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4 O DESENVOLVIMENTO DO VALE DOS VINHEDOS POR MEIO DA INDICAÇÃO

4.4 Percepções sobre o desenvolvimento regional do Vale dos Vinhedos

4.4.1 Aspectos do desenvolvimento econômico e social

As vinícolas e as propriedades na região do Vale dos Vinhedos são muito antigas. A maioria das famílias ali instaladas cultiva suas terras há mais de 100 anos, pois essas propriedades foram passadas de pai para filho por gerações.

Contudo, como se observa no gráfico 1, muitas vinícolas são jovens e são poucas que comercializam seus vinhos com marca própria há mais de 20 anos. A maioria está inserida no mercado entre 6 a 10 anos.

Gráfico 1 - Idade média das vinícola Fonte: Elaborado pela autora.

Muitas dessas vinícolas eram produtoras de uvas e forneciam a produção para as grandes empresas multinacionais e as cooperativas localizadas na região. Outras produziam vinhos a granel para as cooperativas.

A crise que assolou o setor na década de 90 deixou muitos produtores de uvas e vinhos sem ter para quem vender sua produção. Por esse motivo, muitos começaram a produzir seus vinhos e a comercializá-los diretamente, porém, com a abertura do mercado e com os consumidores cada vez mais exigentes, esses produtos não tiveram boa aceitação, devido à baixa qualidade, o que levou os produtores a pensarem numa nova estratégia para agregar valor ao produto.

[...] devido à crise no setor vinícola no passado e o desaparecimento de uma série de empresas tradicionais, como a Granja União, como o Dreher, como Mônaco e outros, eles [os vitivinicultores] se viram com a produção nas mãos, a produção de uvas. E com isso, eles acabaram também produzindo vinhos, mas dada, digamos, à pequena dimensão e à dificuldade de adquirir corpo e força, eles resolveram, depois de várias discussões, que eu não participei, dar um novo foco à vitivinicultura do Vale dos Vinhedos, porque tradicionalmente a vitivinicultura era baseada nas uvas de mesa, nas uvas comuns, nas uvas tradicionais que elaboravam vinhos de garrafão, mas eles perceberam, pela história das vinícolas aqui da Serra, que tinham um futuro promissor [...] (EAA).

Então, com a criação da Aprovale e a repercussão do tema da indicação geográfica no Vale dos Vinhedos, cuja proposta objetivava diferenciar os vinhos produzidos no Vale, agregando valor a esse produto, muitos desses produtores passaram a investir em tecnologia e começaram a produzir vinhos de melhor qualidade.

Nessa senda, foram criadas várias empresas (pequenas vinícolas), que se propuseram a transformar todo o seu processo produtivo, visando à qualidade do produto final.

Sob esse prisma, na concepção dos atores envolvidos, a Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos fomentou o desenvolvimento da região, visto ter sido a saída encontrada pelos produtores para diferenciar seus produtos no mercado.

[...] sem sombra de dúvida, um vinho para ter esse selo [selo de Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos] tem que ter uma qualidade diferenciada. Ele também te dá uma garantia de procedência dentro de todas as regiões que necessita, não só o selo, mas a própria lei especifica que você está dentro de todos os parâmetros de qualidade exigida (EAA).

Mas nem todos os vinhos produzidos na região do Vale dos Vinhedos possuem Indicação de Procedência, porque, além dos vinhos serem submetidos a um processo de avaliação para verificar se serão certificados ou não, o Selo de Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos possui um custo por garrafa certificada.

Como pode-se verificar no gráfico 2, 43% das IPVV são de vinhos Merlot, 38% são Cabernet Sauvignon e 19% dos vinhos com IPVV são de outras variedades.

Gráfico 2 - Tipos de vinhos com IPVV Fonte: Elaborado pela autora.

Em decorrência da Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos, especialmente por ser a primeira região brasileira a ter reconhecida uma indicação geográfica, o Vale ganhou notoriedade nacional e internacional, acarretando um aumento significativo no turismo. Tal aumento levou algumas empresas do setor hoteleiro e gastronômico a se instalarem na região, a fim de explorar esse novo nicho de mercado.

Eu vi uma oportunidade de instalar aqui [no Vale dos Vinhedos] um complemento daquilo que já era um projeto vinícola e vitivinícola, que é a parte da gastronomia e da hotelaria. Então, nós aqui desenvolvemos esse projeto que denominamos Complexo Turístico Vale dos Vinhedos, que é mais que um hotel, tem uma série de composto. [...] Além disso, outros setores foram desenvolvendo, como é o caso da gastronomia, por ter vários restaurantes que vieram se instalar na região, de maneira em que, [...] em 10 anos, realmente houve uma modificação, para melhor, naturalmente, apesar das dificuldades enfrentadas pelos viti e vinicultores. Houve um progresso muito grande (EAA).

Nesse sentido, os atores envolvidos observam que:

O turismo é uma das armas mais importantes de todas as regiões vitivinícolas, não somos diferentes, pois, em 9 anos, crescemos mais de 230% no número de visitantes. Em 2001, recebemos 45.000 visitantes e, no ano passado, nos visitaram 150.000 turistas. Para isto, houve e continua havendo um crescimento de oferta na área hoteleira, de restaurantes e de serviços ligados ao enogastroturismo (RA).

No que tange ao desenvolvimento social, pode-se verificar que os moradores da região possuem uma excelente qualidade de vida e o desenvolvimento da região também colaborou para a manutenção dessas pessoas em suas terras.

Quem visita o Vale dos Vinhedos [...] fica surpreendido com a qualidade de vida dos moradores, pelo padrão, não só econômico, mas também o grau de dedicação que os nossos moradores têm (EAA).

Sob esse prisma, na visão dos atores envolvidos, existem algumas divergências sobre o que fomentou o desenvolvimento da região, a maioria dos vitivinicultores, dos empresários instalados no Vale e dos representantes do poder público local, acredita que o reconhecimento da Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos colaborou para o desenvolvimento econômico e social da região, uma vez que:

É notório que se gere vantagens para a população imediata (EAA).

A região do Vale dos Vinhedos está mais desenvolvida depois da Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos, especialmente em virtude da qualidade do vinho, do turismo e da expansão das empresas (RPP).

Partindo da premissa de que o Vale dos Vinhedos caracterizava-se por ser uma região formada por pequenos agricultores, que produziam o seu próprio sustento, é evidente que o desenvolvimento do Vale é uma grata realidade. Hoje, o Vale dos Vinhedos apresenta uma estrutura econômica e turística consistente, sem, no entanto, esquecer das origens, expressas nas pequenas propriedades, nas vinícolas de porão e nas tradições culturais. O somatório destes valores dá a real dimensão do desenvolvimento, embora fique a certeza de que o caminho está aberto para um crescimento ainda mais consistente e harmonioso (RPP).

Não temos dúvida em afirmar que o Vale dos Vinhedos apresentava crescimento. Mesmo antes da certificação, já se viam investimentos mais fortes, porém, a partir de 2002, com a indicação geográfica, o processo foi acelerado. Novos investimentos se sucederam, horizontes foram abertos, o Vale tornou-se referência, transpôs fronteiras e cresceu ainda mais, abrindo espaço, inclusive, para o turismo de negócios e de laser (RPP).

Considero desenvolvida [a região do Vale dos Vinhedos], pois tem baixos índices de desemprego e pobreza. Sua economia está em pleno desenvolvimento e, com a expansão da atividade turística, o Vale dos Vinhedos diversificou sua economia, sofrendo menos com as oscilações do mercado da uva e do vinho (RPP).

Procedência contribuiu para que o destino fosse conhecido e se consolidasse no mercado (RPP).

Porém, na opinião de alguns entrevistados, o desenvolvimento do Vale se deu naturalmente, em decorrência de ser uma rota turística vitivinícola, pois a maioria das regiões vitivinícolas são rotas turísticas e acabam se desenvolvendo por si só.

Foi uma questão assim, de um caminho, um destino, como destino de passeio. Eu não consigo ver essa ligação com o selo [Selo de Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos]. Tem casos que o turista diz: vou lá para conhecer o vinho com indicação de procedência, mas faltou fazer esse trabalho [trabalho de divulgação, marketing da Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos] (EAA).

Para corroborar com essas divergências, a região do Vale dos Vinhedos não possui nenhum indicador oficial que possa comprovar o desenvolvimento econômico e social da região, possuindo apenas dados baseados na percepção dos atores locais. Entretanto, a fim de coletar esses índices socioeconômicos, a Aprovale, juntamente com a Embrapa Uva e Vinho e com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estão fazendo um levantamento para verificar qual o desenvolvimento socioeconômico da região, a partir da IPVV.

Por esse motivo, estão sendo analisados dados referentes aos índices de emprego e renda, além dos índices de desenvolvimento social, visando traçar um comparativo de como era a região antes da indicação de procedência e como ela está agora, após nove anos de reconhecimento. O estudo servirá para mensurar se as indicações geográficas são mesmo um mecanismo para o desenvolvimento regional.

Os únicos dados disponíveis que podem, de alguma forma, auxiliar na análise da evolução de emprego e da renda na região são os indicadores econômicos fornecidos pela FEE e pelo IBGE, cujos dados são disponibilizados por município. Mas esses índices informam o crescimento socioeconômico dos municípios como um todo e não somente de uma região. Nessa senda, para verificar o desenvolvimento da região do Vale dos Vinhedos, deve-se traçar um comparativo dos municípios de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul e Garibaldi, que compõem a região do Vale dos Vinhedos.

Com relação ao município de Bento Gonçalves, no que diz respeito à geração de emprego, pode-se verificar que, nos últimos anos, ocorreu um aumento no número de funcionários admitidos, em detrimento dos funcionários desligados, concluindo-se que houve um crescimento na geração de emprego desse município, como vê-se no gráfico 3.

Gráfico 3 - Índice de emprego no município de Bento Gonçalves no período de 2002 a 2009 Fonte: Elaborado pela autora a partir de dados obtidos no IBGE.

Da mesma forma, o município de Garibaldi apresentou um crescimento na geração de empregos, como se pode observar no gráfico 4.

Gráfico 4 - Índice de emprego no município de Garibaldi no período de 2002 a 2009 Fonte: Elaborado pela autora a partir de dados obtidos no IBGE.

No que tange ao município de Monte Belo do Sul, pode-se verificar no gráfico 5 que, no último ano, houve um aumento no número de funcionários admitidos, significando a elevação no número de empregos gerados. Contudo, o pico na geração de emprego se deu no ano de 2009, como mostra o gráfico abaixo, ao se comparar as admissões e desligamentos.

Gráfico 5 - Índice de emprego no município de Monte Belo do Sul no período de 2002 a 2009 Fonte: Elaborado pela autora a partir de dados obtidos no IBGE.

Na percepção dos atores, a geração de emprego no Vale cresceu consideravelmente, pois ocorreu um aumento nos empreendimentos da região e, para suprir a demanda de mão- de-obra, esta conta com mão-de-obra vinda de outros locais.

[...] na geração de emprego, todos esses empreendimentos, sejam hoteleiros, restaurante, e que têm implicações sociais. Realmente, quando nós, há 15 anos atrás, aqui [no Vale] ocupávamos exclusivamente a mão-de-obra local, hoje, para poder atender à demanda, é necessário lançar mão de grande maioria, de 60 a 70% de mão-de-obra que vem de outras regiões [...] (EAA).

Outro indicador que pode ser levado em consideração é o PIB per capita e, como podemos observar na tabela 5, esse índice vem crescendo ano a ano nos municípios que compõem a região do Vale dos Vinhedos, sendo que o com maior crescimento é o de Monte Belo do Sul.

Traçando um comparativo com o estado do Rio Grande do Sul, observa-se que o PIB per capita dos municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul estão muito acima da média estadual (tabela 5), especialmente no que diz respeito aos dois primeiros municípios. Porém, Monte Belo do Sul superou a média nos anos de 2007 e 2008. Nesse sentido, pode-se verificar um aumento gradativo no PIB per capita da região do Vale dos Vinhedos, com relação ao estado do RS.

Município 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Bento Gonçalves 14.057 14.756 16.889 18.689 19.057 21.905 22.706 Garibaldi 16.563 18.875 21.627 22.087 20.652 24.346 27.401 Monte Belo do Sul 8.468 9.047 9.570 9.989 11.486 16.527 20.009 Média RS 10.057 11.742 12850 13.298 14.305 16.689 18.378 Tabela 5 – PIB per capita em R$

Fonte: FEE/Centro de Informação Estatística (2011).

Além do PIB per capita, pode-se analisar ainda o IDESE por município, entretanto, esse indicador somente está disponibilizado até o ano de 2007. Com este índice, pode-se perceber que o desenvolvimento socioeconômico dos três municípios em tela está em ascensão.

Comparando o IDESE dos municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, com a média anual do Estado do Rio Grande do Sul (tabela 6), observa-se que os dois primeiros municípios superaram a média estadual, sendo que o terceiro encontra-se um pouco abaixo. Apesar do município de Monte Belo do Sul apresentar índices abaixo da média estadual, pode-se constatar que a região do Vale dos Vinhedos possui melhor desenvolvimento socioeconômico que a média do RS.

Município 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Bento Gonçalves 0,804 0,803 0,803 0,805 0,804 0,807 Garibaldi 0,784 0,788 0,789 0,791 0,787 0,799 Monte Belo do Sul 0,674 0,676 0,678 0,679 0,683 0,687 Média RS 0,753 0,757 0,769 0,761 0,764 0,770 Tabela 6 – Índice do Desenvolvimento Socioeconômico

Fonte: FEE/Centro de Informação Estatística (2011).

Analisando os indicadores de emprego e renda da população, bem como do desenvolvimento socioeconômico, pode-se concluir que esses municípios estão se desenvolvendo ano a ano.

[...] Nesse aspecto social e geração de emprego e renda, realmente, digamos, esse desenvolvimento [da região do Vale dos Vinhedos] propiciou, não só para a população local, mas para pessoas que vieram de outras regiões enriqueceram com seu trabalho [...] (EAA).

Mediante dados desses índices, aliados à percepção dos atores do Vale dos Vinhedos, percebe-se que, após 2002, houve um progresso na região, fomentando realmente um desenvolvimento regional.

[...] isso [o Vale dos Vinhedos], há 10 anos atrás não tinha nada, nem asfalto, a gente não tinha, era estrada de chão, então o potencial que o Vale dos Vinhedos tem é infinito, todos querem investir aqui (EAA).