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5. A PERÍFRASE VERBAL IR+INFINITIVO E O FUTURO DO DIALETO

1.1 Função Aspectual

1.1.2 Aspecto Imperfectivo Inceptivo Semelfactivo

Enquadram nessa classificação ocorrências em que o evento é visto como singular e atélico, pois o falante, nesse caso, faz uma referência explícita à estrutura temporal interna de uma situação (COMRIE, 1976, p. 04), focalizando apenas o início de um estado de coisas.

Os tempos verbais mais associados a essa função são Pretérito Perfeito do Indicativo (63,3%), por meio do qual o falante foca o início de um evento atélico que aconteceu em um momento anterior ao momento da fala, como mostra (60a), e o Pretérito Imperfeito do Indicativo (32,2%), por meio do qual o foco também se volta para o início de um evento atélico que pode ter acontecido em um momento anterior ao momento da fala (61a) ou em um futuro em relação a um passado (62a).

(60) IRPRET. PERF. IND. + INFINITIVO

a. uma S-10 tava vin(d)o na/ em/ na toda né? numa curva assim… aí ele foi virá(r) o cara veio com tudo e quase veio pra cima pra e/ dele né? aí aí ele se jogô(u) no barranco (AC-023; NR; L.179)

b. uma S-10 tava vin(d)o na/ em/ na toda né? numa curva assim… aí ele começou virar o cara veio com tudo e quase veio pra cima pra e/ dele né? aí aí ele se jogô(u) no barranco (61) IRPRET. IMPERF. IND. + INFINITIVO

a. ele se trancô(u) no quarto falan(d)o que ia dormí(r) aí quando meu amigo foi vê(r) ele tava ten/ ele tem/ ia acendê(r) um cigarro pra pra fumá(r)... (AC-001; NR; L.91)

b. ele se trancô(u) no quarto falan(d)o que ia dormí(r) aí quando meu amigo foi vê(r) ele tava ten/ ele tem/ começava a acender um cigarro pra pra fumá(r)...

c. *aí quando meu amigo foi vê(r) ele tava ten/ ele tem/ acenderia um cigarro pra pra

fumá(r)...

(62) IRPRET. IMPERF. IND. + INFINITIVO

a. sempre fico é lá no FUNdo mesmo que tá é bem gostoso tem::... um jardim:: assim cheio de gra::ma... tem a ducha lá que é onde... ia tê(r) pisCIna... agora num vai mais. (AC-010; DE; L.197)

b. sempre fico é lá no FUNdo mesmo que tá é bem gostoso tem::... um jardim:: assim cheio de gra::ma... tem a ducha lá que é onde... teria pisCIna... agora num vai mais.

Orações Coordenadas ou Justapostas foram o tipo oracional mais frequente (58,9%) dessa função. O tipo de frase mais recorrente é a Declarativa Afirmativa (98,9%) e o tipo de texto, o Narrativo, predominância justificável pelo fato de que a maioria dos eventos, nesse

type, são anteriores ao MF, como mostram (60a) e (61a).

Como leitura dominante em (60a), o falante se vale da construção ir+infinitivo para marcar o início de um estado de coisas singular e não acabado – o que se comprova pela paráfrase em (60b), possível de ser construída por recurso ao fasal começar. V1 está

flexionado no Pretérito Perfeito do Indicativo, tempo mais recorrente nessa função (63,3%), fato que, em princípio, pode parecer paradoxal, já que este tempo verbal é prototípico de aspecto perfectivo; contudo, essa contradição se desfaz quando consideramos que a expressão temporal não se dá apenas pela presença de morfemas ou auxiliares, mas também pela presença de adverbiais ou elementos que favoreçam a interpretação temporal. A interpretação

temporal/aspectual de (60a) não é a de Pretérito Perfeito nem de Aspecto Perfectivo, já que, claramente, a ação descrita não foi acabada. É possível identificarmos, ainda que em segundo plano, uma leitura de tempo passado, já que o evento é anterior ao momento da fala (ME, MR - MF); tal distância temporal é categórica quando V1 flexiona-se no Pretérito Perfeito do Indicativo e é favorecida pelo tipo de texto Narrativo. O contexto sintático em que ocorre a construção "foi virar" é o de coordenação, tipo mais recorrente para essa função; o falante narra um evento apresentando-o como verdadeiro, já que o enunciado é escopado por uma força ilocucionária Declarativa Afirmativa.

Em (61a), fica claro que o falante usa a construção ir+infinitivo para marcar o início de um evento, o que também se confirma pela paráfrase possível deir por começar em (61b),

predicações acerca das quais nada podemos afirmar sobre o completamento da ação; o evento é também singular, não-reiterativo. Por assim se comportar, esse grupo verbal tem como leitura predominante a de Aspecto Imperfectivo Inceptivo Semelfactivo. V1 está flexionado no Pretérito Imperfeito do Indicativo, segundo tempo verbal mais recorrente para essa função (32,2%) e prototípico do aspecto imperfectivo. Em (61a) verifica-se que o ME é anterior ao MF, distância temporal que é favorecida pelo tipo de texto narrativo e que inviabiliza a substituição dessa construção pelo futuro sintético (61c). A força ilocucionária que incide sobre o enunciado é a Declarativa Afirmativa, a mais recorrente para essa função.

Em (62a), nossa leitura aspectual deve-se a dois fatores: (i) a flexão verbal do auxiliar no Pretérito Imperfeito do Indicativo; e (ii) a oração que se segue, a qual mostra que, de fato, o estado de coisas não foi acabado. É importante salientar que a perífrase ia ter tem valor de Futuro do Pretérito (teria), conforme mostrado em (62b) e, como dito anteriormente, o futuro

em si, bloquearia o aspecto (TRAVAGLIA, 1982). Contudo, a presença da segunda oração parece ser recurso de que o falante lança mão para explicitar que, na verdade, o estado de coisas formado pela perífrase verbal não foi terminado, apontando, assim, para o tempo

interno de realização de um estado de coisas, que poderia ter se realizado, mas não se realizou. Favorece também o predomínio dessa função o fato de essa ser uma oração Declarativa Afirmativa.

Embora duas distâncias temporais tenham sido constatadas para esse type, a maioria das ocorrências tem o ME anterior ao MF (90% dostokens dessa função); assim, são poucas

as ocorrências que admitem alternância com o futuro sintético (10%), como é o caso de (62a), mas não de (61a) e tampouco de (60a).

Um dado interessante a ser observado nesse type é que, quando V1 encontra-se flexionado no Pretérito Imperfeito do Indicativo, e a construção tiver futuridade como leitura secundária (62a), o falante toma como referência um momento anterior ao MF (MR MF -ME). Essa constatação não se verifica quando V1 está flexionado no Pretérito Imperfeito do Indicativo e no Pretérito Perfeito do Indicativo, e a construção tiver um time de anterioridade ((60a) e (61a)), pois, nesses casos, o MR coincide ou como ME ou com MF (MR, ME - MF ou ME - MF, MR).