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4 RESULTADOS

4.1 ELEMENTOS SEMIÓTICOS IDENTIFICADOS

4.1.1 Aspectos da semiose

Na semiótica peirceana, a semiose é a função do signo de ser in- terpretado em outro signo. Assim, um signo sempre significa outro sig- no (seu interpretante), o qual dá origem a outro signo (outro interpretan- te), e assim indefinidamente. Viu-se que, com base nesse raciocínio, Mai (1997, 2001) considerou cada elemento do processo de indexação (documento, assunto, descrição do assunto e entrada de assunto) como signo, e a ação de cada signo, de cada elemento, resulta em uma etapa. As etapas consistem na análise do documento, na descrição do assunto e na análise do assunto.

Vale um esclarecimento: apesar de toda a teoria de Peirce girar em torno da semiose, optou-se aqui por utilizar, na análise da categoria

“aspectos da semiose”, os conceitos de "análise de documento" e "des- crição de assunto" propostos por Mai (1997, 2001) porque o autor os contextualiza na teoria semiótica e evidencia o fenômeno da semiose no processo de indexação.

Segundo Mai (2001), na primeira etapa do processo de indexa- ção, análise do documento, o indexador analisa o documento (signo) para determinar-lhe o assunto (interpretante). Na segunda etapa, descri- ção do assunto, partindo do assunto (signo/interpretante) o indexador chega à descrição do assunto (interpretante). Finalmente, na terceira etapa, análise do assunto, o indexador obtém a entrada de assunto (in- terpretante) com base no interpretante da etapa anterior (descrição do assunto), que ao mesmo tempo cumpre a função de signo desta etapa.

A entrada de assunto (interpretante da terceira etapa) é o resulta- do da descrição do assunto após a tradução desta em uma linguagem de indexação (MAI, 2001). Assim, esta pesquisa se ateve apenas às duas primeiras etapas (análise do documento e descrição do assunto), pois os cabeçalhos das ementas dos acórdãos foram confeccionados em lingua- gem natural, sem nenhum tipo de controle de vocabulário, de modo que a terceira etapa não se mostra presente.

A etapa da análise do documento (no caso o documento é um acórdão) ficou explicitada no relato dos entrevistados, conforme se constata dos exemplos abaixo (em negrito):

E: Então tá. Pergunta sobre o cabeçalho tá. Eu queria que tu descrevesses o procedimento que utilizaste desde o momento que tiveste contato com o acórdão até o momento que começaste a elaborar o cabeçalho. [...]

P1: Depois eu comecei a ler o relatório pra entender o que tava sendo alegado em apelação. Daí eu verifiquei

algumas teses como eu faria o acórdão, até comecei a escrever algumas coisas no cabeçalho, voltei a falar sobre isso, isso e isso, como eu estivesse fazendo o voto. Daí eu comecei a ler o voto e eu vi que a dinâmica do acórdão não seguiu a mesma dinâmica que eu seguiria.

E: Ao ter contato com o acórdão qual foi o

procedimento que você realizou? Você observou o documento de forma geral, por exemplo, o assunto, o ramo do direito (direito civil, direito penal), a decisão?

P2: Sim, eu vi a decisão inteira, se foi negado, se foi dado parcial ou não, vi qual que era a matéria pra

poder colocar o ramo que eu ia especificar na ementa, isso é muito importante pra mim, pra poder lá diferenciar, pra quem for pesquisar, na verdade, conseguir ver que parte que ele tem.

E: Antes de começar a elaborar o cabeçalho da

ementa, agora, o que tu fizeste?

P3: Eu li todo o texto, o relatório, o voto, claro, pra pegar principalmente os pontos principais pra me inteirar do caso.

E: Te baseaste nos títulos do acórdão, parágrafos, pra

fazer o cabeçalho?

P4: Me baseei, primeiro parágrafo do relatório pra mim ele já dizia o nome da ação e do que se trataria,

então me baseei nisso. Posteriormente, eu vi qual foi a linha de raciocínio adotada durante o acórdão, pra também não fugir e não ficar indo e voltando.

A etapa da descrição do assunto, a qual, partindo do assunto, in- terpretante da etapa anterior, resulta em expressões ou palavras-chaves que o indexador considera relevantes (MAI, 2001), foi verificada nos seguintes trechos das entrevistas (em negrito):

E: Então tá. Pergunta sobre o cabeçalho tá. Eu queria que tu descrevesses o procedimento que utilizaste desde o momento que tiveste contato com o acórdão até o momento que começaste a elaborar o cabeçalho. [...]

P1: depois eu comecei a ler o relatório pra entender o

que tava sendo alegado em apelação. Daí eu verifiquei

algumas teses como eu faria o acórdão, até comecei a escrever algumas coisas no cabeçalho, voltei a falar

sobre isso, isso e isso, como eu estivesse fazendo o voto. Daí eu comecei a ler o voto e eu vi que a dinâmica do acórdão não seguiu a mesma dinâmica que eu seguiria.

E: Então tá, descreva o procedimento que você

realizou desde o momento em que teve contato com o acórdão, né, o relatório e o voto, até o momento que começou a elaborar o cabeçalho da ementa, ou seja,

pra responder até o momento que começastes tá, a elaborar o cabeçalho da ementa.

P2: Eu li primeiro, né, o acórdão, eu procurei me

atentar nos pontos mais marcantes dele e me situei qual matéria que era, né, daí foi aí que eu fui ver que tipo de recurso que era, se era apelação ou se era agravo, aí eu vi que era apelação, aí eu iniciei, apelação, a matéria que é a matéria principal que seria a inscrição indevida e daí eu fui pros pontos

principais do acórdão que eu achei importante né, os pontos principais que eu achei que valia a pena colocar na ementa.

E: Você leu o acórdão inteiro antes de começar a

elaborar o cabeçalho?

P3: Isso, fui rascunhando, né, e daí depois eu li o voto pra saber efetivamente o que eu deveria colocar na ementa.

E: Eu queria que tu descrevesses pra mim o procedi- mento que realizaste desde o momento que tiveste con- tato com o acórdão até o momento em que começaste a elaborar o cabeçalho da ementa, assim ó, essa parte é antes de começar a escrever o cabeçalho, tá? Pergun- tas complementares: Tu observaste o documento de forma geral? por exemplo, o assunto, o ramo de direi- to, direito penal, a decisão?

[...]

P4: Algumas vezes parte da minha ementa ela já está

pronta porque eu li e percebi que aquela informação

não poderia faltar no cabeçalho da ementa justamente por ser uma informação importante, então

eu terminando de ler o processo, aqui não teve um processo, mas teve um relatório que pra mim seria o momento que eu terminaria de ler o processo. Eu faço o relatório normalmente, leio uma vez o relatório de novo, eu passo junto com o processo, então eu li o

relatório e assim que eu terminei o relatório já havia algumas palavras...

Veja-se que as duas etapas do processo de indexação – análise do documento e descrição do assunto – estão presentes nas respostas dos entrevistados. Delas se pode inferir que, analisando o documento acór-

dão (signo), os participantes chegaram ao assunto (interpretante) sobre o qual o acórdão tratava e, com base no assunto (agora signo), confeccio- naram as entradas do cabeçalho (interpretante).