ERVA-MATE, AGRICULTURA FAMILIAR, PAISAGENS E CONSERVAÇÃO SOCIOAMBIENTAL
3 A ERVA-MATE: DO EXTRATIVISMO INDÍGENA À MONOCULTURA
3.1 ASPECTOS BOTÂNICOS E ECOLÓGICOS DA ERVA-MATE
A erva-mate, Ilex paraguariensis A. St. Hil, pertence à família Aquifoliaceae.
Trata-se de uma espécie arbórea perene e longeva, podendo alcançar cem anos. A aparência geral da árvore normalmente lembra a de uma laranjeira, na floresta atinge entre 10 a 15 m de altura. O caule tende a ser reto, acinzentado e com lenticelas abundantes. Na parte interna da casca apresenta textura arenosa característica. Suas folhas são simples, alternadas, verde-escuras na face superior e
verde-clara na inferior, as margens são irregularmente serrilhadas ou denteadas (CARVALHO, 1994; REITZ, KLEIN e REIS, 1978; WENDT, 2005).
Ocorre grande variedade fenotípica nas populações de erva-mate, notadamente quanto às características do pecíolo – que pode ser roxo, branco ou amarelo – tamanho e presença ou não de pilosidade nas folhas e ainda susceptibilidade à queda de folhas (STURION; RESENDE, 2010). No entanto, essas diferenças não podem ser consideradas como variedades taxonômicas, pois fazem parte da variabilidade genética intrapopulacional natural da espécie21 (RESENDE et al., 1995; STURION E RESENDE, 2010). Por outro lado, Mattos (2011) indicaque as diferenças podem estar associadas aos sistemas de manejo.
As flores são pequenas, brancas e pouco vistosas. A espécie é dioica (apresenta árvores fêmeas e árvores machos), porém se encontram estames e pistilos em todas as flores, sendo os estames atrofiados nas flores femininas, enquanto nas masculinas o ovário é rudimentar e não funcional, assim tem como única forma de reprodução a fecundação cruzada (FERREIRA FILHO, 1957;
FERREIRA et al., 1983).
O florescimento varia de acordo com a região, mas tende a ocorrer entre setembro a dezembro, com período predominante em outubro. A polinização é entomófila, predominando os dípteros e himenópteros, bem como coleópteros e hemípteros, entre outros insetos (CARVALHO, 1994; REITZ, KLEIN e REIS, 1978).
Os frutos são pequenas bagas, medindo entre 4 a 8 mm, verdes quando novos, passando a vermelho e arroxeado quando maduros, normalmente produzem quatro sementes. As sementes são pequenas com tegumento áspero e duro. A dispersão das sementes se dá por zoocoria, principalmente por aves – onde se destaca o sabiá (Turdus rufiventris) – que se alimentam dos frutos maduros (CARVALHO, 1994; REITZ, KLEIN e REIS, 1978). Assim, para se garantir o processo de polinização e dispersão das sementes, com consequente regeneração das erveiras, é necessário se manejar o erval de forma a garantir populações de polinizadores e dispersores.
As sementes germinam em surtos desuniformes, pois apresentam dormência tegumentar e fisiológica (FOWLER; STURION, 2000). Mello (1980) demonstrou que
21 Sturion e Resende (2010) ponderam que, de acordo com Carvalho (2003), são relatadas duas variedade botânicas: - Ilex paraguariensis var, vestita, a erva-mate peluda com ocorrência no PR, MG e SP e Ilex paraguariensis var. sincorensis, com ocorrência na Serra de Sincorá (BA) em altitude superior a 1.500m.
a dormência não está ligada intimamente à impermeabilidade do tegumento, mas sim por apresentar embrião imaturo e rudimentar, ou seja, o embrião não está completamente desenvolvido quando a semente se desprende da planta-mãe.
Dessa forma se justifica a necessidade da estratificação da semente em areia, em condições adequadas de umidade e temperatura, durante cerca de sete a oito meses, quando se visa à produção de mudas. Obviamente essas condições também são requeridas na natureza para uma boa regeneração natural da espécie, o que pode ser traduzido como um solo em local sem excesso de umidade, com cobertura florestal e serrapilheira.
O requerimento dessas condições, aliadas a local de concentração de agentes dispersores de sementes, pode ser um dos motivos para que a erva-mate nativa, muitas vezes, ocorra em forma de manchas ou reboleiras de concentração da espécie. Conforme Ferreira Filho (1945, p. 23), “verifica-se na verdade que os ervais naturais, em regra, ocupam extensas áreas mal aproveitadas, porque as plantas grupam-se ora aqui, ora ali, deixando grandes claros entre as reboleiras”. Ou ainda, “a erva se apresenta em reboleiras ou manchas (como vulgarmente se diz) em toda essa extensão, e onde essas reboleiras são maiores e mais puras, isto é, onde predomina quase exclusivamente a árvore do mate torna-se um erval”
(MIRANDA, 185922, citado por GERHARDT, 2013, p. 48).
A erva-mate é considerada uma espécie clímax e esciófila. Ela suporta sombra em qualquer idade, tolerando luz e o frio, na fase adulta aceita sombra em qualquer idade podendo ser plantada à sombra de outras árvores. No estágio sucessional da floresta, cresce preferencialmente nas associações mais evoluídas dos pinhais. Tende a ser mais frequente em formações que combinam a presença de araucárias (Araucaria angustifolia) e imbuias (Ocotea porosa). Regenera-se com facilidade quando o estrato arbóreo superior e, principalmente, os estratos arbustivo e herbáceo são raleados (CARVALHO, 1994; REITZ, KLEIN e REIS, 1978;
RESENDE et al., 1995).
Apesar dessa associação preferencial com a araucária, a ocorrência natural da erva-mate é mais ampla, existindo várias teorias quanto à sua distribuição natural. A figura 3.1 demonstra uma das mais aceitas no meio científico, que considera uma área de aproximadamente 540.000 km², abrangendo parte do Brasil,
22 MIRANDA, F. N. de. Sobre os diferentes ervais, sua extensão, uberdade e cultura.. Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre RS. 1859.
Paraguai e Argentina. É uma espécie característica da Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária), mas penetra na Floresta Estacional Semidecidual no noroeste do Paraná e no sul do Mato Grosso do Sul, bem como na Floresta Estacional Decidual no oeste de Santa Catarina e noroeste do Rio Grande do Sul.
Na Argentina e Paraguai ocorre, principalmente, nos sub-bosques das matas do Rio Paraná e afluentes, onde a Araucária não é encontrada (OLIVEIRA; ROTTA, 1985).
FIGURA 3.1 – OCORRÊNCIA NATURAL DA ERVA-MATE E DA FLORESTA COM ARAUCÁRIA FONTE: ZAMPIER (2001) - Adaptado de OLIVEIRA E ROTTA (1985).
A ampla área de ocorrência implica em distintas condições ambientais nas regiões de extração e cultivo que podem influenciar as características da matéria-prima e consequentemente sobre o produto final (MACCARI JUNIOR, 2005).
Nessa ampla região a erva-mate se desenvolve predominantemente no clima temperado úmido (Cfb), seguido do subtropical úmido (Cfa), em regiões com chuvas regulares, bem distribuídas ao longo do ano, com médias de precipitação em torno de 1500 a 2000 mm. As temperaturas médias anuais variam de 15 a 21º C. As
geadas são frequentes ou pouco frequentes, dependendo da altitude, que abrange de 500 a 1500 m sobre o nível do mar (CARVALHO, 1994; MEDRADO, 2000b).
A erva-mate ocorre naturalmente em solos de baixa fertilidade, com baixos teores de cátions trocáveis, altos teores de alumínio e pH baixo. Não ocorre em solos hidromórficos e apresenta ocorrência esparsa em solos rasos (CARVALHO, 1994; OLIVEIRA; ROTTA, 1985). Medrado (2000) considera que a erva-mate exige solos com profundidades maiores do que 1 metro, não suportando solos compactados ou encharcados, pois 80% de seu sistema radicular se concentra na camada superior do solo, sendo sensível à falta de oxigênio nessa região.
3.2 ASPECTOS SOCIAIS, ECONÔMICOS E AMBIENTAIS DA ATIVIDADE