• Nenhum resultado encontrado

Aspectos do Processo Migratório Internacional na Era da

2.4 A GLOBALIZAÇÃO E SEUS REFLEXOS NO FLUXO

2.4.1 Aspectos do Processo Migratório Internacional na Era da

O processo migratório internacional tem assumido contornos e características próprios a partir das transformações econômicas, sociais, políticas, demográficas e culturais que vêm ocorrendo a partir dos anos de 1980. A reestruturação produtiva e o avanço da Globalização implicaram o surgimento de novas formas de mobilidade do capital e do fluxo migratório em escala global (PATARRA, 2006).

Na concepção de Castles e Miller (2004), o incremento da migração decorre de rápidas mudanças econômicas, demográficas, sociais, políticas, culturais e ambientais oriundas da descolonização, da modernização e do desenvolvimento desigual entre regiões e continentes. O acirramento e a aceleração dessas mudanças tendem a aumentar ainda mais os deslocamentos de pessoas e as transformações sociais. Nessa perspectiva, o processo migratório consiste numa faceta das mudanças sociais e do desenvolvimento global.

As migrações, no contexto da Globalização, envolvem os mais variados países, sejam eles desenvolvidos, sejam em desenvolvimento. Para Castles e Miller (2004), a inserção dos países

do Sul no âmbito do processo migratório internacional resulta da crescente integração regional, dos sistemas globais de relações internacionais e do intercâmbio cultural. Nesse sentido, a compreensão dos aspectos intrínsecos aos movimentos migratórios constitui elemento fundamental nas relações norte–sul.

A ascensão dos movimentos integracionistas regionais consubstanciados na formação dos blocos econômicos traz consigo uma redefinição dos limites fronteiriços e coloca em discussão a capacidade e a força do Estado como agente garantidor do controle das fronteiras nacionais. A constituição dos blocos torna as fronteiras menos perceptíveis e mais flexíveis, possibilitando, em alguns casos, a livre circulação dos fatores de produção, notadamente, de pessoas. Diante desse contexto, ocorre um aumento do fluxo migratório no interior dos blocos.

Cabe destacar, com respeito à interação entre blocos regionais e Estados, a contribuição de Brito (1995, p. 64) sobre os aspectos migratórios, no sentido de que:

As regiões de livre comércio [...] tendem a levar ao limite a internacionalização dos mercados de fatores de produção, já que as restrições alfandegárias são fortemente reduzidas. Porém a integração mercantil não significa a diluição dos limites do Estado-nação, e muito menos das suas heterogeneidades. As diferenças quanto à legislação trabalhista e às políticas salariais ou de terras, decisivas para as migrações internacionais, dificilmente serão homogeneizadas. Portanto, os fluxos da população continuarão existindo, sinalizados pelos desequilíbrios ou diferenças entre os diversos países.

Associado ao exposto, uma das características mais distintivas da Globalização, que passa a se perceber nos novos processos de transnacionalização, é o incremento da dinâmica da mobilidade mundial de mão-de-obra caracterizada pela busca de pessoas qualificadas, como uma das condições importantes diante do aumento da concorrência internacional. Assim, o incremento do fluxo de capital e de pessoas ocorre, concomitantemente, com transformações macroestruturais que redefinem o papel dos atores internacionais e culmina com a nova lógica da “Globalização atual”.

Nas palavras de Patarra (2006, p. 8):

[...] é preciso reconhecer, nesse contexto, que os movimentos migratórios internacionais representam a contradição entre interesses de grupos dominantes na globalização e os Estados nacionais, com a tradicional óptica de sua soberania; há que tomar em conta as tensões entre os níveis de ação internacional, nacional e local. Enfim, há que considerar que os movimentos migratórios internacionais constituem a contrapartida da reestruturação territorial planetária intrinsecamente relacionada à reestruturação econômico-produtiva em escala global.

Diante das transformações no processo produtivo caracterizadas pelo surgimento do processo de acumulação flexível em substituição ao modelo fordista, constata-se que o padrão migratório de caráter mais recente passa a se relacionar com um regime capitalista marcado, por um lado, pela instabilidade, mas, por outro, pela emergência de novas oportunidades de emprego e de negócios que atraem pessoas do mundo inteiro em direção a regiões que apresentam um maior dinamismo econômico.

Nessa perspectiva, segundo Cardoso (2002, p. 113) “[...] uma das faces da globalização é a dinamização da mobilidade mundial de mão-de-obra, destinando alguns países a ser terra de imigração e lançando-os uma concorrência internacional por mão-de-obra qualificada”. Dessa maneira, o fluxo migratório contemporâneo adquire nova especificidade consubstanciada no deslocamento de pessoas que apresentam um significativo grau de qualificação capaz de contribuir ainda mais para o desenvolvimento dos centros capitalistas. Na visão de Patarra (2006, p. 13), esse tipo de migração assume características que culminam em descentralização, temporalidade, conflitos e regulação. E acrescenta que a “[...] migração internacional é frequentemente causa e efeito de várias formas de conflitos e não um fenômeno isolado”.

Na era da Globalização, uma demanda crescente por mão-de-obra especializada se faz presente, notadamente, por parte dos países desenvolvidos. Prova disso é o aumento em média de 8% por mão-de-obra qualificada, como mostra o relatório divulgado em dezembro de 2000 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), citado por Cardoso (2002). A tendência é

que esse percentual aumente a cada ano, o que evidencia uma carência de mão-de-obra especializada no mundo. Para contornar esse dilema, os países que demandam esse tipo de força de trabalho têm investido na formação profissional de seus cidadãos, ao mesmo tempo em que, em curto prazo, têm lançado mão da imigração.

Nesse contexto, o movimento migratório “clássico” marcado pelo deslocamento de mão-de- obra desqualificada, originária de países pobres em direção aos países ricos, passa a incorporar uma nova configuração no bojo do processo de reestruturação produtiva e de globalização, qual seja: o fluxo de pessoas qualificadas, o que pode contribuir para o aumento da distância entre os países do centro e os da periferia, evidenciando, assim, as inter-relações entre Globalização, migração e exclusão social em escala local, regional e global. No entanto, isso não significa que o movimento migratório, na era da Globalização, se restringe ao deslocamento de pessoas entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos; ao contrário, a migração é um processo universal que perpassa todos os lugares do globo simultaneamente. Conforme apresenta Bógus (1999, p. 173), de uma forma geral:

A Migração Internacional hoje pode ser considerada uma das conseqüências perversas da Globalização, uma das suas mazelas à medida que desterritorializa indivíduos e grupos sociais sem possibilidade de propiciar sua re-inserção. Expulsa força de trabalho dos países pobres, sem condições de absorvê-la nos países ricos. Exclui sem apresentar perspectivas de inclusão.

Diante dessa complexidade e de uma nova sistemática do fluxo migratório em escala internacional, observa-se a presença de concepções teóricas que contribuem para a compreensão do deslocamento de pessoas nas diferentes partes do planeta, alterando, inclusive, a geografia global. Nesse cenário, cabe registrar a abordagem de Castells (1996) em

Sociedade Informacional e Sociedade em Rede, ao considerar que o avanço tecnológico e o informacional foram decisivos para a construção de uma rede global que facilita uma maior circulação de pessoas, capitais e mercadorias.

medida em que emerge imbuído de conflitos e da necessidade de formulação e implementação de políticas migratórias capazes de tornar o fluxo de pessoas um instrumento de combate à pobreza e à desigualdade entre países, regiões e continentes. Para tanto, torna-se fundamental a atuação do Estado tanto nas discussões e nas definições acerca das políticas de caráter migratório quanto na compreensão da importância das questões ligadas à soberania nacional bem como a participação de movimentos sociais constituídos a partir de uma sociedade forte e organizada. Isso porque, segundo Bógus (1999, p. 167):

[...] a globalização é sinônimo de exclusão para os grupos sociais que, não conseguindo inserir-se no mercado de trabalho de seus países de origem, buscam oportunidade nos centros hegemônicos ou melhor integrados no circuito econômico global. É sinônimo de exclusão também para aqueles países que não conseguem incorporar no âmbito local elementos do mundo localizado.

Os movimentos migratórios enfrentam, assim, enormes obstáculos que podem ser entendidos a partir do ingresso de mão-de-obra sob a forma ilegal, a subcontratação, o aumento dos imigrantes estrangeiros que trabalham no setor informal, privados de direitos trabalhistas e sujeitos à exploração como forma de atender aos interesses do capital, ampliando a lógica da precarização do mundo do trabalho apresentada no item anterior. Essa dinâmica contribui para a desregulamentação do mercado de trabalho impondo à força de trabalho estrangeira empregos instáveis com remotas possibilidades de promoção, o que comprova a precarização nas condições de trabalho as quais a mão-de-obra estrangeira, muitas vezes, está subjugada. Esse fenômeno se faz presente, em maior um menor grau, em decorrência da fragilidade dos sindicatos em plena era global (CASTLES; MILLER, 2004).

Em face às características do movimento migratório internacional no mundo contemporâneo, entendido a partir de aspectos próprios, supramencionados, seguir-se-á com reflexões e inquietudes no sentido de compreender as implicações e os desdobramentos desse processo no Brasil, a partir dos anos de 1980.

2.4.2 O Processo Migratório no Brasil e a Questão da Transferência de