O Serrote Preto é composto predominantemente por rochas carbonáticas e, secundariamente, apresenta alguns níveis silicosos, calciossilicáticos e intrusões graníticas e pegmatíticas. As rochas carbonáticas do Serrote Preto compõem uma elevação significativa no terreno quando comparadas às rochas circundantes, representadas pelos ortognaisses graníticos da Unidade Serra Caiada (Figura 3.2). A relação de contato das rochas do serrote com as rochas encaixantes não é bem definida devido aos afloramentos estarem arrasados e intensamente intemperizados.
Figura 3.2 – Visão geral do Serrote Preto marcada pela elevação no terreno, destacando-o topograficamente das unidades circundantes representadas pelos ortognaisses da Unidade Serra Caiada.
O intemperismo das rochas carbonáticas do Serrote Preto resultam em um solo escuro de coloração avermelhada a marrom, diferente do solo gerado pelas encaixantes, que se trata de um solo claro. A distinção entre esses solos promove um destaque do corpo carbonático que pode ser facilmente reconhecido através de imagens de satélite e potencializada a partir da aplicação de processamento digital de imagens (Figura 3.3-A). É possível observar através dessas imagens que o corpo apresenta uma forma elipsoidal com trend principal NNW-SSE, corroborado pelas medições de campo (Figura 3.3-B).
Figura 3.3 – A) Imagens de satélite Landsat-8 com resolução de 30 m e composição de bandas RGB-752, onde é possível observar a diferença da resposta espectral do Serrote Preto causada pelas rochas carbonáticas que compõem essa feição. B) Imagem de satélite levantada em 01/07/2017 extraída do Google Earth Pro com destaque para a forma elipsoidal do Serrote Preto.
As exposições dos carbonatos ocorrem em geral como blocos rolados e, por vezes, como pequenos lajedos, o que dificulta quanto a caracterização estrutural e determinação das relações de contato (Figura 3.4).
Figura 3.4 – Exposições das rochas carbonáticas do Serrote Preto em pequenos lajedos (A, B e C) e blocos rolados (D). A: afloramento AS-2; B: afloramento AS-49; C: afloramento AS-10; D: afloramento AS-38.
Em escala de afloramento, essas rochas foram definidas a partir de análises composicionais e texturais como metacalcários. Foram identificadas muitas variações desse litotipo, caracterizando diferentes fácies, resultantes principalmente da heterogeneidade do protólito.
Esses metacalcários apresentam uma fácies caracterizada em amostra de mão por apresentar coloração marrom à cinza, estrutura maciça e por vezes, laminada.
Além disso, apresentam feições de avançada oxidação e ocorrem comumente cortadas por veios carbonáticos (Figura 3.5-A, B e C).
Também foi identificada uma fácies composta por fragmentos carbonáticos angulosos, centimétricos, inseridos em uma matriz também carbonática. Essa fácies foi definida como brecha tectônica, visto que há um frabric marcado por fraturas que tendem a seguir uma orientação preferencial (Figura 3.5-D).
Outra fácies desses metacalcários é caracterizada por possuir coloração clara, esbranquiçada, predominantemente com textura maciça e granulação grossa. Foram identificadas apenas algumas seções de fácies caracterizada por um bandamento metamórfico sutil. Essas rochas são compostas essencialmente por calcita e/ou dolomita recristalizadas e apresentam textura granoblástica (Figura 3.5-E e F).
Figura 3.5 – Aspectos de campo das rochas carbonáticas do Serrote Preto. A) Amostra de metacalcário maciço, localmente laminado, com granulação fina a média (afloramento AS-02). B) Metacalcário de coloração acinzentada a marrom clara apresentando feições de oxidação e cortado por veios carbonáticos (afloramento AS-02). C) Aspecto de campo de metacalcário truncado por veios carbonáticos em várias direções (afloramento AS-29). D) Brecha tectônica com fragmentos carbonáticos angulosos, centimétricos, inseridos em uma matriz também carbonática (afloramento AS-02). E) Metacalcário grosso de textura granoblástica (afloramento AS-20). F) Metacalcário grosso com bandamento metamórfico sutil (afloramento AS-25).
Os níveis silicosos e calciossilicáticos são encontrados como blocos rolados e ocorrem principalmente na porção mais arrasada do serrote, em uma superfície marcada pelo solo escuro avermelhado (Figura 3.6-A e B). Também há ocorrências de intrusões representadas por granitos leucocráticos e pegmatitos, os quais
apresentam trend principal N-S e truncam a foliação dos metacalcários, S2 (Figura 3.7-A).
Figura 3.6 – A) Bloco rolado de nível silicoso (afloramento AS-08). B) Amostra de rocha calciossilicática apresentando típica coloração esverdeada (afloramento AS-32).
No entorno do corpo carbonático foram encontrados alguns blocos de granada biotita paragnaisse que, localmente, aparentava estar in situ. Essas rochas apresentam coloração cinza claro a escuro e leucossomas de composição granítica.
Além disso apresentam uma foliação principal penetrativa (S2) de direção preferencial NW-SE e contém porfiroblastos de granada (Figura 3.7-B).
Figura 3.7 – A) Leucogranito equigranular ligeiramente porfirítico (afloramento AS-11). B) Porfiroblastos de granada em um granada biotita paragnaisse (afloramento AS-51).
Através de datações pelo método U-Pb em zircões, Souza et al. (2016) distinguiu para esses paragnaisses dois grupos distintos com base nas idades encontradas: i) zircões com idades entre 3,0 e 2,9 Ga; ii) zircões com idades entre 2,0 e 1,9 Ga. O segundo grupo possui baixo índice Th/U e seus zircões são interpretados como metamórficos onde, dentre estes, seis possuem idade de 1949 Ma, podendo representar a ocorrência de um importante evento metamórfico ainda não bem caracterizados no núcleo arqueano.
As rochas circundantes representadas pelos gnaisses de origem ortoderivada da Unidade Serra Caiada são caracterizadas pela variação de composição tonalítica a granodiorítica. Essas rochas apresentam em geral alto grau de migmatização e são marcadas estruturalmente pela presença de foliação penetrativa, zonas de cisalhamento, dobramentos representados por dobras intrafoliais, normais e abertas, além de falhas centimétricas a métricas. Essas feições são derivadas dos eventos deformacionais que ocorrem nas rochas do Núcleo Arqueano e que também são responsáveis tanto pelos processos de migmatização e pelos dobramentos, como pelos falhamentos posteriores (Figura 3.8-A e B).
Figura 3.8 – Ortognaisses granítico a tonalíticos da Unidade Serra Caiada que circundam o Serrote Preto apresentando diferentes estruturas derivadas dos eventos deformacionais D2 e D3, respectivamente. A) Fotografia de corte apresentando dobramento da foliação principal, gerando plano axial (S2) de dobras recumbentes F2 (afloramento AS-44). B) Presença de zona de cisalhamento de cinemática dextrogira, associada ao evento D3, com preenchimento de neossoma granítico (afloramento AS-43).
4 ANÁLISES PETROGRÁFICAS
Este capítulo consiste na descrição petrográfica de seções delgadas produzidas a partir de amostras coletadas no Serrote Preto e seu entorno, caracterizando-as quanto aos aspectos composicionais/mineralógicos e texturais. O levantamento de dados petrográficos de uma rocha permite ao geólogo informações mais aprofundadas sobre os aspectos supracitados e contribui para a classificação da rocha, interpretação de suas condições de formação e avaliação de seu potencial econômico.
Para dar seguimento ao estudo petrográfico, foram descritas 35 seções delgadas correspondentes as amostras mais representativas das litologias identificadas em campo. Essas seções delgadas foram organizadas em cinco grupos principais: (1) Rochas carbonáticas; (2) Leucogranito peraluminoso; (3) Granada Biotita Paragnaisse; (4) Calciossilicáticas; (5) Níveis silicosos. Os afloramentos amostrados estão identificados no mapa de pontos (Anexo 2) e as principais informações de todos os afloramentos constam na tabela em Anexo 3.