Todos os profissionais de enfermagem das UTIs devem preocupar-se em adquirir um conhecimento básico de princípios éticos para aplicação na prática assistencial. Mas a atuação como profissional demonstra que só o conhecimento destes princípios norteadores não é suficiente, pois a sua aplicação e implicações na assistência são complexas e de difícil resolução. É necessário também manter a integridade ética na profissão, com uma sistemática e rigorosa avaliação da atuação profissional, e perceber as implicações desta assistência sobre o paciente, a família e outros membros da equipe multiprofissional. O raciocínio ético do profissional de enfermagem é indispensável para a equipe de UTI e deve orientar a vida profissional e pessoal de cada um, pois não há como separar o profissional do pessoal e vice-versa, uma vez que o ser humano é único e indissociável.
Na enfermagem a ética, questiona basicamente, a conduta, os valores morais, as posturas e obrigações de cada profissional, que são os princípios balizadores das situações clínicas ou do trabalho multiprofissional. Além disso, reflete também multiplicidade de valores, conflitos profissionais, morais e institucionais. Por isso é imprescindível o conhecimento dos princípios éticos e legais, bem como a capacidade de usá-los para sua proteção. Tais princípios servem ainda para incriminar o profissional que agir~em desacordo com as normas estabelecidas pelo órgão máximo da sua categoria.
Nesta compreensão do princípio ético, é evidente a necessidade de uma reflexão que defina quais são os interesses do paciente, quais os seus valores, hábitos, crenças e costumes. Em segundo lugar, é necessário demarcar os valores profissionais e pessoais do enfermeiro, os princípios institucionais e todas as questões legais impostas pela sociedade. Esta análise ética situacional do processo de enfermagem proporcionará tomadas de decisão mais firmes e mais embasadas nos preceitos vigentes, o que diminuirá, com certeza, dilemas em relação à conduta profissional.
Devemos sempre ter em mente que a ação da enfermagem precisa respeitar a autonomia do paciente e dos outros profissionais. A manutenção da integridade ética requer um exame sistemático das ações junto ao paciente, para que a assistência valorize cada vez mais a vida, tanto de quem recebe, como de quem presta o cuidado.
Acreditamos que a autonomia das pessoas seja o princípio básico da ética do profissional de enfermagem. E o que pregam Hudak e Gallo (1997, pág. 96):
"Respeitar a autonomia é tratar o outro com respeito e respeitar o plano de ação que ele escolhe. O princípio da autonomia origina a regra ou doutrina do consentimento informado. O dever do enfermeiro, em relação a este princípio, é perceber que o paciente ou o responsável pelo paciente é verdadeiramente autônomo, antes que seja tomada uma decisão de assistência à saúde. Um enfermeiro responsável é alguém capaz de fazer um julgamento substituto... um paciente que consente livremente, totalmente informado, tem o direito de tomar uma decisão autônoma, corresponda ou não ao que os outros pensam que ele deva fazer, à exceção de que a decisão não prejudique os outros".
Continuando, destacam cinco princípios norteadores das ações do enfermeiro em
UTI:
• “Um enfermeiro realiza apenas aquelas funções para as quais foi preparado por educação e por experiência.
• Um enfermeiro realiza aquelas funções com competência.
• Um enfermeiro delega responsabilidade apenas para a equipe cuja competência tenha sido avaliada e considerada aceitável.
• Um enfermeiro toma medidas apropriadas conforme indicado por observações do paciente.
• Um enfermeiro conhece as políticas da agência empregadora”.
Germano, citado por Schwartz (1997, pág. 30), vai mais longe na definição da ética
profissional:
"Hoje, com o desenvolvimento rápido de técnicas e do aparato farmacológico e de tecnologias, pode-se prolongar vidas, mas com isso ocorreu a preocupação com os aspectos éticos que envolvem estes pacientes".
E ainda:
"Em uma UTI, dificilmente o paciente é respeitado em sua individualidade, privacidade, valores culturais, religiosos e até no seu natural pudor ou intimidade, apesar do que é mencionado no código de ética da enfermagem".
Complementando, Reiser, citado por Schwartz (1997, pág. 30), faz um alerta sobre
os problemas éticos em UTI:
"Como a tecnologia avançou, tomando-se mais poderosa, somos crescentemente capazes de salvar vidas, mas não pessoas, onde muitos clientes têm vida sem experiência, ainda que o sofrimento vivenciado pelos clientes que tomam-se dependentes dos mais variados aparatos tecnológicos também é compartilhado por seus familiares".
Esclarecendo melhor este aspecto, Reiser, citado por Barbosa (1995, pág. 26),
“de que a ética lembra aos profissionais que eles são agentes morais com escolhas a serem tomadas sobre o uso dos instrumentos no cuidado, fazendo-as, aplicando padrões e princípios morais para os fins que eles e seus pacientes desejam. Deste modo encoraja o enfermeiro em perguntar a si mesmo a sua conduta, bem como pacientes, famílias e equipe que se confrontam com ela são pressionados para uma reflexão moral, de modo que possam fazer escolhas sobre a tecnologia de modo sensato”.
Para Marsden, citado por Barbosa (1995, pág. 24),
“o imperativo tecnológico que cita o que deveríamos fazer, o que podemos fazer, tem contribuído para muitas implicações éticas, sendo as mais destacadas o abandono da tecnologia sustentadora da vida, o reconhecimento e prevenção da desumanização da equipe e a alocação de recursos na terapia intensiva”.
Na verdade, o que o profissional da enfermagem sempre deve ter em mente, respaldando a sua atuação ética, é que o serviço, a tecnologia, o avanço científico, valorizem a qualidade de vida do ser humano.
Acreditamos que o princípio norteador da ética, na enfermagem em UTI, é o da valorização da vida com qualidade; do respeito ao ser humano como cidadão responsável; da autonomia e liberdade de ação das pessoas; do respeito à cultura, às crenças e aos valores de cada indivíduo, para que ele seja feliz, e a biocentralidade o bem maior da humanidade.
Com relação à Observação da ética no trabalho, primeiramente solicitei à administração do hospital, à chefia de enfermagem e da UTI, a permissão para fazer a prática assistencial naquele setor.
Após tive dois encontros com os enfermeiros do setor(chefia e responsável pelo turno da tarde), durante os quais fiz uma exposição dos objetivos, metodologia e idéias sobre o trabalho. Em seguida, tive oportunidade de colocar os objetivos do trabalho a toda a equipe de enfermagem da UTI. Antes solicitei o consentimento para a realização do estudo sem grande interferência sobre a liberdade de atuação dos enfermeiros e sobre as atividades da assistência. Combinou-se então com o grupo o cronograma das reuniões, com datas e horários. Durante a ausência da equipe para os encontros, os acadêmicos de enfermagem do VII nível assumiriam o cuidado do setor e dos pacientes da UTI. Também se discutiu a respeito do sigilo quanto à identificação de nomes, decidindo-se preservá-los com a utilização de números (entrevista 1, entrevista 2, etc ...). O anonimato dos entrevistados e pesquisados possibilitou a divulgação dos resultados, com respeito aos princípios éticos da pesquisa. Num dos encontros tratou-se de definir o princípio ético, do cuidado e da bioética como norteadora do cuidado em UTI.