3.3 EDUCAÇÃO EM SAÚDE: DO CONCEITO À PRÁTICA
3.3.2 Aspectos da prática educativa dos profissionais da
Na atenção básica em saúde a prática educativa dos profissionais do Programa de Saúde da Família (PSF), implantado em 1994 pelo SUS, tem papel relevante para a população atendida por estabelecer vínculos de cuidado à saúde. A introdução desse programa, denominado atualmente de Estratégia de Saúde da Família (ESF), é considerada por Soratto e colaboradores (2015) uma inovação no serviço de saúde.
A ESF pressupõe o desenvolvimento de ações educativas de caráter individual e coletivo, como processo de intervenção no binômio saúde/doença da população, estimulando a autonomia desta na busca ativa por qualidade de vida (BRASIL, 2012). Essa tarefa envolve a atuação multiprofissional de Médicos, Enfermeiros, Agentes Comunitários de Saúde (ACS), entre outros profissionais.
Dentre as inúmeras atribuições dos profissionais da ESF podemos destacar atuação interdisciplinar com integração profissional em diferentes áreas; executar atividades/intervenções educativas em saúde à população adstrita; envolver-se em atividades de formação permanente em saúde e prestar o cuidado da saúde da população, sobretudo, no contexto da unidade de saúde, e, quando necessário, no domicílio e nos demais espaços comunitários, por exemplo, escolas, associações, entre outros (BRASIL, 2012; PAIVA et al., 2016).
Além de criar espaços contínuos e promissores de ações educativas é atribuição da ESF procurar conhecer a realidade da população inserida no território de abrangência da unidade básica de saúde (UBS), a fim de estabelecer e fortalecer vínculos, bem como incentivar a participação social (FERNANDES; BACKES, 2010).
No processo educativo em saúde cada profissional da ESF tem papel fundamental. No caso dos profissionais da enfermagem, as próprias bases conceituais da área atribui ao enfermeiro a função de educador (FERNANDES; BACKES, 2010). Por outro lado, por pertencer àquela comunidade, os ACS possuem maior conhecimento empírico deste público, identificam os problemas, as necessidades de saúde e cultura das famílias do território no qual está inserido e as
dificuldades para desafiá-los (BORNSTEIN; STOTZ, 2008, ALVES; AERTS, 2011), atuando como mantenedores de estreito vínculo com os usuários do serviço de saúde (VILAR; FARIAS, 2012).
Desta forma, os profissionais da ESF atuam no cuidado à saúde comunitária e estão inseridos em vários contextos geo-culturais (SAMUDIO et al., 2017), fazendo uso de ferramentas educativas para promoção da saúde. Logo, a ES é considerada foco do trabalho destes profissionais e tem como finalidade a melhoria da qualidade de vida da população (FONSECA; MENDONÇA, 2014).
Diante da relevância do papel exercido pelos profissionais da ESF, a percepção desses atores sobre suas práticas educativas têm sido aprofundada e discutida em estudos qualitativos (MACIEL et al., 2009; ALMEIDA; MOUTINHO; LEITE, 2016, SANTILI; DA ROCHA TONHOM; MARIN, 2016).
Concernente à abordagem educativa dos profissionais da saúde, Alves e Aerts (2011) salientam que apesar dos questionamentos evidenciados nos últimos anos, o modelo autoritário ainda orienta as práticas educativas em saúde. E mesmo, com as orientações para o desenvolvimento de uma prática educativa transformadora os serviços de saúde ainda preservam metodologias tradicionais sem estabelecimento de vinculo com os usuários do serviço de saúde. No entanto, Pereira (2003) reforça que na prática educativa em saúde é mais adequado conduzir o processo educativo estimulando a criticidade e a problematização.
Oliveira (2005) retrata que existe dificuldade em aplicar os princípios da promoção da saúde no campo da ES, sobretudo porque, como apontam Figueiredo, Rodrigues-Neto e Leite (2010) o modelo tradicional de educação em saúde está extremamente arraigado nas práticas educativas dos profissionais da saúde. Outra problemática evidenciada por Salci et al. (2013) diz respeito à limitada difusão da ES no sistema de saúde, mesmo está prática sendo um dos instrumentos da promoção da saúde da população.
Dentre as inúmeras atribuições da equipe de atenção básica está o desenvolvimento de ações educativas voltadas à prevenção e controle das IST (BRASIL, 2006, BRASIL, 2015). Contudo, existem desafios e limitações para a efetiva atuação educativa dos profissionais de saúde (BRASIL, 2012, BELLENZANI; SANTOS; PAIVA, 2016), inclusive na abordagem das IST como apontam Teixeira et al. (2012) e Rodrigues et al. (2011). Essa fragilidade constitui uma problemática para
o efetivo controle dessas infecções, as quais têm assumido patamares epidemiológicos preocupantes em nível nacional e internacional (WHO, 2016b).
Considerando as atividades educativas na UBS, estudo conduzido por Borges, Nichiata e Schor (2006) revelou a baixa participação de adolescentes em atividades sobre saúde sexual e reprodutiva promovidas pela unidade de saúde. Os autores enfatizaram que isso reflete a existência de entraves no processo educativo que precisam ser rompidos a fim de avançar no atendimento das necessidades de saúde. No estudo de Andrade et al. (2014) o relato de profissional do serviço de saúde revela a dificuldade de reunir adolescentes na unidade de saúde devido a inadequação estrutural e a necessidade de utilizar estratégias de captação diversificada.
As dificuldades das unidades de saúde em trabalhar com os usuários e com a escola sobre saúde sexual e reprodutiva são notórias. Pinheiro, Silva e Tourinhos (2017) corroboram que no contexto da saúde sexual ainda existem dificuldades na atenção básica em implantar e implementar ações educativas voltadas para os adolescentes e jovens. Contudo, no sentido de superar esses desafios Paiva et al. (2016) reafirmam que as atividades educativas sobre esse tema pode e deve ser realizadas em espaços sociais distintos da UBS.
Diante dos obstáculos das equipes de saúde no desenvolvimento efetivo de ações educativas no cotidiano dos serviços de saúde, Albuquerque e Stotz (2004) fazem uma crítica ao modelo de ES quando destacam que as atividades de ES são conduzidas, muitas vezes, de acordo com o programa da ocasião ou a epidemia em pauta (hoje é dengue, amanhã é diabetes, depois a vacinação dos idosos e assim por diante), ou seja, a ação é apenas pontual sem previsão de continuidade que favoreça o processo de sensibilização da comunidade atendida.