficar à deriva, sem condição de exercer a função hierárquica de coordenação da gestão da sociedade; 2. a boa governança (''good governance'') como um indispensável ingrediente ético de governabilidade democrática transita, no dia-a-dia da relação governantes-governados, por um apropriado esclarecimento da opinião pública; 3. este apropriado esclarecimento requer uma mediação entre a cultura do informar, tal como hoje a opera a mídia, e o pluralismo da cultura do saber, tal como a desenvolvem os intelectuais; 4. as dificuldades desta mediação residem na lógica da fragmentação que permeia a cultura do informar da mídia e na consequente dificuldade que tem de incorporar, na avaliação dos eventos, a lógica da globalização da cultura do
89 Fernando Gabeira, articulista da Folha de São Paulo. Foi presidente do Partido Verde.
90 Celso Lafer, professor-titular da Faculdade de Direito da USP. Foi ministro das Relações Exteriores (1992) e embaixador, chefe da Missão Permanente do Brasil junto às Nações Unidas e à Organização Mundial do Comércio, em Genebra. Esse texto é uma versão revisada de palestra apresentada no fim de 1995 em Ivrea (Itália), no 15º Seminário de Filosofia Política, anualmente organizado pelo Centro Studi di Scienza Politica Paolo Farneti (Turim), Fondazione G.G. Feltrinelli (Milão), Scuola Normale Superiore (Pisa) e Biblioteca Cantonale (Locarno), que teve como tema geral “Degeneração da Democracia”.
saber; e 5. o hiato entre o informar centrífugo e o saber centrípeto compromete o esclarecimento da opinião pública e é um dos riscos de degeneração da democracia no mundo contemporâneo, posto que paralisa a atuação consistente e consciente de uma cidadania ativa.( LAFER, C. A informação e o saber. Folha de S. Paulo, São Paulo, 11 fev. 1996. Mais! p. 5- 10.)
A formulação bipolar da discussão local/global, nacional/universal não se constitui mais objeto válido do discurso contemporâneo, segundo Peixoto91.
[...] A questão não é mais a metamorfose do local em universal, a antiga dialética do particular e do geral, que incentivava obras de caráter regionalista e nacional. Aqui, trata-se de obras que se utilizam da sua condição localizada para terem espectro global. Artistas que, trabalhando nas entrelinhas da dissonância industrial nacional, que alia o mais moderno ao mais precário, conseguem dar uma dimensão para seus trabalhos que seria difícil em países social e economicamente mais sistemáticos. Porque têm as feições e a escala da nossa desmedida metropolização. [...] (PEIXOTO, N. B. A escala desmedida de Babel. Folha de S. Paulo, São Paulo, 14 abr. 1996. Mais! p. 5- 7.)
A questão da identidade ainda precisa ser muito refletida, para que possa apresentar um conteúdo crítico, como discute Sevcenko92.
“Somos, ainda hoje, uns desterrados em nossa terra.” Com essa frase lapidar, inscrita logo no início do clássico ''Raízes do Brasil'', o professor Sérgio Buarque de Holanda assinalou muito mais do que a agenda da sua geração, fixando de fato o núcleo elementar da consciência intelectual brasileira.[...]Nesse sentido, não há imagens do Brasil ou imagens da Europa (ou dos Estados Unidos ou do Primeiro Mundo, como quer que seja), como se fossem projeções autênticas de espelhos gigantescos. O que há são sistemas de imagens do Brasil e sistemas de imagens da Europa, que podem ser articulados e multiplicados para compor a retórica de um presente congelado da imagem, que nega o presente fluido, carregado das tensões da história. Assim, a questão da identidade como se formula agora, diferentemente do momento do professor Sérgio Buarque, alimenta a iconolatria, em vez de avançar a crítica. Se éramos uns "desterrados na nossa terra", somos agora uns retratados no lugar e no papel que nos cabe nesse latifúndio. [...] ( SEVCENKO, N. As guerrilhas pela "ocultura". Folha de S. Paulo, São Paulo, 14 abr. 1996. Mais! p. 5- 5.)
A cultura local é que se torna universalizada, na reflexão de Bonassa93.
91 Nelson Brissac Peixoto, professor do departamento de comunicação e semiótica da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e coordenador do projeto "Arte / Cidade".
92 Nicolau Sevcenko, professor de história na USP, professor visitante do King's College, da Universidade de Londres, editor associado do ''The Journal of Latin American Cultural Studies'' e autor de ''Orfeu Extático na Metrópole'' (Companhia das Letras).
[...] Esse caminho indica também que Bergman captou um dos sentidos da globalização: contra a homogeneização das mercadorias, a cultura se universaliza quanto mais se torna local. [...] (BONASSA, E. C. No palco, o obscuro Bergman faz rir. Folha de S. Paulo, São Paulo, 30 mai.1996. Ilustrada, p. Especial -1.)
A desvinculação do espaço público, gerada no processo de globalização, torna a democracia um produto de consumo, segundo Lima94, citado em Silva95.
[...] A globalização, além de ser tida como inexorável por todos, disse Lima, passou a ''delimitar e agendar o espaço da discussão política''. O problema, concluiu, é que a mídia atua como se estivesse fora desse processo, quando na verdade está no seu centro.[...]Por outro lado, concluiu, essa nova mídia está criando uma forma de consumo totalmente fragmentada, onde cada um procura no veículo que achar mais adequado informações de caráter individual. Está nascendo uma ''democracia de supermercado'', sem qualquer vínculo com o espaço público. [...] (SILVA, F. B. Mídia mundializada ameaça democracia. Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 jul. 1996. Cotidiano, p. 3-6.)
A estratégia ideológica de promoção da padronização cultural é criticada por Gonçalves96.
[...] A globalização cultural é tomada como peça ideológica de uma estratégia de domesticação em escala planetária, que resultaria na configuração de um mundo integrado e organizado nos moldes de um gigantesco Estado- nação.Para que esse processo exista é necessário imaginar um centro irradiador, cuja hegemonia econômica, tecnológica e cultural poderia ser coroada com a conquista final do planeta. Seu nome é conhecido: imperialismo capitalista.[...] Curiosamente, entretanto, uma das características importantes do que se entende hoje por cultura global é justamente a maior visibilidade de manifestações étnicas, regionalistas ou oriundas de sociedades ''excluídas'' - do cinema iraniano à literatura africana.[...] Essa sobreposição é sugestiva e ajuda a compreender o estágio atual da mundialização cultural: um processo em curso, sugerido, mas não concluído, no qual formas culturais nacionais ou locais entram crescentemente em contato, desterritorializam-se, geram mediações e criam ''terceiras culturas''. As ''terceiras culturas'', na definição de Featherstone, são um ''conjunto de práticas, conhecimentos, convenções e estilos de vida que se desenvolvem de modo a se tornar cada vez mais independentes dos Estados-Nação''.[...] Seja qual for a perspectiva que se adote, o fato é que está em curso uma nova etapa da internacionalização, embora seu futuro permaneça em aberto. [...] (GONÇALVES, M. A. Intercâmbio aproxima países e anuncia "cultura global", Folha de S. Paulo, São Paulo, 02 nov. 1997. Caderno Especial, p. Especial-10 11/930.)
A globalização é definida como resultado de uma profunda imbricação entre o global e o local.
94 Venício Lima, antropólogo, professor da UnB (Universidade de Brasília). 95 Fernando de Barros e Silva, reportagem especial para a Folha.
[...] Reduzida a seus termos essenciais, é essa, no fundo, a definição da globalização: tudo o que é global é relevante para o local; tudo o que é local tem alguma relevância para o global. Errado seria deduzir daí que a causa de nossos males é não estarmos suficientemente inseridos no mundo globalizado. [...] (RICUPERO, R. A crise dos quinhentos anos. Folha de S. Paulo, São Paulo, 09 mai.1999. Dinheiro, p. 2-2 5/2758.)
A oposição entre cultura e subordinação comercial no debate da globalização é destacada por Bourdieu.
[...] Assim, a opção não é entre a "globalização", isto é, a submissão às leis do comércio, portanto ao reino do "comercial", que é sempre o oposto do que se entende de modo mais ou menos universal por cultura, e a defesa das culturas nacionais ou essa ou aquela forma de nacionalismo ou localismo cultural. Os produtos kitsch da "globalização" comercial, a dos jeans, da Coca-Cola ou do seriado, ou a do filme comercial de grande orçamento e efeitos especiais, ou ainda a da "world fiction", cujos autores podem ser italianos ou ingleses, se opõem em todos os aspectos aos produtos da internacional literária, artística e cinematográfica, cujo centro está em toda parte e em lugar nenhum, embora tenha sido por muito tempo e talvez ainda seja Paris, lugar de uma tradição nacional de internacionalismo artístico, ao mesmo tempo que Londres e Nova York. [...] (BOURDIEU, P. Bourdieu desafia a mídia internacional. Folha de
S. Paulo, São Paulo, 17 out. 1999. Mais! p. 5-8 10/6537.)
Uma reflexão importante sobre a questão cultural no mundo globalizado é apresentada por Vianna97.
[...] Qualquer uma das mais de 2.000 filiais do Starbucks Coffee, a cadeia vitoriosa que sofisticou o conceito de fast-food nos Estados Unidos dos anos 90, deveria conter um altar para Vasco da Gama ou para a Companhia das Índias. É o caminho inverso do McDonald's (agora território do lúmpen norte- americano), que impõe a coca-cola para todo o planeta: no Starbucks, o consumidor pode escolher entre o Brazil Ipanema Bourbon, o Ethiopia Sidamo, o decaf Sumatra ou o decaf Guatemala Antigua, entre dezenas de outras possibilidades.[...] Um recente anúncio de página inteira publicado no "New York Times", assinado por organizações como o Greenpeace US, o Wild Earth e o International Forum on Globalization, anunciava a catástrofe: "Pegando carona nas cargas e lastros de navios, em aviões e carros, milhões de insetos, bactérias e vírus, sementes, plantas e animais ganharam nova mobilidade global. Transplantados entre continentes, eles se tornam agentes importantes na crise de extinção global. Você pode ajudar a parar com isso".[...] A bioinvasão já faz parte das preocupações urgentes do governo norte-americano. [...] (VIANNA, H. Quem se arrisca por pimenta? Folha de
S. Paulo, São Paulo, 24 out. 1999. Mais! p. 3-5 10/9165.)
Assuntos como fragmentação da cultura pela mídia, penetração de idioma, lógica da globalização da cultura, discriminação ética, local/global, identidade, padronização cultural,
97 Hermano Vianna é antropólogo, autor de “O Mundo Funk Carioca” e “O Mistério do Samba” (Jorge Zahar). Ele escreve mensalmente na seção “Brasil 500 d.C.”, da Folha.
forma de consumo fragmentada, oposição entre culturas e subordinação comercial são, entre outros, tratados no âmbito de discussão da globalização cultural nesse período. As críticas associadas a esses conteúdos são marcas dos dados apresentados, as quais tratam da irreverência na utilização da língua inglesa como uma ampliação vocabular do português à inversão processada no conceito de fast food, onde, em vez de significar uma padronização de oferta de produtos, significa a opção de escolha de produtos do mundo todo em um só estabelecimento.