O pensamento e a linguagem são partes fundamentais do processo de comunicação humana, possibilitando a expressão de emoções e ideias que são compartilhadas e transmitidas a gerações futuras. A transmissão é fundamental nesse processo, uma vez que estabelece relação com o outro, consigo mesmo e com o mundo e se mostra de fato real quando decodificada e interpretada por outra consciência (França, Hohfeldet e Martin, 2001). Para Polistchuk e Trinta (2003), o pressuposto da relação interativa emissor-receptor permeia todo e qualquer ato comunicativo.
A linguagem falada é uma das manifestações da comunicação humana, que pode se complementar com outros recursos para finalizar o ato comunicativo. Assim, segundo Panico (2005), a comunicação social entre indivíduos pode variar de “sinais- estímulo” a gestos e linguagem, por meio dos quais o homem transmite e recebe mensagens através da oralidade ou da escrita, ou por sinais sonoros e/ou visuais.
A televisão, meio de comunicação em que a palavra e a imagem se complementam na transmissão da mensagem, propicia aos produtos transmitidos por meio dela, duas vertentes do processo comunicativo: o visual e o auditivo. Além do componente verbal, ligado ao mecanismo semântico, identificam-se componentes não- verbais que reformulam ou readaptam o ato comunicativo, de acordo com a vontade de quem diz, de forma consciente ou não.
Fraser (1978) distingue quatro processos de comunicação: o sistema verbal, o entonacional (uso da ênfase, sublinhados, inflexão da voz, pois não são as palavras que nos dizem se uma frase é declarativa ou interrogativa, mas sim as diferenças de acento e as modalidades de entonação), o paralinguístico (que compreende fenômenos como resmungos, bocejos, sussurros, risos, tosses, dentre outros, além do ritmo e da velocidade das elocuções, das pausas, das hesitações) e o cinésico (movimento das mãos, do corpo e do rosto). Esses elementos estão em contínua evolução e são classificados, segundo o autor, como elementos dinâmicos da interação.
Segundo Scherer (2003), esses efeitos de sentido podem ser utilizados nas comunicações com carga emotiva, que acontece por meio dos aspectos paralinguísticos da fala, facilitando a compreensão do telespectador. A emoção, assim, deve ser diferenciada de outros estados afetivos do falante, dependendo de sua intensidade, duração, sincronismo, evento focal, avaliação, rapidez de mudança e impacto comportamental.
Cabe apontar o papel desempenhado pela vestimenta ou indumentária no processo comunicacional. Segundo Prochet (2010), é possível considerar que a comunicação (verbal ou não-verbal) interfere na formação das sociabilidades, portanto, a vestimenta estaria incluída nesse processo. Entende-se que as vestimentas constituem estímulos não-verbais que influenciam as relações e são determinantes no processo de entendimento de uma informação. As diferentes funções da indumentária incluem elementos que permitem retratar diferentes identidades.
Segundo o autor, atributos pessoais podem ser revelados pelas roupas, como idade, sexo, condição socioeconômica, humor, personalidade, interesses e outros valores. As cores das roupas, da mesma forma, possibilitam associá-las às ocupações de seus usuários e servem para predizer comportamentos e influenciar o autoconceito de forma positiva ou negativa, fabricando imagens e comportamentos que não correspondem ao real.
Para Jeremy Butler (2010), a televisão representaria um aparato dotado de diferentes formas de significações estabelecidas a partir do entrecruzamento entre mídia e suas técnicas com o tecido social. Dessa forma, segundo o autor, todo programa de TV possui determinado estilo em sua composição e é importante conhecê-lo para que se faça a apreensão adequada da peça televisiva.
Dessa forma, os mecanismos técnicos compõem a visão sobre linguagem, comunicação e interação na televisão, formando o estilo de determinado programa. Nessa formatação, cabe ressaltar como as movimentações de câmera podem ser observadas como apropriações feitas dos enquadramentos das cenas na apresentação de qualquer programa na televisão (Gutmann, 2012). Esses mecanismos, tomados não apenas como recursos tecnológicos, mas também enquanto tecnicidades, oferecem possibilidade de analisar os programas religiosos, permitindo avaliações de acordo com os tipos de enquadramento, segundo definições de Ken Dancygen (2003), para o cinema, e Harris Watts (1999), para a TV.
Para os autores, os recursos mais utilizados de planos mobilizados seriam o primeiro plano ou PP (dos ombros para cima); geral (aberto, usado para identificar o local onde acontece a ação); americano (enquadramento da cintura para cima); close ou close-up (também chamado de primeiríssimo plano, é o plano fechado na cabeça do personagem em cena) e plano detalhe (câmera fecha em determinado ponto ou objeto). Em relação aos movimentos de câmera, os mais recorrentes nas cenas de apresentação são o zoom – objetiva de distância focal variável que tem a função de aproximar (zoom in) ou afastar (zoom out) o sujeito representado na tela – e o travelling, pelo qual a câmera se desloca de um ponto a outro. Os efeitos óticos são compostos pelos cortes secos (passagem direta de uma cena para outra), fade-out (gradativo escurecimento da imagem, até o preto total) em oposição ao fade-in, encadeamento, congelamento, câmera lenta e chicote (movimento panorâmico rápido). Esses recursos formam o aparato imagético técnico.
No próximo capítulo, será apresentada a metodologia utilizada nesta pesquisa e seus conceitos principais, tendo em vista que a Análise de Discurso, enquanto área de saber, carrega consigo uma ampla variedade conceitual.
3 METODOLOGIA DE PESQUISA: ASPECTOS CONSTITUTIVOS DA ANÁLISE DE DISCURSO
Visando a compreender o processo no qual ocorre a interação entre o homem, agente que influencia e é influenciado pela estrutura do meio, e o fenômeno social, torna-se necessário assimilar como essa relação é permeada por um emaranhado de conceitos e significados construídos socialmente.
A fim de analisar tais processos, algumas teorias se mostram eficazes, tendo como base o entendimento subjetivo do próprio sujeito e de suas possíveis realidades. Para tanto, a Análise de Discurso (AD) se apresenta como instrumento capaz de possibilitar a investigação das discursividades dos líderes religiosos para a consecução desta pesquisa e, para isso, mostra-se oportuno, primeiramente, entender a base do corpus em questão, qual seja, o discurso.