PARA GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS 111 5.1 ASPECTOS DA SUSTENTABILIDADE PRESENTES NA PNRS
5. PROPOSIÇÃO DOS INDICADORES DE SUSTENTABILIDADE PARA GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS
5.1 ASPECTOS DA SUSTENTABILIDADE PRESENTES NA PNRS
Os resíduos sólidos apresentam uma forte relação com a sustentabilidade, pois além da sua dimensão ambiental, esse sistema possui componentes sociais e econômicos relevantes, e dada proximidade com o dia a dia das pessoas, podem ainda ser utilizados de modo atrativo para a discussão sobre sustentabilidade (MILANEZ, 2002).
Embora a PNRS não traga uma definição clara de desenvolvimento sustentável, parece se basear no conceito do Relatório Brundtland, uma vez que no Art.3º inciso XIII, define “padrões sustentáveis de produção e consumo” como sendo
a produção e consumo de bens e serviços de forma a atender as necessidades das atuais gerações e permitir melhores condições de vida, sem comprometer a qualidade ambiental e o atendimento das necessidades das gerações futuras (BRASIL, 2010b).
Interessante observar também que a PNRS definiu a gestão integrada de resíduos sólidos como um conjunto de ações voltadas para a busca de soluções para os resíduos sólidos, considerando as dimensões política, econômica, ambiental, cultural e social, com controle social e sob a premissa do desenvolvimento sustentável (BRASIL, 2010b). Essa definição trazida pela PNRS considera as mesmas dimensões da sustentabilidade anteriormente mencionadas, o que pode ser considerado um avanço significativo na área da gestão de resíduos sólidos, pois possibilita que a mesma seja pensada sob novas perspectivas (TEIXEIRA; CAMARGO, 2012).
A Lei 12.305/2010, traz no Art. 8º alguns instrumentos que superam a gestão convencional de resíduos e avançam no sentido de atender aos princípios relacionados à sustentabilidade, em suas diferentes dimensões. Foram assim destacados, entre outros, os seguintes instrumentos:
(...)
III - a coleta seletiva, os sistemas de logística reversa e outras ferramentas relacionadas à implementação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos;
IV - o incentivo à criação e ao desenvolvimento de cooperativas ou de outras formas de associação de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis; (...)
VI - a cooperação técnica e financeira entre os setores público e privado para o desenvolvimento de pesquisas de novos produtos, métodos, processos e tecnologias de gestão, reciclagem, reutilização, tratamento de resíduos e disposição final ambientalmente adequada de rejeitos;
(...)
VIII - a educação ambiental; (...)
XIV - os órgãos colegiados municipais destinados ao controle social dos serviços de resíduos sólidos urbanos;
(...)
XIX - o incentivo à adoção de consórcios ou de outras formas de cooperação entre os entes federados, com vistas à elevação das escalas de aproveitamento e à redução dos custos envolvidos (BRASIL, 2010b).
Observa-se, portanto, que o antigo paradigma de se enfatizar apenas a coleta e o afastamento dos resíduos sólidos foi substituído por uma abordagem em que a sustentabilidade pode ser detectada e as suas dimensões contempladas, conforme os exemplos a seguir, embora alguns possam relacionar-se com mais de uma dimensão:
ambiental: coleta seletiva, reciclagem, compostagem, disposição ambientalmente adequada, novos produtos, métodos e processos;
econômica: logística reversa, responsabilidade compartilhada, formação de consórcios para ganhos de escala e redução de custos, cobrança dos serviços prestados;
social: apoio a cooperativas e associações de catadores;
política: planos participativos, cooperação entre setores (poder público, setor empresarial e sociedade), órgãos gestores colegiados, garantia à informação e ao controle social;
cultural: educação ambiental, consumo sustentável, redução da geração de resíduos.
Um importante aspecto trazido pela Política, no Art. 9º, se refere à ordem de prioridade que deve ser atribuída na gestão e no gerenciamento dos RS, a saber:
1. Não geração; 2. Redução; 3. Reutilização; 4. Reciclagem;
5. Tratamento dos RS;
6. Disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos (BRASIL, 2010b).
Esta classificação estabelecida pela PNRS, a qual prioriza a prevenção da geração dos RS, e estabelece que apenas deve-se dispor o rejeito, ou seja, a fração impossibilitada de ser
tratada e recuperada, se assemelha a adotada em 2008 pela União Européia, uma vez que a Diretiva de Resíduos 2008/98/EC, estabelece a seguinte ordem de prioridade:
1. Prevenção;
2. Preparação para a reutilização; 3. Reciclagem;
4. Outros tipos de valorização, por exemplo, recuperação de energia; 5. Disposição final (EUROPEAN PARLIAMENT, 2008).
Estas hierarquias definidas em ambas as legislações atendem aos anseios de um desenvolvimento mais sustentável, pois prevenir a geração dos RS consiste em poupar as gerações futuras de ter que arcar com os passivos da geração atual.
Assim como se identificou na PNRS, a Diretiva de Resíduos 2008/98/EC também possui aspectos que se relacionam com as dimensões da sustentabilidade, elencados a seguir:
ambiental: padrões mínimos de reciclagem, compostagem, biodigestão, banimento e restrições para a disposição em aterros e para a incineração de tipos específicos de RS;
econômica: impostos sobre os RS, responsabilidade estendida do produtor (poluidor-pagador), pagamento pelo descarte (usuário-pagador);
política: planos participativos de gestão de RS, direito à informação, cooperação na elaboração dos planos e na gestão dos RS;
social: proteção da saúde humana;
cultural: prevenção da geração de RS, incentivo à separação dos resíduos orgânicos, campanhas de sensibilização.
Pontos comuns puderam ser identificados em ambas as legislações, a primeira delas é o fato de ambas objetivarem restringir o uso dos aterros sanitários. A separação dos resíduos, inclusive da fração orgânica, bem como uma cultura preventiva em relação a sua geração, são aspectos detectados. Dentro da vertente econômica as duas abordam a responsabilidade estendida do produtor e o pagamento pelo descarte. A cooperação (entre setores, municípios ou Estados Membros) para melhoria da gestão dos RS, a elaboração de planos participativos e o direito a informação, também estão presentes nestes documentos.
Entretanto, o peso da dimensão social na PNRS difere da Diretiva Européia, uma vez que o contexto social brasileiro inclui a presença dos catadores e das cooperativas de materiais recicláveis, e a legislação veio reconhecer a atuação destes agentes quando
reconhece os resíduos recicláveis e reutilizáveis “como um bem econômico e de valor social, gerador de trabalho e renda e promotor de cidadania” (BRASIL, 2010b). De maneira análoga, nos países europeus, a restrição da incineração parece ter maior relevância, uma vez que essa tecnologia se disseminou ali com maior intensidade.
Observa-se desta forma que mesmo com diferenças associadas aos seus contextos, ambas as políticas incorporaram aspectos da sustentabilidade, indicando possibilidades mais otimistas para a gestão dos RS.
5.2INDICADORES DE SUSTENTABILIDADE E SUA INTERFACE COM A PNRS