• Nenhum resultado encontrado

Aspectos conceituais acerca do direito sucessório

3. OS EFEITOS SUCESSÓRIOS DO INSTITUTO DA UNIÃO ESTÁVEL E DO

3.1. Aspectos conceituais acerca do direito sucessório

O direito sucessório é um ramo que se deriva das regras próprias do direito de família, pois está intimamente relacionado à continuação da entidade familiar por meio da transmissão de bens necessários à subsistência e ao desenvolvimento do indivíduo. A singular proteção concedida aos institutos familiais evidencia a permeabilidade dos princípios e valores constitucionais em ambas as áreas do direito.

A manutenção dos bens é um eficiente meio de preservação da propriedade privada, visto que, em geral, os membros da família resguardam os bens comuns.54 Por isso, existem

correntes doutrinárias que defendem que o direito sucessório constitui um prolongamento natural da família.55

Contudo, em respeito à manifestação da vontade, essa tese não é absoluta, visto que a sucessão pode ainda se dar por meio de testamento - definido como um ato personalíssimo unilateral, gratuito, solene e revogável - o qual irá produzir efeitos e consequências jurídicas com a morte do autor da herança, observando os limites previstos em lei. O elemento familiar é definido pelo parentesco e o elemento individual é caracterizado pelo exercício da autonomia e liberdade em realizar o testamento.

A garantia do direito de propriedade (artigo 5º, XXII da CRFB), a garantia do direito de herança (artigo 5º, XXX da CRFB), o princípio da proteção da tutela especial à família (artigo 226, caput, da CRFB) e o princípio da solidariedade (artigo 3º, inciso I da CRFB) são fundamentos constitucionalmente previstos pertinentes ao direito da sucessão.

54DIAS, Maria Berenice. Manual das Sucessões. 4º edição revista, atualizada e ampliada – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 29.

55QUEIROGA, Antônio Elias de. Curso de direito civil. Direito das sucessões. 2. Ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2012, p.2 apud DIAS, Maria Berenice. Manual das Sucessões. 4º edição revista, atualizada e ampliada – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 31.

Suceder quer dizer substituir, isto é, tomar o lugar do outro.56 Em sentido geral e vulgar,

suceder é a sequência de fatos, ora ligados por uma relação de causa, ora conjuntos por outras relações.57

O momento da abertura da sucessão se dá com o “droit de saisine” – transmissão ficta – que traz o imediatismo da transmissão dos bens, cuja posse e propriedade passam diretamente da pessoa falecida aos seus herdeiros, de maneira que não há nenhuma fase intermediária nesse processo. Com isso, há uma sub-rogação pessoal de pleno direito, visto que o sujeito ativo da relação jurídica patrimonial é automaticamente substituído por força de lei ou por vontade do falecido, dentro dos limites impostos na legislação.58

A partir da morte do autor da herança, seu patrimônio se transmite de forma integral a seus herdeiros, ainda que este seja constituído apenas de bens móveis ou bens incorpóreos. Desse modo, enquanto não houver a partilha, a herança é considerada um bem imóvel indivisível, por força do artigo 80, inciso II do CC, a qual pertence aos coerdeiros como se condôminos fossem, conforme prevê o parágrafo único do art. 1.791 do CC.59

Nesse cenário, é possível vislumbrar os pressupostos para a abertura da sucessão, quais sejam, a morte do autor da herança, a sobrevivência dos beneficiários e a existência de patrimônio ativo a ser transmitido. A partir disso, o patrimônio do falecido - intitulado de herança - se transmite aos herdeiros legítimos ou testamentários, se houver testamento.

Cabe elucidar que herança e meação são institutos diversos e não se confundem, de maneira que o primeiro decorre do direito sucessório e o segundo pertence ao direito de família. Conforme afirma Zeno Veloso, a herança é transmitida aos sucessores conforme previsões legais (sucessão legítima) ou a vontade do testador (sucessão testamentária), em razão da morte do autor da herança. Já a meação decorre de uma relação patrimonial existente em vida a partir do casamento ou da união estável entre os interessados, aplicada conforme o regime de bens adotado.60

56DIAS, Maria Berenice. Manual das Sucessões. 4º edição revista, atualizada e ampliada – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 34.

57 BEVILÁQUA, Clóvis. Direito das Sucessões, Rio de Janeiro. Freitas Bastos, 1997. P.15. apud DIAS,

Maria Berenice. Manual das Sucessões. 4º edição revista, atualizada e ampliada – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 34.

58 PIMENTEL, Fernanda Pontes. Notas realizadas nas aulas da disciplina Direito das Sucessões

ministradas pela Professora Fernanda Pontes Pimentel, UFF, Niterói – RJ, primeiro semestre de 2017. 59DIAS, Maria Berenice. Manual das Sucessões. 4º edição revista, atualizada e ampliada – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 116.

60 VELOSO, Zeno. Do direito sucessório dos companheiros. p. 286. apud DIAS, Maria Berenice;

PEREIRA, Rodrigo da cunha (coords.). Direito de família e o novo Código Civil. 4 ed. Belo Horizonte. Del Rey, 2005. p. 235-251.

O Código Civil de 2002 dispõe sobre o instituto da quota legítima em seus artigos 1.789 e 1.846 que consiste na reserva de metade da herança aos herdeiros necessários, quais sejam, os descendentes, os ascendentes e o cônjuge, impedindo que estes restem desamparados patrimonialmente, em virtude da morte ou da vontade do autor da herança. Esses dispositivos consagram os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e de proteção à família.

Com efeito, a dissolução da sociedade conjugal, bem como da união estável acarretam a falta de legitimidade para suceder. Nessa situação, o autor da herança faleceu sem deixar cônjuge ou companheiro sobrevivente e, com isso, estes são excluídos da sucessão do ex- consorte.

Os primeiros passos a serem superados para se alcançar a devida vocação hereditária - ordem de prioridade na escolha de quem vai assumir a herança - compreende em averiguar o estado civil do autor da herança e o regime de bens em que foi estabelecido na eventual união estável ou casamento, bem como a qualificação dos descendentes em relação àquele os quais com eles concorrerá.

O artigo 1.725 do Código Civil prevê que se aplicam as regras do regimento de comunhão parcial à união estável, desde que os companheiros não estipulem outra forma para reger as suas relações patrimoniais através de contrato escrito. Quanto ao casamento, o mesmo regime de bens incidirá quando não houver convenção entre os cônjuges por outra disposição dentro das previsões legais. Destaca-se que em caso de convenção nula ou ineficaz, conforme artigo 1.640 do Código Civil, o regime de comunhão parcial de bens vigorará. Além disso, nas hipóteses previstas no artigo 1.64161 do mesmo diploma, o regime de comunhão da

separação de bens passa a ser obrigatório.

O regime da comunhão parcial de bens é definido como aquele em que ficam excluídos da comunhão de bens pertencentes aos cônjuges antes do casamento e em que ficam incluídos na comunhão os adquiridos de forma onerosa posteriormente ao casamento.

Entretanto, devido ao tratamento distinto dado pelo legislador à sucessão do companheiro supérstite, a origem dos bens do autor da herança era elemento necessário para definir o acervo hereditário que cabe ao convivente, é o que será analisado durante este capítulo.

61BRASIL, Código Civil de 2002: Art. 1.641. É obrigatório o regime da separação de bens no casamento: I - das pessoas que o contraírem com inobservância das causas suspensivas da celebração do casamento; II – da pessoa maior de 70 (setenta) anos; III - de todos os que dependerem, para casar, de suprimento judicial

Documentos relacionados