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2 DA SOCIEDADE MODERNA À SOCIEDADE DE RISCO

2.3 DOS RISCOS SOCIOAMBIENTAIS

2.3.1 Aspectos conceituais

Diante do progresso científico e tecnológico afirmada na sociedade moderna, que por sua vez, contribuíram para nefastas consequências ambientas. Esse novo período volta sua percepção para os riscos advindos da sociedade industrial.

Nesse sentido, Pereira56 destaca que:

54 FELDMANN, Fábio. Consumismo. In: TRIGUEIRO, André (Coord.). O meio ambiente no século 21: 21 especialistas falam da questão ambiental nas suas áreas de conhecimento. 5. ed. Campinas: Armazém do Ipê, 2008, p. 143.

55 BECK, Ülrich. Sociedade de Risco: rumo a uma outra modernidade. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo, 2010, p. 22.

56 PEREIRA, Henrique Mioranza Koppe. Responsabilidade civil do fornecedor de alimentos: manipulação química e modificação genética. Curitiba: Jurúa, 2009, p. 19.

A sociedade de risco designa um estágio da modernidade em que as ameaças produzidas pela sociedade industrial tomam proporções que não podem mais ser desconsideradas, como eram anteriormente. Levanta-se a questão da autolimitação dos desenvolvimentos no modelo de sociedade industrial, assim como novas determinações dos padrões de responsabilidade, segurança, controle, limitação da distribuição das consequências do dano.

Nessa esteira, antes de adentrar na teoria do risco, propriamente dita, se faz oportuno destacar os aspectos conceituais do risco, antes de adentrar na teoria do risco, propriamente dita.

De acordo com análise realizada por Silveira57, tomando por base Marandola Júnior e Hogan, são identificadas quatro grandes linhas de investigação acerca do risco:

[..] Referidas correntes classificam-se em: a) análises cientificas voltadas à avaliação e gestão dos riscos, nas quais o risco é concebido em termos da probabilidade quantificável de um resultado histórico adverso; b) análises voltadas à percepção do risco que, de acordo com Guivant, estabelece as bases do que passou a ser identificado com a teoria cultural dos riscos, centrada numa visão socioconstrutivista (socioconstrucionista), segundo a qual os indivíduos são organizadores ativos de suas percepções, impondo seus próprios significados aos fenômenos. A tese central, portanto, nesta perspectiva, é a de que a percepção do risco e, por conseguinte, seus respectivos níveis de aceitação, são construídos coletivamente, de modo semelhante à linguagem e aos juízos estéticos, conforme as especificidades de cada ambiente social e cultural; c) analises de eventos e sistemas ambientais em torno dos conceitos de vulnerabilidade, suscetibilidade e fragilidade, que concebe o risco como objeto construído e d) teoria dos riscos, que colocam o tema no centro da teoria social, especialmente a partir da noção de sociedade de risco.

Assim, adota-se para o presente estudo a análise realizada pela corrente que segue as teorias do risco58, onde o tema coloca-se no centro da teoria social, especialmente a partir da noção de sociedade de risco, ou seja, o “objeto risco é tomado como chave de compreensão das características, limites e transformações do projeto de modernidade”59, derivando deste a sua

especificidade, ou seja, a relevância conferida ao risco.

Inicialmente, se traz a distinção entre perigo e risco. Consoante refere Lopez60, “perigo é tudo aquilo que ameaça ou compromete uma pessoa ou coisa. É conhecido e real. Perigo é

57 SILVEIRA, Clóvis Eduardo Malinverni da. Uma breve análise sobre a integração entre as dimensões cientifica e axiológica na construção do risco ambiental. Revista Eletrônica Direito e Política, Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciencia Juridica da UNIVALI, Itajai, v.8, n.1, 1ª quadrimestre de 2013. Disponível em:

www.univali.br/direitoepolitica ISS 1980-7791, p.129-130. Acesso em 03 de março de 2019.

58 Dentre os principais teóricos desta corrente, seguem-se os estudos realizados por Ülrich Beck e Anthony Giddens.

59 GUIVANT, Julia S. A teoria da sociedade de risco de Ülrich Beck: entre o diagnóstico e a profecia. Estudos

Sociedade e Agricultura, Rio de Janeiro,16 de abril, p. 95-112, 2001.

60 LOPEZ, Teresa Ancona. Princípio da precaução e Evolução da Responsabilidade Civil. São Paulo: Quartier Latin, 2010, p. 25-26.

concreto.”

Segue, ainda, referindo que “a noção de perigo é estável do ponto de vista do seu sentido de ameaça real e não hipotética. O perigo está presente e pode ser constatado”. No que se trata do risco o autor destaca que “é o perigo eventual mais ou menos previsível. O risco é abstrato.” Assim, pode-se afirmar que o risco se consolida a um evento futuro e incerto.

Seguindo sob esta ótica e considerando o termo firmado por Beck,61 qual seja a sociedade de risco, assim destaca-se que “vivemos em um mundo fora do controle. Não há nada certo além da incerteza. Sociedade de risco é a sociedade de incertezas fabricadas, são riscos que não podem ser mensurados”. Ou ainda, nas palavras de Giddens62, “o mundo em que vivemos

hoje é um mundo carregado e perigoso.”

Ainda, sob a perspectiva de Beck, a sociedade de risco prevalece sobre a sociedade de classes, uma vez que o objeto a ser distribuído é diverso nessas sociedades. Na sociedade de classes destacada pelo autor fala-se em distribuição de riqueza, ao passo que a sociedade de risco destaca a distribuição do risco. Nesse viés pode-se mencionar, ainda, que a desigualdade social é adversa da sociedade de risco. Discorre o autor nesse comando quando retrata que “a miséria é hierárquica, o smog é democrático”,63 ou seja, “na sociedade de risco há a relativização das

diferenças e fronteiras sociais e a relativização da soberania.”64

Pode-se afirmar que os riscos são em nível mundial e destinado de forma universal, “isto fica ainda mais claro se tivermos em conta o feitio peculiar, padrão distributivo específico dos riscos da modernização: eles possuem uma tendência imanente à globalização.”65

Nesse viés, Beck, ainda, refere-se ao risco como um “efeito bumerangue”, na ideia de que “cedo ou tarde, eles alcançam inclusive aqueles que os produziram ou que lucraram com eles”66

De certa forma, poderíamos relacioná-lo com o efeito equalizador, ou seja, embora exista parcela da população vulnerável, o risco tem difusividade67.

Seguindo, ainda, quando a conceituação do risco, Silveira68 refere que a expressão

61 BECK, Ülrich. Sociedade de Risco. Rumo a uma outra modernidade. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo, 2010, p. 39.

62 GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. Trad. Raul Fiker. São Paulo: Editora UNESP, 1991, p. 19.

63 BECK, Ülrich. Sociedade de Risco. Rumo a uma outra modernidade. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo, 2010, p. 43.

64 BECK, op. cit., p. 44. 65 BECK, op. cit., p. 45. 66 BECK, op. cit., p. 45. 67 BECK, op. cit; p. 46.

68 SILVEIRA, Clóvis Eduardo Malinverni da. Risco Ecológico Abusivo: a tutela do patrimônio ambiental nos Processos coletivos em face do risco socialmente intolerável. Caxias do Sul: Educs, 2014, p. 247-248.

sociedade de risco, consagrada por Beck, “evidencia a exacerbação do risco ecológico ligados ao processo de produção de riqueza: desastres antes excepcionais deslocaram-se para o plano das relações sociais em sentido amplo”, o que por sua vez afirmou-se como modus vivendi da população mundial.

Desta forma, superada os aspectos iniciais, passa-se a analisar a teoria do risco na perspectiva socioambiental.