4 A DIMENSÃO AMBIENTAL DO TURISMO NA SERRA DA BODOQUENA
4.2 Aspectos dos impactos ambientais do turismo
O negócio do turismo é baseado na satisfação das necessidades do visitante e o exotismo representa um dos apelos utilizados por alguns destinos para atraí-los. Existem muitos turistas ansiosos pelo contato com a natureza. Por isso, um fator extremamente crítico do turismo é que, quanto mais frágil ou mais ameaçado um determinado ambiente, mais ele se torna atraente para o turismo, potencializando, com isso, os seus impactos negativos. O Quadro 4.1 reproduz os impactos negativos mais importantes.
Quadro 4.1 Impactos negativos do fluxo turístico sobre o ambiente
• Criação e deterioração de trilhas • Redução do tamanho do habitat
• Deterioração de locais de acampamentos (campings) • Coleta irregular de espécimes vegetais e animais e impactos sobre a vegetação • Saturação do número de visitantes em alguns pontos
turísticos
• Compactação e erosão do solo com o aumento de pisoteio de pessoas e cavalos • Impactos causados por veículos de transporte e
recreação
• Aumento da pesca e redução dos estoques de peixes
• Acúmulo de lixo • Impactos visuais e sonoros
• Perturbação da rotina ou impactos sobre a fauna • Aumento do risco de incêndios
• Conflitos de uso do ambiente • Mudança do curso de rios e córregos
• Poluição física ou biológica da água • Danos causados por embarcações
• Proliferação de ervas daninhas, fungos ou espécies exóticas
• Emissões e poluição do ar Fonte: Adaptado de Eagles, McCool e Haynes (2002, p. 33).
Para Buckley (2003, p.499), o que predetermina o sucesso do turismo realizado em áreas naturais é o entendimento dos ecossistemas onde são praticados e a correta avaliação dos impactos que ali podem ocorrer. São inúmeras as fontes de impactos que incluem a
criação da infra-estrutura requerida para a atividade, para a adequação do transporte e para a instalação dos meios de hospedagens.
Andereck (1994, p.77), verificou que a questão da produção de resíduos sólidos e poluição da água parecem ser mais sérios nos países menos desenvolvidos, onde não existem sistemas e tecnologias mais avançadas para processos de compostagem de grandes quantidades de resíduos produzidos pela indústria turística, principalmente pelos hotéis, empresas de transporte e de alimentação.
Os danos ambientais existentes nessa indústria são semelhantes aos existentes em várias outras atividades econômicas. Todavia, é a indústria de turismo que, talvez, mantenha o incentivo mais poderoso para conservar o ambiente limpo e saudável: a manutenção da imagem frente ao mercado. Como afirmam Goeldner, Ritchie & Mcintosh (2002, p.357), em muitos locais se observa uma queda na demanda quando aumenta a degradação do ambiente, pois o turista evita, sistematicamente, locais poluídos. A qualidade do meio ambiente é um fator de competitividade do turismo, como afirma Mihalic (2000, p. 66ss). Este enumera, para o chancelamento da competitividade, diversos elementos de marketing e gestão, tais como: a certificação das boas práticas e a elaboração de códigos de conduta, entre outros esforços.
É por isso que se torna tão importante uma definição conceitual que indique caminhos para práticas menos degradantes de turismo para o patrimônio natural. Na região da Serra da Bodoquena, de forma semelhante a outras regiões turísticas com potencialidades semelhantes, têm ocorrido transgressões ao conceito de ecoturismo. Alguns atrativos da região abusam da sobrecarga no número de visitantes e modificando, drasticamente, os ambientes naturais com a instalação da estrutura receptiva.
O ecoturismo se coloca como uma alternativa ao turismo de massa, ao oferecer alternativas que reduzem impacto ambiental, respondendo, ao mesmo tempo, às necessidades sociais e econômicas de uma determinada área. São de difícil definição os limites entre o que se pode ou não fazer dentro de uma área onde se pratica o ecoturismo. A busca da harmonia da atividade econômica com as necessidades de preservação da natureza e das próximas gerações se choca com a ganância e os interesses pelo lucro imediato dos empresários do
trade e, com isso, é impossível manter regras rígidas de conduta e formas de gestão que, como
foi discutido no mesmo capítulo, não respondem a um método único. Daí o surgimento de procedimentos como diversos cálculos possíveis para os limites de capacidade de carga, ou ainda, os conceitos LAC (Limite Aceitável de Câmbio), acompanhados de propostas de avaliação com variadas denominações como o Recreation Opportunity Spectrum – ROS
117
(Espectro de aplicações recreativas) e o Visitor Activity Management Process – VAMP (Processo de Gestão de Atividades dos Visitantes).
Existem três formas de cálculo para capacidade de carga aplicáveis a um sistema turístico: a) Capacidade física de carga (Physical carrying capacity-PCC); b) Capacidade real de carga (Real carrying capacity – RCC); e, c) Capacidade efetiva de carga (Effective
carrying capacity – ECC). A capacidade física de carga é calculada de acordo com o espaço
necessário para uma pessoa se mover livremente em um tempo específico. A capacidade real de carga é o calculo da capacidade real de carga corrigida com a aplicação de alguns fatores como índice de precipitação pluviométrica, vulnerabilidade do terreno à erosão, grau de inclinação do terreno, etc. A capacidade efetiva de carga se constitui no cálculo da capacidade real de carga, corrigida pela diferença entre a capacidade atual permitida e a capacidade ideal de carga, considerando a capacidade de gestão que é permitida pelo número de pessoas envolvidas na gestão do sistema turístico (Mowforth, 1998, p. 107).
Na ausência de um consenso entre a melhor forma de relacionar turismo e natureza insere-se o bom senso de uma saída negociada para os conflitos de uso e para a convivência dos interesses de uma área empresarial, benefícios sociais e a própria ciência. Um dos pontos primordiais do turismo sustentável é sua contribuição para o conhecimento dos ecossistemas e da evolução das relações de comunidades tradicionais de forma a aprimorar instrumentos de educação ambiental. É o que provoca a necessidade de investimentos constantes em pesquisas e desenvolvimento das formas de monitoramento e avaliação de impactos ambientais.
É bem atual a discussão da integração de atividades econômicas sustentáveis em áreas de preservação, entre essas, o turismo se coloca como uma boa alternativa, no entanto, sua implementação não poderá preterir o planejamento e zoneamento para imposição de limites onde ele possa ser realizado. Leuzinger (2002, p. 58) ressalta que os parques nacionais são pólos de atração turística, entretanto, a imposição constitucional e a Lei 9.985/2000 exigem que os equipamentos turísticos sejam compatíveis com um nível mínimo de segurança e conforto propiciado aos visitantes, e que, ao mesmo tempo, promova educação e interpretação ambiental, prevenindo agressões ao ambiente natural. Dessa forma, muitos parques instituídos apressam-se em elaborar seus planos de manejo, incluindo a atividade de turismo entre suas prioridades.
Da preocupação com os impactos do turismo e os cuidados com educação e preservação ambiental não está livre a região turística da Serra da Bodoquena que, conforme se verá a seguir, possui um rico patrimônio natural e começa a sentir os impactos verificados em outros sistemas turísticos.