Comportamento social foi definido por Skinner como “o comportamento de duas ou mais pessoas em relação à outra ou em conjunto em relação ao ambiente comum” (Skinner, 1998/1953, p.326). Nesse sentido, comportamento social envolve qualquer relação entre sujeito e ambiente em que o ambiente é constituído por outro sujeito. A mediação de outro organismo, portanto, é o aspecto fundamental na definição desse tipo de comportamento. Essa participação de outro organismo pode ser realizada por duas vias: como estimulação antecedente às respostas ou como estimulação subseqüente às respostas do sujeito. O fato de outro sujeito participar da tríplice contingência não implica a suposição de que o ambiente social escape às leis que governam o comportamento. O ambiente social, nesse sentido, é tão material quanto o ambiente não social.
Com freqüência se argumenta que [o comportamento social] é diferente do comportamento individual e que há “situações sociais” e “forças sociais” que não podem ser descritas na linguagem da ciência natural. Diz-se que se requer uma disciplina especial denominada “ciência social” por causa dessa aparente ruptura na continuidade da natureza. Há, é claro, muitos fatos [...] que nunca se prestariam a estudo se as pessoas não se juntassem e se comportassem em grupos, mas ainda assim continua a questão de se saber se os dados básicos são fundamentalmente diferentes. (Skinner, 1998/1953, p.326)
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ele não contém especificidades. Estas estão dentro dos padrões que regem o mundo material.
A discussão do ambiente social será iniciada pelo terceiro termo da tríplice contingência: o reforço, nesse caso, reforço social. A mediação de outro organismo como condição para a produção de reforço implica uma relação não mais mecânica de um sujeito com seu ambiente na produção de conseqüências de seu responder. O comportamento verbal oferece inúmeros exemplos. Os efeitos mecânicos de uma resposta verbal vocal são bastante simples: constituem-se em sons, cujas propriedades podem ser mensuradas com relativa facilidade. No entanto, identificar essas propriedades pouco ajuda a compreender a função da resposta verbal. Isso porque as dimensões dessas propriedades não correspondem às dimensões das conseqüências mais relevantes que mantêm o responder verbal. Pedir para que uma pessoa feche a janela será eficiente independentemente de se o falante o fizer gritando ou falando baixo. O critério mais crítico que torna esse responder verbal é a discriminação dos sons envolvendo o ouvinte. Enquanto no ambiente não social muitas vezes as conseqüências do responder variam de acordo com os efeitos mecânicos produzidos pela resposta (a força com que se empurra uma pedra corresponde ao seu deslocamento), o ambiente verbal provê as conseqüências mantenedoras do agir do falante independentemente de seus efeitos mecânicos. “A resposta ‘um copo d’água, por favor’ não tem efeito no ambiente mecânico, mas o produz em um ambiente verbal apropriado” (Skinner, 1998/1953, p.327).
Outro aspecto do reforço social é o fato de ele se constituir, em grande parte, por reforços generalizados. A construção do reforço generalizado se dá sob a condição do estímulo reforçador ser pareado com dois ou mais estímulos reforçadores primários (se sua construção necessita de uma história de pareamento, então, esse tipo de reforço é condicionado). Aspectos do ambiente que geralmente são classificados como “atenção”, “aprovação”, “cuidado”, “amor”, “afeto”, “submissão”, “domínio”, são estímulos que antecedem ou acompanham muitos reforçadores primários. Desse modo, pelo fato de o reforço generalizado estar pareado com diversos reforçadores primários, não há tanta necessidade de o sujeito estar sob operações motivacionais para que respostas que produziram esse reforço sejam evocadas. Quase sempre, o reforço generalizado reforçará operantes que o produzam. E, mais do que isso, o reforço generalizado pode ser eficaz mesmo que os reforços primários que foram importantes para sua construção deixem de estar pareados com o reforço
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generalizado.
O reforçador generalizado é útil por não lhe ser importante a condição momentânea do organismo. A força do operante gerado por um único reforço só se observa sob uma condição de privação adequada. [...] Mas, se um reforçador condicionado foi emparelhado com reforçadores apropriados a muitas condições, pelo menos um dos estados de privação adequados tem probabilidade de prevalecer em uma ocasião futura. Quando reforçamos com dinheiro, por exemplo, nosso controle subseqüente é relativamente independente de privações momentâneas. (Skinner, 1998/1953, pp.85-6)
Os reforçadores generalizados continuam eficazes mesmo quando os reforçadores primários já há muito não os acompanham. (Skinner, 1998/1953, p.89)
E é o ambiente social que, em grande parte, viabiliza que parcelas do ambiente possam adquirir a função de reforço generalizado: “(...) o processo de generalização [leia-se: o processo de construção de reforços generalizados] geralmente requer a mediação de outro organismo” (Skinner, 1998/1953, p.327). No caso humano, não é difícil pensar a razão pela qual a “atenção” dos outros passa a adquirir a função de reforço generalizado. O ser humano nasce relativamente prematuro (se comparado com os organismos de outras espécies); necessita de outro ser humano para lhe oferecer os cuidados básicos para sua sobrevivência, cuidados esses que estão intimamente relacionados com o acesso a reforçadores primários, como alimentação, proteção física, manutenção de temperatura adequada etc. Todos esses reforços primários, que o bebê humano não é capaz de obter sem auxílio do outro, são intermediados pela atenção do outro ser humano. A imaturidade do bebê humano conduz a uma intensa relevância do outro como parte especial do ambiente. “Outro” que assegura, mediante sua atenção, o acesso do bebê aos estímulos básicos fontes de sua sobrevivência. O ambiente humano, assim, constitui um ambiente cujos reforçadores estão, em grande parte das vezes, vinculados à interação com outros organismos, que se tornam, elas mesmas, reforçadores generalizados.
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Crianças humanas são dependentes de outros de sua espécie por um tempo muito mais longo do que outro mamífero. Enquanto outros animais assumem seus papéis de adulto relativamente cedo em suas vidas, entre 20 a 25% do período de vida humana é gasto na preparação de um nível similar de independência. A maior parte da preparação envolve aquisição de repertórios comportamentais específicos necessários à sobrevivência, contribui para as práticas sociais da comunidade e integra o comportamento do jovem naquelas práticas. Isto praticamente assegura que o ambiente social (comportamento de outros humanos) será proeminente entre aqueles aspectos do ambiente que entram em contingências comportamentais. Tal comportamento social programado ontogeneticamente (diferente do comportamento social programado filogeneticamente de alguns insetos) pode tomar e toma muitas formas dentro e entre gerações. (Glenn, 1991, pp. 56-7)
A mediação de outros para a obtenção de conseqüências últimas que reforçam toda a cadeia comportamental que lhe antecede e as produz traz importantes implicações à vida humana. Isso conduz ao terceiro aspecto específico do ambiente social: nele, a obtenção de reforçadores depende também das contingências às quais o próprio agente reforçador está submetido. As conseqüências mecânicas do responder são produzidas fidedignamente pela resposta (isto é, em razão igual ou próxima a um: uma resposta produz um reforço), caso ela seja emitida em condições específicas antecedentes. O ambiente social, nesse sentido, é mais instável: além da necessidade de a resposta ocorrer em um dado momento, a conseqüência que mantém a classe dependerá também do agente reforçador, que nem sempre disponibilizará o reforço. Esse aspecto se desdobra em outros dois: o reforço social tende, portanto, a ser intermitente, bem como respostas diferentes podem produzir o mesmo reforço e a mesma resposta produzir reforços distintos, a depender das contingências em que o agente reforçador está inserido. A variabilidade comportamental de indivíduos cujo ambiente é em grande parte social tende a ser maior, como resultado de um ambiente
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social que também tende a ser instável. Variar o responder é uma conseqüência inescapável quando se depende de outro para a produção de reforçadores.
O comportamento reforçado através da mediação de outras pessoas diferirá de muitas maneiras do comportamento reforçado pelo ambiente mecânico. O reforço social varia de momento para momento dependendo da condição do agente reforçador. Dessa forma, respostas diferentes podem conseguir o mesmo efeito, e uma resposta pode conseguir diferentes efeitos, dependendo da ocasião. Como resultado, o comportamento social é mais extenso que o comportamento comparável em ambiente não-social. Também é mais flexível, no sentido de que o organismo pode mudar mais prontamente de uma resposta para outra quando o comportamento não for eficaz.
Como muitas vezes o organismo reforçador pode não responder apropriadamente, é mais provável que o reforço seja intermitente. [...] Um sucesso ocasional poderá se enquadrar no padrão do reforço em intervalo variável, e o comportamento mostrará uma estável freqüência de força intermediária. Poderíamos expressar isso dizendo que respondemos a pessoas com menos confiança do que respondemos no ambiente inanimado. (Skinner, 1998/1953, pp.328-9)
A maior intermitência do agente reforçador ao disponibilizar reforçadores a depender do responder dos sujeitos abre, também, a possibilidade de o esquema de reforçamento se tornar gradualmente mais exigente (exigindo quantidades de respostas maiores para um mesmo reforço). Esse processo, se for devidamente gradual, viabiliza que indivíduos humanos apresentem quantidades enormes de respostas, quantidades essas que só seriam possíveis ser emitidas num processo gradativo de mudança de esquema de reforçamento. Como aponta Skinner, esse aspecto corresponde à possibilidade de o ambiente social criar uma espécie de “escravidão humana”:
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As contingências estabelecidas por um sistema reforçador social podem mudar lentamente. [...] Começando com especificações razoáveis e aumentando gradativamente os requisitos, contingências muito exigentes podem ser feitas, as quais seriam quase ineficazes sem essa história. O resultado muitas vezes é um tipo de escravidão humana. (Skinner, 1998/1953, p.328)
A modulação, por parte de uma agência reforçadora, das contingências de reforço ao próprio responder dos organismos é difícil de encontrar na relação com o mundo inorgânico. Nesse último, os esquemas de reforçamento tendem sempre a se manter os mesmos, em condições específicas e para classe de respostas específicas. No mundo social, entretanto, tanto as condições específicas sob as quais uma classe de respostas é emitida não garante que o responder produza as mesmas conseqüências em um mesmo esquema. É essa instabilidade do mundo social que pode explicar, segundo Skinner, o fato de as contingências sociais produzirem mais “efeitos indesejáveis” que as do mundo inanimado (cf. Skinner, 1998/1953)
Em suma, três aspectos são destacados por Skinner ao apontar as especificidades do ambiente social no que se refere ao estímulo reforçador: o fato de ele exigir algo além dos efeitos mecânicos para ser eficaz; ser, em grande parte das vezes, reforço generalizado, algo que é quase somente viabilizado em ambientes sociais; e ser relativamente instável quanto à sua apresentação, a depender das respostas e das condições do agente reforçador. Isso caracteriza os estímulos que são posteriores às emissões de resposta em ambiente social. E o que dizer das especificidades dos estímulos antecedentes às respostas nesses mesmos ambientes?
A formação de um estímulo discriminativo social ocorre devido ao fato de esse estímulo estar presente em processos de reforçamento. “Um estímulo social, como qualquer outro estímulo, torna-se importante no controle do comportamento por causa das contingências em que se encaixa” (Skinner, 1998/1953, p.332). No entanto, por mais que esse estímulo social seja também de natureza física, tais estímulos possuem uma especificidade decorrente do fato de ser difícil identificar as suas dimensões que controlam o responder. Essa dificuldade se deve ao fato de a construção desses estímulos ser determinada culturalmente e pela história particular
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de um indivíduo. Isso significa que estímulos, como um “sorriso” (exemplo de Skinner), “gentileza”, “perseverança”, “irritação” etc. não têm propriedades físicas, relevantes no controle do responder, sempre comuns aos indivíduos. Um traço da expressão facial de alguém pode ser traduzido por um indivíduo como sinal de “arrogância”; outro indivíduo pode traduzi-lo como um traço de “domínio” daquilo que fala; culturas diferentes também podem reagir de modo significativamente diferenciado a estímulos sociais com propriedades físicas comuns. Pode-se contra- argumentar essas ideias apontando o fato de que mesmo um estímulo não social nem sempre tem também propriedades facilmente identificáveis que exercem controle sobre o responder de diferentes indivíduos e em diferentes culturas. A rigor, os estímulos nunca são “milimetricamente” os mesmos para indivíduos diferentes. No entanto, dada a instabilidade característica do ambiente social, é muito mais provável que as propriedades dos eventos sociais que exercem controle sobre o responder sejam mais variáveis: o dinamismo (o ritmo de transformações) das sociedades é muito maior do que o do mundo não social: e é essa mudança acelerada do ambiente social que faz com as ocasiões (ou as propriedades de ocasiões) em que dados operantes produzem reforço para um indivíduo sejam muito distintas se comparadas com as ocasiões em que há reforçamento para outro indivíduo.
Esse mudar constante do ambiente social conduz a outra característica dos eventos sociais que antecedem e controlam o responder: o fato de mudanças sutis nos estímulos poderem acarretar mudanças bruscas no responder. Muitas das conseqüências sociais são alteradas em sua disponibilidade quando o estímulo antecedente apresenta uma mudança pouco sensível. Um sorriso, para resgatar o exemplo de Skinner, pode indicar que a aproximação da pessoa que o viu viabilizará as condições que uma série de outros operantes sejam reforçados. Por outro lado, se no momento de aproximação a feição dessa pessoa mudar para uma mais sisuda, todos os operantes a serem evocados deixam de sê-lo. Isto é, mudanças formais sutis no comportamento dos outros podem implicar a evocação de outras classes de respostas. O ambiente social é, assim, repleto de estímulos sutis (leia-se: por estímulos que, embora formalmente guardem alguma semelhança, produzem mudanças acentuadas no responder).
Quando se definiu cultura deu-se ênfase ao fato de ela envolver entrelaçamento de contingências (daí o motivo de se abrir um item relativo ao
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comportamento social). Além disso, foi visto o papel crítico que o comportamento verbal exerceu no desenvolvimento da cultura. De modo a aprofundar o conceito de cultura, a relação entre ela e comportamento verbal será agora explorada.