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1 ASPECTOS DO PROCESSO DE GLOBALIZAÇÃO EM DEBATE

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CAPÍTULO II A SOCIEDADE CIVIL ANGOLANA

1 ASPECTOS DO PROCESSO DE GLOBALIZAÇÃO EM DEBATE

Ultimamente, diversos discursos que aponte aspectos internacionais têm em seu corpo o termo “globalização” (ou “mundialização”, muito comum na literatura francesa). No entanto, a popularização da expressão não serviu para esclarecer seu conteúdo. Ao contrário, serviu apenas para apontar ao senso comum características superficiais do termo e dos diversos aspectos que envolvem o conceito.

176 Vale lembrar que o Banco Mundial revelou recentemente que Angola vai atingir em 2011 o seu nível mais alto de

produção petrolífera (dois milhões e 600 mil barris por dia) em função da descobertas de novas jazidas em águas profundas (hoje em dia produz um milhão e 600 mil barris por dia). In Jornal Folha 8, nove de dezembro de 2006.

Para Anthony Giddens, a globalização pode ser definida como a intensificação de relações sociais mundiais que unem localidades distantes de tal modo que os acontecimentos locais são condicionados por eventos que acontecem a muitas milhas de distância e vice-versa. Esse é um processo dialético porque tais acontecimentos locais podem-se deslocar numa direção inversa às relações muito distanciadas que os modelam. A transformação local é tanto uma parte da globalização quanto a extensão lateral das conexões sociais através do tempo e do espaço. Assim, quem quer que estude as cidades hoje em dia, em qualquer parte do mundo, está ciente de que o que ocorre numa vizinhança local tende a ser influenciado por fatores – tais como dinheiro mundial e mercado de bens – operando a uma distância indefinida da vizinhança em questão (Giddens, 1990: 69-70). Ainda de acordo com Giddens, a globalização não é apenas um fenômeno econômico e não deve ser equacionada com o surgimento de um “sistema mundial”. A globalização trata efetivamente da transformação do espaço e do tempo. Ele define a ação à distância, relacionando sua intensificação nos últimos anos ao surgimento da comunicação global e ao transporte de massa (Giddens, 1995: 13).

Muitos teóricos apontam o processo de revolução tecnológica, após a década de 1960, como o início do processo de globalização. Essa abordagem dá ênfase que a partir desse momento, aspectos importantes da vida social começam a passar por significativas transformações. Para Manuel Castells, defensor da idéia de “determinismo tecnológico”, essa revolução está concentrada nas tecnologias da informação e está remodelando a base material da sociedade em ritmo acelerado. Economias por todo o mundo passaram a manter interdependência global, apresentando uma nova forma de relação entre a economia, o Estado e a sociedade em um sistema de geometria variável177 (Castells, 1999: 21). Consoante Paul Singer, a globalização pretende ser uma mudança qualitativa da internacionalização, na medida em que grandes progressos em comunicação e transporte se aproximaram ainda mais todos os povos nos sentido material e cultural (Singer, 1997: 40). Octávio Ianni chama-nos atenção para as diversas metáforas que advém da idéia de globalização. A concepção de “aldeia global” aponta que formou-se a comunidade mundial, concretizada com as realizações e as possibilidades de comunicação, informação e fabulação abertas pela eletrônica. Sugere que estão em curso a harmonização e a homogeneização progressivas (Ianni, 2002: 16). Outra idéia é a de “fábrica

177É seguramente consenso à idéia do domínio da tecnologia ser espaço fundamental no jogo de poder da sociedade

global”, que sugere-nos uma transformação quantitativa e qualitativa do capitalismo além de todas as fronteiras, subsumindo formal ou realmente todas as outras formas de organização social e técnica do trabalho, da produção e reprodução ampliada do capital (Ianni, 2002: 18).

Conforme salienta Boaventura Sousa Santos, nas últimas três décadas, as interações transnacionais conheceram uma grande intensificação, desde a globalização dos sistemas de produção e das transformações financeiras, à disseminação, a uma escala mundial, de informação e imagens através dos meios de comunicação social ou às deslocação em massa de pessoas, seja migrantes, refugiados, turistas ou trabalhadores. Nesse contexto, o autor aponta essa extraordinária amplitude e profundidade destas interações transnacionais levou a que alguns autores as vissem como ruptura em relação às anteriores formas de interações transfronteiriças, um fenômeno novo chamado de “globalização”178.

No entanto, as opiniões a respeito da origem do fenômeno da globalização se divergem. Roland Robertson (1992) vê a globalização como um processo que já está a ocorrer com algumas interrupções há vários séculos, mas o principal foco da discussão situa-se em tempos relativamente recentes. Esse autor descreve cinco fases no percurso que nos conduziu até o presente: a primeira é a fase embrionária, que se situa entre o século XV e meados do século XVIII, quando a partir do renascimento, assistiu-se ao crescimento demográfico das sociedades nacionais européias, o avanço de suas explorações geográficas e territoriais, e também a difusão de valores culturais; a segunda é a fase incipiente, de meados do século XVIII à década de 1870, e tem na história européia sua base, uma idéia de concepção homogênea do estado unitário, formalização de relações internacionais, desenvolvimento de um tipo de padrão de cidadania e de uma idéia mais concreta de humanidade, e o surgimento da questão do nacionalismo; a terceira fase, chamada de decolagem, situa-se entre 1870 e os anos 1920, quando a superação do capitalismo liberal pelo monopolista, no processo de Segunda revolução industrial, favoreceu o modo burguês de produção e suas contradições, possibilitando a eclosão da primeira grande Guerra; a Quarta fase é da luta pela hegemonia, ou seja, de meados da década de 1920 até o final dos anos 1960, ligado as disputas e guerras sobre os termos frágeis do processo de globalização estabelecidos no final da fase da decolagem, conflitos relativos a diferentes concepções de modernidade, ameaças de uso de armas atômicas; e finalmente, a fase das incertezas, iniciada em

178Entre esses autores, Boaventura cita Appadura (“fluxo de cultura global”, 1990), Fortuna (“cidades globais, 1997),

meados de 1960, caracterizada pelo fim da guerra fria, pela expansão de redes privadas de produção e comércio, pela telemática, pela complexificação do conceito de indivíduo, pela universalização e valorização da idéia de direitos humanos, pela grande expansão das organizações internacionais (incluindo as organizações não-governamentais), pela inclusão de países em desenvolvimento nas redes globais de produção e comércio e pelo desenvolvimento da noção de que a globalização é a grande marca da nossa contemporaneidade.

Essa visão histórica da globalização pressupõe uma relativização da discussão da importância do processo recente de globalização. No entanto, para Castellls essa nova sociedade emergente desse processo recente de transformação é essencialmente capitalista e também informacional, embora apresente variação histórica considerável nos diferentes países, conforme sua história, cultura, instituições e relação específica com o capitalismo global e a tecnologia informacional (1999: 31).

Boaventura indica que estamos perante um processo de globalização com características de um fenômeno multifacetado com dimensões econômicas, sociais, culturais, políticas, religiosas e jurídicas interligadas de modo complexo. Por esse motivo, as explicações monocausais e interpretações monolíticas deste fenômeno parecem pouco adequadas (2002: 26). Giddens salienta que a globalização não é um processo único, mas uma mistura complexa de processos que frequentemente atua de maneira contraditória, produzindo conflitos, disjunções e novas formas de estratificação179 (Giddens, 1997: 13).

O que se vê, no caso da globalização, ocultado pela sua origem econômica, de acordo com Fiori, são as relações assimétricas de poder e dominação que estão na sua origem e que explicam a sua expansão e a sua originalidade financeira (Fiori, 1997: 88). Joseph Stiglitz, inicialmente muito envolvido com essas políticas como economista-chefe do Banco Mundial, chamou-as mais tarde de “uma paz no cemitério”, após constatar que elas não só não conduziam ao crescimento, mas geravam grandes crises. O autor, embora com uma visão ainda economicista, aponta que:

“(...) os países en vías de desarollo son mucho más débiles, y los flujos de capitales de corto plazo que siguem a la liberalización de los mercados de capitales tienen un papel muy importante ya que inducem las fluctuationes económicas, por un lado, e inhiben las capacidades des de los gobiernos para contrarrestar estas fructuationes, por el outro” (Stiglitz, 2005: 08).

179Para o autor nesse contexto que surgem à revitalização dos nacionalismos locais e uma intensificação de

Samir Amin questiona a racionalidade que existe nas leis objetivas de mercado. O autor sustenta que a idéia da “competitividade” (sempre atrelada a idéia da sobrevivência no mercado) é o produto complexo de um conjunto de condicionantes que operam no conjunto da realidade econômica, política e social, e que neste combate desigual, os grandes centros utilizam cinco monopólios que articulam suas ações com eficácia. Estes monopólios deveriam, para o autor, chamar atenção da teoria social no seu conjunto. A saber: a) o monopólio dos que beneficiam aos centros contemporâneos no campo da tecnologia, ou seja, se trata de monopólios que exigem gastos gigantescos, que somente um Estado rico e grande pode sustentar; b) os monopólios que operam no acesso aos recursos naturais do planeta; c) os monopólios que operam nos campos da comunicação e os meios de comunicação de massa, que não somente uniformizam as culturas mundiais, com que também criam novos instrumentos de manipulação política180; d) os monopólios que operam no âmbito das armas de destruição de massa, que estavam limitados a bipolaridade no pós-guerra, hoje com um risco da proliferação fora do controle; e finalmente, e) os monopólios que operam no âmbito do controle dos fluxos financeiros de dimensão mundial. A liberalização da implantação das maiores instituições financeiras, que operam no mercado financeiro mundial, confirmou a esses monopólios uma eficácia sem precedentes. Os movimentos livres do capital financeiro globalizado operam, em marcos definidos por um sistema monetário mundial caduco. A globalização financeira, longe de impor-se de maneira natural, resulta ao contrário, de uma fragilidade extrema (Amin,1999: 97-99). O próprio Stigltiz critica o papel jogado na liberalização dos países em desenvolvimento nos mercado de capitais tem contribuído para a instabilidade econômica. O dinheiro entra no país, geralmente financiando um consumo excessivo, e logo sai tão rápido como havia entrado. Durante a saída de dinheiro, as instituições financeiras sofrem, e a falta de créditos estimula a recessão (Stiglitz, 2005: 11). Isso claramente traz, como indica Hirschman, um crescimento desequilibrado e um desenvolvimento também (1996:87).

Boa parte dos autores cita a importância dos mercados financeiros globais na conjuntura da formação da dinâmica da ordem política e econômica emergente181. A desregulação e o desenvolvimento tecnológico tem integrado o sistema financeiro num sistema global, numa

180Segundo Amin, a expansão do mercado dos meios de comunicação de massa modernos constituem um dos

maiores componentes da erosão do conceito e da prática da democracia, inclusive no Ocidente (1997: 99).

181Para Singer, as internacionalizações financeiras, econômicas e culturais surgem como tendência pelo menos desde

a viagem de Marco Polo ao Extremo Oriente. De acordo com o autor, houve interrupções ocasionais, mas nada que fizesse a internacionalização sumir por longo tempo (1997: 39).

enorme rapidez de transação de fluxos financeiros182. Para José Luís Fiori, é pós-1990 que são incorporados ao mundo das finanças desreguladas e globalizadas, os “mercados emergentes” do ex-mundo socialista e da América Latina. É o momento em que se universaliza a revolução neoliberal promovendo por todos os lados a desregulação e a dimensão territorial sem precedentes, mesmo quando não inclua a maior parte dos Estados nacionais (Fiori, 1997: 91). O escritor angolano Alves da Rocha assevera que o atual modelo de desenvolvimento angolano está esgotado. Um modelo basicamente dualista que estabeleceu fronteiras claras entre uma economia de enclave – centrada nos mecanismos dos mercados internacionais, assente no dólar e obedecendo às lógicas neoliberais mais puras – e uma economia interna enfraquecida e desarticulada, sujeita à dialética das “sobras orçamentais” e das incertezas da guerra (Rocha, 2004: 96). Ainda de acordo com Rocha, o modelo de desenvolvimento enclavista serviu de forma excelente as necessidades da guerra, tendo, de resto, sido o seu quase ùnico183 financiador, direta e indiretamente através de garantias reais que contrapesaram os empréstimos externos obtidos (Rocha, 2004: 96). No caso angolano, a economia de petróleo favoreceu poucas pessoas. A diversidade da população angolana não foi levada em consideração. Aconteceu justamente o contrário do que afirmava Amartya Sen184, pois as pouquíssimas ações de políticas públicas não criaram oportunidade para a população. Os níveis de educação e saúde permanecem praticamente estáticos ao longo desses anos.

Do ponto de vista político, Singer salienta que a globalização tem sido um processo essencialmente negativo. O seu avanço se deve a desregulação, à eliminação de restrições e controles que sujeitavam as transações comerciais e financeiras internacionais. Estas restrições e controles estão destinados a submeter as transações entre residentes dos diferentes países, aos interesses coletivos dos grandes agentes, cuja atividade constitui a economia nacional. Quando se

182Para Fiori, não há como desconhecer a profundidade e a velocidade das transformações que vê redesenhando o

mundo desde o início dos anos 1970, como tampouco pode se desconhecer a especificidade destas transformações dentro do movimento permanente de internacionalização do capital. A marca distintiva do atual movimento de internacionalização capitalista é a forma em que se deu a globalização das finanças viabilizada pelas políticas liberais de desregulação dos mercados, iniciada pelos EUA e Inglaterra, e avalancada pelo sistema de taxas cambiais flutuantes (1997: 89-90).

183Rocha afirma que só é aceitável essa afirmação do estrito ponto de vista financeiro, porque os exclusivos

financiadores foram o esforço e o sacrifício da população, cujo custo de oportunidades se deve medir em termos de rendimentos não obtidos, empregos não conseguidos e condições de vida não alcançadas. A taxa de pobreza do país é uma medida bem aproximada deste custo de oportunidade. Por isso se dizia que se a paz tem alguma utilidade social ela deve traduzir-se em dividendos muito concretos para a população (Rocha, 2004: 96).

184 Que nos países em desenvolvimento, a necessidade de iniciativas da política pública na criação de oportunidades

reduzem as tarifas alfandegárias protecionistas, a importação se amplia, o qual considera-se um avanço da globalização. Todavia, pode-se afirmar que esse avanço é negativo, dado que é ocasionado pela derrubada de uma barreira e os bens importados tomam lugar dos produtos nacionais menos competitivos, sem que se tenha criado, no plano político-institucional, qualquer instância responsável pela defesa do interesse nacional ou da definição do rumo para a re-divisão internacional do trabalho, que possa garantir uma distribuição equitativa dos custos e benefícios entre os países inseridos na globalização (Singer, 1997: 40-41).

No caso angolano, a indústria nacional tem atravessado um processo de quase autofagia. Na década de 1990, a década de “transição para a economia de mercado”, os números mostra o pífio desempenho da economia industrial do país: A) o desemprego industrial cresceu em média 1,1% por ano; a importância das empresas públicas industriais como amortecedores do desemprego é a única explicação para que a degradação do emprego industrial não tivesse sido mais expressiva. No entanto, menos desemprego teve um preço social equivalente a menor produtividade; B) A produtividade industrial regrediu a uma cadência média de quase 2 % ao ano; C) A desindustrialização operou-se a uma cadência média de 5,7% durante a década; D) O índice de industrialzação passou de 100 em 1974 (base da partida – ano da independência) para 24,3 em 1989 e para 13,2 em 2000. Essa evolução é dramática: em 1974 a participação da indústria transformadora do PIB global foi de 29,6%, em 1989 cifrou-se em 7,2 e em 2000 em 3,9; para Rocha, neste momento o país está virtualmente desindustrializado, e a conclusão é que a economia nacional está subjugada pelas importações. Bastante da explicação da desindustrialização verificada desde há muito tempo está nesta necessidade nacional para as importações. Tem-se, nesse contexto, uma realidade econômica extraordinariamente debilitada e uma classe empresarial que reclama por medidas de contenção desta degradação, de proteção do parque produtivo e de incentivo para a indispensável viragem185 (Rocha, 2004: 66).

Os entusiastas da globalização, de acordo com Singer, frequentemente apontam os ganhos obtidos pela remoção dos obstáculos políticos às transações internacionais, e é teoricamente justificável supor que haja tais ganhos econômicos. Mas também é um processo negativo, pois do

185Alves da Rocha chama atenção para dois aspectos relevantes nesse contexto. A primeira é o de que não pode haver

economia de mercado sem o setor privado. Verdade incontestável, mas esquecida porque ainda existe, para o autor, a prevalência de uma certa mentalidade estatista e ainda se pensa, ao nível do poder político, que a classe empresarial nacional tem pouca capacidade empreendedora; o outro aspecto tem a ver com a circunstância de ter de ser o setor privado como ator da reconstrução econômica do país, contrariando a idéia da importância do Estado nesse papel (Rocha, 2004: 66).

outro lado, o que não se discute é quem usufrui os benefícios e quem arca com os custos (Singer, 1994:41). Essa globalização negativa tende a transformar pequenos países e não completamente desenvolvidos em fantoches dos grandes conglomerados capitalistas privados. Para ganhar competitividade e crescer economicamente “para fora”, usando as exportações como ponta de lança, estes países devem atrair investimentos diretos das empresas transnacionais, que possuem tecnologia moderna e acesso aos mercados internacionais. Essa vontade experimentada por grande número de países, cria uma competência “degoladora” por tais investimentos, com crescentes benefícios e vantagens para as multinacionais e em detrimento, naturalmente, dos países competidores186 (Singer, 1998: 35).

O próximo tópico da tese está na importância da sociedade civil ao longo dos últimos anos. A redefinição do papel do Estado, do mercado e da sociedade está no cerne desta parte da tese. Para isso trago as contribuições de Hegel, Bobbio, Gramsci, Habermans, enfim, diversos autores e correntes que salientam diversas posições sobre essa questão.

2 - O CRESCIMENTO DO PAPEL DA SOCIEDADE CIVIL NO CONTEXTO DO

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