Entre as lideranças políticas, populares, empresariais e demais membros dos movimentos pró e contra Carioba II, estabeleceu-se um debate em torno de algumas questões centrais, a saber: a) Haveria poluição atmosférica? b) Prejudicaria o rio Piracicaba? c) Geraria empregos? d) Garantiria energia elétrica para a região de Americana? e) Traria muitos investimentos e aumento de impostos e, com isto, impulsionaria a economia local? f) Americana seria a melhor localização para uma termelétrica deste porte e as tecnologias apontadas no RIMA seriam as mais indicadas? Na seqüência, estaremos reproduzindo os posicionamentos dos que se manifestaram a
favor da Usina Carioba II, assim como dos ambientalistas e demais membros, que constituíram o movimento social contrário à UGE Carioba II e que estiveram contra o Licenciamento Ambiental no tocante às questões acima elencadas.
Os empreendedores afirmam que, apesar de Carioba II em operação aumentar a concentração de poluição na atmosfera – em especial no tocante ao SOx em até 0,5 µg/m³; NOx em até 25 µg/m³ e MP em até 0,8 µg/m³ –, seriam apresentadas medidas mitigatórias, a saber: a paralisação de Carioba I, térmica a óleo, e a melhora da qualidade do ar em relação ao SOx e ao MP, que teriam uma diminuição de concentração de 17,5 e 5,7 µg/m³ respectivamente. Por sua vez, o NOx aumentaria em até 20 µg/m³, o que representa 40% do limite estabelecido pelo PNQA – Padrão Nacional de Qualidade do Ar.
Por sua vez os ambientalistas apontaram lacunas nestas informações, uma vez que o RIMA não contém uma análise detalhada da qualidade do ar anterior ao empreendimento, em especial, no tocante aos níveis de ozônio. Também não contém estudos sobre a precipitação do material particulado e dos demais poluentes, responsáveis pelas chuvas ácidas.
Afirmam que o ar de Americana se encontra saturado e que a emissão dos poluentes da que seria a maior termelétrica do país, que sozinha queimaria mais combustíveis fósseis do que todas as indústrias de Paulínia reunidas, incluindo a própria Replan. Em operação, colocaria Americana na lista das cidades mais poluídas do Estado.
Sobre o uso das águas, inicialmente valendo-se da tecnologia de resfriamento de torre úmida, os empreendedores divulgaram que a Usina causaria uma diminuição de 1.069 m³/h na disponibilidade hídrica e uma redução de 95% de DBO – Demanda Bioquímica de Oxigênio – no retorno dos efluentes para a ETE – Estação de Tratamento de Esgoto de Americana. Em função das medidas mitigadoras – utilização da barragem de Salto Grande para controle da vazão do Piracicaba e financiamento de programa de perdas –, a disponibilidade de água do Piracicaba aumentaria em 3.249 m³/h durante os quatro meses de estiagem e em até 1.080 m³/h em médio e em longo prazo com o combate às perdas, melhorando ainda a qualidade da água do rio ao captar água poluída e tratá-la antes de devolver ao rio.
Os ambientalistas contrapõem-se a este argumento afirmando que a vazão do Piracicaba estaria abaixando periodicamente em função do seu uso desregrado, em especial para fins produtivos; que a utilização de água poluída do Ribeirão Quilombo, que atravessa Americana, e também a utilização da represa do Salto Grande para controlar o nível do Piracicaba não resolveriam o problema do rio.
Captando água do Ribeirão Quilombo ou diretamente do Rio Piracicaba, tem-se o mesmo resultado quantitativo, pois o primeiro se trata de um afluente altamente poluído da bacia do Piracicaba. Sobre a utilização reguladora da citada represa, caso abram as comportas na estiagem, teriam de as deixarem fechadas em outra época para recompor o nível do reservatório, mantendo-se inalterados os níveis médios anuais.
Quanto ao combate aos desperdícios de água pela população ou em vazamentos subterrâneos na distribuição de água potável, independente do Licenciamento Ambiental de Carioba II, estas medidas já deveriam estar sendo tomadas pelo poder público.
Por outro aspecto, os empreendedores defenderam Carioba II em função da geração média de quinhentos empregos em sua construção e de cinqüenta na operação, o que diminuiria o desemprego na cidade e repercutiria no comércio local.
Já o movimento social contrário se contrapôs, afirmando que os empregos gerados na construção seriam temporários, mão-de-obra, que são, em sua grande maioria, não especializada e gerenciada por grandes empreiteiras. Estas construtoras contratariam “peões de trecho” de muitas outras cidades e regiões para residirem provisoriamente em pensões ou alojamentos na cidade durante os dois anos de construção da usina, trazendo transtornos como o aumento da demanda nos serviços básicos públicos. E, com o fim da obra, parte desta força de trabalho poderia fixar domicílio na cidade, aumentando o déficit de moradia, entre outras obrigações a serem assumidas pela municipalidade. Sobre os postos gerados na operação, estes seriam de mão-de-obra altamente especializada, não disponível no exército de reserva americanense e comandadas por funcionários que viriam da matriz da InterGen.
Sendo assim, para Americana e sua região, ao invés de gerar empregos, Carioba II inviabilizaria a instalação de fábricas e outros processos produtivos altamente geradores de empregos, que tivessem como pré-condições a utilização de recursos
hídricos em seus processos produtivos, uma vez que exauriria totalmente o que restava do rio Piracicaba.
Em seu marketing, Carioba II se apresenta como a solução para a crise energética da região, uma vez que complementaria a demanda de nossa macro-região, infra-estrutura necessária para se atrair mais fábricas.
Os ambientalistas contestam afirmando que a energia elétrica a ser gerada por Carioba II estaria interligada à rede nacional, a mesma de Itaipu, por exemplo. Sendo assim, apesar do empreendimento estar localizado em Americana, a sua energia poderia ser distribuída para qualquer outra localidade da rede, de acordo com as demandas. O déficit e a crise energética são nacionais e não municipais, então, se o país não superar os problemas de geração e distribuição de energia, o bairro vizinho ao empreendimento estaria tão sujeito a racionamentos ou apagões como quaisquer outros consumidores da rede nacional. O mesmo aconteceria se a usina fosse construída em outra região do estado.
Quanto aos custos da instalação, não houve muitas controvérsias, obviamente percebendo-se que, da parcela dos gastos com produtos e com serviços nacionais, a maioria seria efetuada com fornecedores e empresas de grande porte em detrimento aos de Americana e de sua microrregião.
O RIMA aponta que para construir e equipar Carioba II seriam necessários US$ 400.000.000,00, sendo que 40% seriam com produtos e serviços nacionais. Também afirma que, durante a operação, seriam pagos US$ 30.000.000,00 anuais de impostos, o que seria benéfico para a localidade.
Muito se questiona, contudo, sobre os montantes apontados a título de impostos tanto no tocante aos valores, quanto à localidade arrecadadora, uma vez que o ISSQN é municipal e tem, como cidade arrecadadora, a localidade onde o serviço foi realizado, porém seu valor é relativamente modesto e a duração de seu auge corresponde aos meses de construção e instalação dos equipamentos. O propagado aumento de receitas do município a título de ICMS no montante de R$ 30 milhões anuais foi contestado pelo movimento social, que apontou em uma elevação de apenas R$ 3 milhões, diferença essa decorrente do ICMS, no caso de energia elétrica ser tributada na distribuição e não na geração. Também pesa o fato de, para fins de cálculo, ser
necessário deduzir das vendas de energia elétrica os montantes a título de compra do gás natural. Desta forma, muito provavelmente Campinas arrecadaria mais impostos de Carioba II do que a cidade de Americana, independentemente da mesma ser instalada nesta última. Líquido e certo para o município seria apenas o IPTU, com valor muito inferior, além do ISSQN arrecadado na fase de implantação do empreendimento.
Tinham como alternativas locacionais as cidades de Santa Maria da Serra ou Dois Córregos, Araraquara, Bebedouro, Ibitinga, Lins, Campinas e Americana. A escolha se pautou nesta última, analisando: a proximidade do gasoduto Bolívia-Brasil e com os centros de carga; a facilidade de conexão com a rede elétrica do sistema interligado nacional; a disponibilidade hídrica; a infra-estrutura para transporte; e a disponibilidade da área para implantação do projeto.
A alternativa tecnológica que inicialmente centralizou o debate foi escolhida, pelos empreendedores, como sendo o da Torre de Resfriamento Úmida, que leva a evaporação de 1.069 m³/h de água gastos no sistema de resfriamento necessário ao processo produtivo da Usina.
Para os ambientalistas, não foram levadas em consideração alternativas locacionais por parte dos empreendedores, pois, desde os primeiros termos, a localidade apontada já era Americana e inexistem relatórios de estudos ambientais de outras localidades.
Além disto, afirmam que, após a represa de Santa Maria, o nível do rio melhora significativamente, o que permite concluir que qualquer outra localidade abaixo deste ponto prejudicaria menos. Santa Maria, Dois Córregos, Bebedouro, entre outras, têm uma atmosfera menos poluída e terras muito mais distantes da zona urbana do que a pequena extensão em Americana. Os ambientalistas apontam ainda um erro grave dos empreendedores em não citar a qualidade do ar como um dos critérios para a escolha locacional e levantam como alternativa a construção de quatro usinas, cada uma contendo um dos geradores que seriam utilizados em Carioba II, em localidades distintas, visando facilitar a dispersão dos poluentes e não saturar uma única localidade com a soma de todos os impactos ambientais.
Sobre as alternativas tecnológicas, os ambientalistas apontam que a simples substituição da torre úmida para a torre seca representaria uma menor captação de
água (63%), porém com custos superiores. De acordo com o próprio RIMA, a utilização de filtros diminuiria a quantidade de poluentes emanados pelas chaminés da Usina. A exemplo da alternativa locacional, a tecnologia proposta nas três primeiras audiências e nas reuniões iniciais na Secretaria de Meio Ambiente teve, como único parâmetro, os custos.
Após inúmeros questionamentos de especialistas e de forte resistência do movimento social, em agosto de 2001 os empreendedores finalmente cedem no tocante à tecnologia de resfriamento da Usina, passando a adotar a torre seca a um custo superior de U$$ 50 milhões. Essa simples troca possibilitaria que se reduzisse para 32 m³/h a perda de água em operação, bem como a quantidade de efluentes e de produtos químicos necessários para o seu tratamento. Com essa troca, os empreendedores passaram a alegar que aceitaram as sugestões da comunidade e que sanaram a grande queixa do movimento social, a da grande utilização dos recursos hídricos. Também apresentaram estudos que afirmavam que a termelétrica não iria aumentar a concentração de ozônio na atmosfera local.
A seu turno, os ambientalistas e o movimento social solicitavam mais tempo para a análise dos impactos decorrentes da troca de tecnologia e, concomitante a isso, apontavam que a utilização das águas, nos limites propostos pelos empreendedores da bacia de um rio que já se encontrava em níveis alarmantes, continuava a representar um grande problema ambiental. Enfatizavam que os estudos relacionados ao ozônio permaneciam incompletos, uma vez que não continham dados da situação pré- existente e um monitoramento prévio da atmosfera. O movimento social também se queixou de grande parte do Relatório de Complementações não ser acessível, tanto pela grande quantidade de dados técnicos, quanto por conter grande parte do conteúdo em inglês.
Finaliza-se aqui a recuperação dos eixos de discussão que polarizaram opiniões entre empreendedores e favoráveis à Carioba II por um lado e ambientalistas, movimentos sociais e demais contrários ao empreendimento por outro.
Com isto, conclui-se o Histórico do processo de Licenciamento Ambiental de Carioba II, em que foi abordado o contexto do empreendimento (a crise energética brasileira e suas conseqüências); o projeto da Usina Termelétrica a Gás; os possíveis
impactos ambientais decorrentes do empreendimento; a recuperação do processo de Licenciamento Ambiental; as principais iniciativas, os importantes enfrentamentos e controvérsias que permearam todos os embates ocorridos entre o movimento social contrário à Termelétrica Carioba II e os defensores do empreendimento.
Registros Fotográficos
Imagem de satélite de Americana, cujo limite territorial com Limeira se dá pelo rio Piracicaba, local onde seria instalada Carioba II. Fonte: Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.
Represa do Salto Grande em Americana (Rio Atibaia). Fonte: Prefeitura Municipal de Americana.
O rio em Piracicaba: Ponte Pênsil e Mirante. Fonte: Prefeitura Municipal de Piracicaba.
Fotografia de 1958, na qual sobressai a grande vazão do rio defronte ao Mirante, em Piracicaba. Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.
Fotografia de 1951 da Rua do Porto, Piracicaba. Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.
Capítulo 2
O movimento social contrário à Carioba II
GUAYASAMÍN, Oswaldo. Las Manos de
la Protesta. Óleo sobre tela.