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ASPECTOS DOUTRINÁRIOS E JURISPRUDENCIAIS SOBRE A

Os pais são responsáveis pela reparação civil decorrente de atos ilícitos praticados pelos filhos menores que estiverem sob seu poder e em sua companhia.

Neste sentido, é o que preceitua o CC em seu art. 932, inciso I: “São também responsáveis pela reparação civil: os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia”.

Sobre esta responsabilidade, explica Venosa142 que:

O presente Código menciona os filhos que estiverem sob a “autoridade” dos pais, o que não muda o sentido da dicção legal anterior, dando-lhe melhor compreensão. Não se trata de aquilatar se os filhos estavam sob a guarda ou poder material e direto dos pais, mas sob sua autoridade, o que nem sempre implica proximidade física. Essa responsabilidade tem como base o exercício do poder familiar que impõe aos pais um feixe enorme de deveres.

Complementa Diniz143 afirmando que “Quem exerce o poder

familiar responderá solidária e objetivamente pelos atos do filho menor que estiver

sob sua autoridade e em sua companhia [...], pois como tem a obrigação de dirigir sua educação deverá sobre ele exercer vigilância”.

Na verdade, se trata de aspecto complementar do dever de educar os filhos e sobre eles manter vigilância. Esta responsabilidade sustenta-se em uma presunção relativa, ou numa modalidade de responsabilidade objetiva, que acaba dando quase no mesmo. Há dois fatores nesta modalidade de responsabilidade: a menoridade e o fato de os filhos estarem sob o poder ou autoridade e companhia dos pais144.

Cabe aqui mencionar que o anterior CC (1916) determinava que a responsabilidade civil dos pais pelos atos dos filhos menores somente restava caracterizada quando o filho estivesse sobre o poder e companhia dos pais, admitindo com isso, que somente um dos pais fosse responsabilizado145.

Por certo que, atualmente, o CC/2002 não mais se atribui a responsabilidade civil dos pais dessa forma, como já mencionado na doutrina colacionada acima, além do Egrégio Superior Tribunal de Justiça – STJ já ter se manifestado a respeito:

DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. RESPONSABILIDADE CIVIL INDIRETA DOS PAIS PELOS ATOS DOS FILHOS. EXCLUDENTES. REEXAME DE MATÉRIA FÁTICA.

1.- Os pais respondem civilmente, de forma objetiva, pelos atos do filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia (artigo 932, I, do Código Civil).

2.- O fato de o menor não residir com o(a) genitor(a) não configura, por si só, causa excludente de responsabilidade civil.

3.- Há que se investigar se persiste o poder familiar com todas os deveres/poderes de orientação e vigilância que lhe são inerentes. Precedentes.

4.- No caso dos autos o Tribunal de origem não esclareceu se, a despeito de o menor não residir com o Recorrente, estaria também configurada a ausência de relações entre eles a evidenciar um esfacelamento do poder familiar. O exame da questão, tal como enfocada pela jurisprudência da Corte, demandaria a análise de fatos e provas, o que veda a Súmula 07/STJ.

5.- Agravo Regimental a que se nega provimento.

(AgRg no AREsp 220.930/MG, Rel. Ministro SIDNEI BENETI, TERCEIRA TURMA, julgado em 09/10/2012, DJe 29/10/2012).

143 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, 7º volume: responsabilidade civil. p. 510- 511.

144 VENOSA, Silvio de Salvo. Direito civil: responsabilidade civil. p. 69.

145 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil, volume 3: responsabilidade civil. p. 202.

Como esclarece a jurisprudência do tribunal superior, há casos, portanto, que não interessa para a configuração da responsabilidade civil dos pais, se o filho não reside com os mesmos ou não estava deles acompanhado, deve-se, em cada caso, verificar a existência do poder familiar dos pais sobre os filhos, além da circunstância de o filho estar sob o poder e companhia de seus pais.

Contudo, deve-se deixar claro que ara configuração da responsabilidade civil dos pais, o filho deve estar sob a autoridade e em companhia de seus pais, pois se estiver em companhia de outrem, como no caso daqueles que estão internados em colégios, a responsabilidade civil objetiva será daquele a quem incumbe o dever de vigilância146.

Esclarece Diniz147 que:

Não é suficiente que o menor esteja sob o poder familiar dos pais, é preciso que viva em sua companhia e esteja sob sua vigilância, para que haja responsabilidade paterna ou materna. Assim, se o menor, durante o seu trabalho numa oficina, apoderar-se de automóvel de terceiro, que ali foi deixado para conserto, e provocar acidente de trânsito, o empregador será o responsável pela reparação do dano, mas terá ação regressiva (CC, art. 934).

Nesta senda, estabelece o art. 932, inciso III, do CC que é também responsável pela reparação civil o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele.

Estabelece o art. 933 do CC: “As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa de sua parte, responderão pelos atos praticados pelos terceiros ali referidos”.

Desta feita, no caso citado acima, seriam solidariamente responsáveis pelos danos causados pelo filho menor, os pais e o empregador do mesmo, conforme se verifica de decisão proferida pelo Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina - TJSC:

146 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, 7º volume: responsabilidade civil. p. 510- 511.

147 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, 7º volume: responsabilidade civil. p. 510- 511.

RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS. ACIDENTE DE TRÂNSITO. SENTENÇA DE PARCIAL PROCEDÊNCIA. INSURGÊNCIA DA AUTORA E DOS RÉUS. PRELIMINARES. [...]. SUSCITADA PELOS RÉUS JAQUELINE BEPPLER, FRANCISCO SEBASTIÃO BEPPLER E JANDIRA TEREZINHA QUINISS BEPPLER SUA ILEGITIMIDADE PARA FIGURAR NO POLO PASSIVO DA DEMANDA. SUSTENTADA A RESPONSABILIDADE INTEGRAL DO RÉU EVARISTO COLUMBANO, POR ESTAR A RÉ JAQUELINE BEPPLER CONDUZINDO O VEÍCULO DAQUELE NO EXERCÍCIO DO TRABALHO. ALEGADA A CONSEQUENTE FALTA DE RESPONSABILIZAÇÃO DOS PAIS POR ATO DE FILHA MENOR EM CASO DE ILEGITIMIDADE DESTA. INSUBSISTÊNCIA. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA ENTRE EMPREGADO E EMPREGADOR. ART. 932, III C/C 942, PARÁGRAFO ÚNICO, AMBOS DO CÓDIGO CIVIL. LEGITIMIDADE DA RÉ JAQUELINE BEPPLER CONFIGURADA. LEGITIMIDADE DE SEUS PAIS, RÉUS FRANCISCO SEBASTIÃO BEPPLER E JANDIRA TEREZINHA QUINISS BEPPLER QUE SE IMPÕE PELA RESPONSABILIDADE DOS PAIS POR ATOS DOS FILHOS MENORES. ART. 932, I, DO CÓDIGO CIVIL. PRELIMINAR AFASTADA. MÉRITO. ACIDENTE DE TRÂNSITO. COLISÃO ENTRE VEÍCULOS QUE TRANSITAVAM EM PISTAS DE ROLAMENTO COM DIREÇÕES OPOSTAS. [...]. PREVALÊNCIA DA TESE ESTAMPADA NO BOLETIM DE OCORRÊNCIA E NÃO DERRUÍDA PELOS RÉUS. INVASÃO DA PISTA CONTRÁRIA CONFIRMADA. IMPRUDÊNCIA. INFRAÇÃO AOS ARTS. 28 E 29, I, AMBOS DO CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO. CONDUTORA RÉ, ADEMAIS, QUE NÃO ERA HABILITADA PARA DIREÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR. IMPRUDÊNCIA E PRESUNÇÃO DE IMPERÍCIA. VIOLAÇÃO À INFRAÇÃO CONTIDA NO ART. 162, I, DO CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO. ATO ILÍCITO CONFIGURADO. DEVER DE INDENIZAR PROCEDENTE. INTELIGÊNCIA DO ART. 5º, X, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E DOS ARTS. 186 E 927 DO CÓDIGO CIVIL. DANOS MATERIAIS. [...]. 2. É cristalina a culpa e o decorrente dever de indenizar do motorista que, ao arrepio das mais comezinhas regras de trânsito, imprudentemente invade pista contrária e intercepta a passagem de veículo que seguia em sua mão de direção. (TJSC, Apelação Cível n. 2014.026077-1, de Blumenau, rel. Des. Marcus Tulio Sartorato, j. 27-05-2014).

Sobre a responsabilidade do patrão de empregado ou preposto menor, discorre Gonçalves148 que:

Quando o menor é empregado ou preposto de outrem, a responsabilidade será do patrão. Nesse sentido a jurisprudência: “O pai não responde por dano causado por filho menor que trabalha para outrem”;

“Menor. Ato ilícito. Responsabilidade do pai. Inadmissibilidade. Prática enquanto se encontrava sob a responsabilidade do patrão”. “O pai responde pelos danos causados pelos filhos menores somente enquanto estiverem sob sua vigilância. Assim, se o menor,

durante o horário de trabalho, apodera-se de veículo de terceiro que se encontrava para conserto e vem a colidi-lo contra poste de iluminação, causando prejuízos de elevada monta, cabe ao empregador a responsabilidade pela reparação”.

Se o menor estava sob a guarda e companhia da mãe, em decorrência de separação judicial ou divórcio, esta responderá pelo ato ilícito de seu filho, e não o pai, tendo-se em vista que está no poder familiar. O contrário também poderá ocorrer149.

O STJ possui o entendimento, entretanto, de que a responsabilidade poderá ser subsidiária entre aquele que detém a guarda e o que não há possui, conforme segue:

RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PAIS PELOS ATOS ILÍCITOS DE FILHO MENOR - PRESUNÇÃO DE CULPA - LEGITIMIDADE PASSIVA, EM SOLIDARIEDADE, DO GENITOR QUE NÃO DETÉM A GUARDA - POSSIBILIDADE - NÃO OCORRÊNCIA IN CASU - RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO.

I - Como princípio inerente ao pátrio poder ou poder familiar e ao poder-dever, ambos os genitores, inclusive aquele que não detém a guarda, são responsáveis pelos atos ilícitos praticados pelos filhos menores, salvo se comprovarem que não concorreram com culpa para a ocorrência do dano.

II - A responsabilidade dos pais, portanto, se assenta na presunção juris tantum de culpa e de culpa in vigilando, o que, como já mencionado, não impede de ser elidida se ficar demonstrado que os genitores não agiram de forma negligente no dever de guarda e educação. Esse é o entendimento que melhor harmoniza o contido nos arts. 1.518, § único e 1.521, inciso I do Código Civil de 1916, correspondentes aos arts. 942, § único e 932, inciso I, do novo Código Civil, respectivamente, em relação ao que estabelecem os arts. 22 do Estatuto da Criança e do Adolescente, e 27 da Lei n. 6.515/77, este recepcionado no art. 1.579, do novo Código Civil, a respeito dos direitos e deveres dos pais em relação aos filhos.

III - No presente caso, sem adentrar-se no exame das provas, pela simples leitura da decisão recorrida, tem-se claramente que a genitora assumiu o risco da ocorrência de uma tragédia, ao comprar, três ou quatro dias antes do fato, o revólver que o filho utilizou para o crime, arma essa adquirida de modo irregular e guardada sem qualquer cautela (fls. 625/626).

IV - Essa realidade, narrada no voto vencido do v. acórdão recorrido, é situação excepcional que isenta o genitor, que não detém a guarda e não habita no mesmo domicílio, de responder solidariamente pelo ato ilícito cometido pelo menor, ou seja, deve ser considerado parte ilegítima.

V - Recurso especial desprovido.

149 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, 7º volume: responsabilidade civil. p. 510- 511.

(REsp 777.327/RS, Rel. Ministro MASSAMI UYEDA, TERCEIRA TURMA, julgado em 17/11/2009, DJe 01/12/2009).

Afirma Gonçalves150 que “Considerando-se que ambos os pais

exercem o poder familiar, pode-se afirmar, pois, que a presunção de responsabilidade dos pais resulta antes da guarda que do poder familiar. E que a falta daquela pode levar à exclusão da responsabilidade”.

Se a guarda do filho for compartilhada, ambos os pais terão o exercício do poder familiar e, consequentemente, a responsabilidade civil objetiva pelos danos causados a terceiros por seus filhos menores151.

O STJ também já decidiu pela responsabilização de ambos os pais divorciados, mesmo tendo sido destinada a guarda a apenas um deles, além de responsabilizar a avó, com quem o menor residia quando da prática do ato danoso por este:

CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. RESPONSABILIDADE DOS PAIS E DA AVÓ EM FACE DE ATO ILÍCITO PRATICADO POR MENOR. SEPARAÇÃO DOS PAIS. PODER FAMILIAR EXERCIDO POR AMBOS OS PAIS. DEVER DE VIGILÂNCIA DA AVÓ.

REEXAME DE FATOS. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 7/STJ. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL COMPROVADO.

1. [...].

2. Ação de reparação civil movida em face dos pais e da avó de menor que dirigiu veículo automotor, participando de "racha", ocasionando a morte de terceiro. A preliminar de ilegitimidade passiva dos réus, sob a alegação de que o condutor do veículo atingiu a maioridade quando da propositura da ação, encontra-se preclusa, pois os réus não interpuseram recurso em face da decisão que a afastou.

3. Quanto à alegada ilegitimidade passiva da mãe e da avó, verifica- se, de plano, que não existe qualquer norma que exclua expressamente a responsabilização das mesmas, motivo pelo qual, por si só, não há falar em violação aos arts. 932, I, e 933 do CC. 4. A mera separação dos pais não isenta o cônjuge, com o qual os filhos não residem, da responsabilidade em relação ao atos praticados pelos menores, pois permanece o dever de criação e orientação, especialmente se o poder familiar é exercido conjuntamente. Ademais, não pode ser acolhida a tese dos recorrentes quanto a exclusão da responsabilidade da mãe, ao argumento de que houve separação e, portanto, exercício unilateral do poder familiar pelo pai, pois tal implica o revolvimento do conjunto

150 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro, volume IV: responsabilidade civil. p. 104- 105.

151 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, 7º volume: responsabilidade civil. p. 510- 511.

fático probatório, o que é defeso em sede de recurso especial. Incidência da súmula 7/STJ.

5. Em relação à avó, com quem o menor residia na época dos fatos, subsiste a obrigação de vigilância, caracterizada a delegação de guarda, ainda que de forma temporária. A insurgência quanto a exclusão da responsabilidade da avó, a quem, segundo os recorrentes, não poderia se imputar um dever de vigilância sobre o adolescente, também exigiria reapreciação do material fático- probatório dos autos. Incidência da súmula 7/STJ.

6. Considerando-se as peculiaridades do caso, bem como os padrões adotados por esta Corte na fixação do valor indenizatório a título de danos morais por morte, reduzo a indenização arbitrada pelo Tribunal de origem para o valor de R$ 250.000,00 (duzentos e cinquenta mil reais), acrescido de correção monetária a partir desta data (Súmula 362/STJ), e juros moratórios a partir da citação, conforme determinado na sentença (fl. 175), e confirmado pelo Tribunal de origem (fls. 245/246).

7. Recurso especial parcialmente conhecido e, na extensão, provido. (REsp 1074937/MA, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 01/10/2009, DJe 19/10/2009).

Em caso de união estável, os pais do filho menor devem responder solidariamente pelos atos praticados por aquele, bem como demonstra a decisão proferida pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul - TJRS:

APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. DANOS MORAIS. JOGO AMISTOSO. DISPUTA DE BOLA. FRATURA DE OSSO NASAL. AGRESSÃO FÍSICA DESMEDIDA. DEVER DE INDENIZAR. DANOS MORAIS DECORRENTES DO PRÓPRIO FATO. 1. A responsabilidade dos pais, na constância do casamento ou união estável, em razão de atos ilícitos dos filhos menores decorre do poder familiar e este é exercido tanto por um genitor quanto pelo outro, e, assim, qualquer um deles responde pelos atos de seus filhos. Preliminar de ilegitimidade passiva rejeitada. 2. O conjunto probatório revela-se suficiente para demonstrar que o comportamento voluntário do filho do réu, exteriorizado por ação imprudente, agressiva e injustificada, causou ao autor dano efetivo, ocasionando fratura em osso nasal, com necessidade de intervenção cirúrgica. 3. Os danos morais sofridos pelo autor independem de prova de prejuízo, pois decorrem do próprio evento, no qual a sua integridade física ficou gravemente violada, Preliminar rejeitada. Apelação desprovida. (Apelação Cível Nº 70045989803, Quinta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Romeu Marques Ribeiro Filho, Julgado em 29/02/2012).

Assim, assevera Gonçalves152 que “comprovado o ato ilícito do

menor, dele decorre, por via de consequência e independentemente de culpa do pai, a responsabilidade deste”.

A responsabilidade civil dos pais sobre os filhos é, portanto, objetiva, ou seja, não mais se analisa a culpa para efeito de responsabilidade, ainda que sob a forma de presunção, na medida que o art. 933 do CC destacou que todas as modalidades de responsabilidade indireta são objetivas153.

Neste sentido é o julgado do TJSC:

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS. RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO INTENTADA CONTRA O ESPÓLIO. FATO LESIVO PRATICADO PELO FILHO MENOR DO AUTOR DA HERANÇA QUE VEIO A FALECER POR CONTA DO MESMO ATO. FILHO QUE PEGA A ARMA DO PAI E ATIRA NO SEU GENITOR, NA SUA IRMÃ E NA AUTORA DA AÇÃO (NAMORADA DO DE CUJUS). AUTORA SOBREVIVE MAS COM SEQUELAS. ALEGADO SURTO PSICÓTICO DO MENOR DE IDADE. QUESTÃO QUE NÃO RETIRA A RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO GENITOR E, NA SUA FALTA, DO ESPÓLIO DESTE. SENTENÇA QUE JULGOU PARCIALMENTE OS PEDIDOS PARA CONDENAR O ESPÓLIO AO PAGAMENTO DE INDENIZAÇÃO PELOS DANOS MORAIS E MATERIAIS. RECURSO DE AMBAS AS PARTES. SENTENÇA REFORMADA EM PARTE. RECURSO DA AUTORA PROVIDO EM PARTE. RECURSO DO RÉU NÃO PROVIDO. RECURSO DO RÉU. ALEGAÇÃO DE QUE NÃO HOUVE CULPABILIDADE DO AUTOR DA HERANÇA. SUPOSTA AUSÊNCIA DE NEGLIGÊNCIA.

EXCLUDENTE DA RESPONSABILIDADE POR

IMPREVISIBILIDADE DA OCORRÊNCIA DO ATO INFRACIONAL JÁ QUE O MENOR DE IDADE ESTAVA EM SURTO PSICÓTICO. SENTENÇA MANTIDA. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DOS PAIS PELOS DANOS CAUSADOS PELOS FILHOS MENORES. INTELIGÊNCIA DO ART. 932, INCISO I E DO ART. 933 AMBOS DO CÓDIGO CIVIL. "é objetiva a responsabilidade do pai pela reparação civil do dano causado pelo filho menor, pois agiu com culpa in vigilando. Não é o caso de acolhimento da tese de excludente de ilicitude por imprevisibilidade, porque o fato não estava fora do alcance do de cujus. Ao possuir arma de fogo em casa, o genitor do menor, que era sargento, deveria agir com total zelo, guardando-a em local seguro - que logicamente não seria o automóvel da família -, exercendo a vigilância do menor, o que certamente não foi obedecido." (Sentença, Dr. Marcelo Trevisan Tambosi). "Os pais respondem solidariamente por eventual ato danoso praticado por seus filhos menores, diante do seu dever de vigilância inerente ao poder familiar, nos termos do art. 932, I, do Diploma Civil." (AC n. 2009.022303-8, Rel. Des. Henry Petry Junior, DJ de 25-8-2011). [...]. (TJSC, Apelação Cível n. 2012.013325-8, da Capital, rel. Des. Carlos Prudêncio, j. 16-04-2013).

153 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil, volume 3: responsabilidade civil. p. 204.

Venosa154 afirma que “Tratando-se de dever de vigilância, a

culpa do genitor será, ao mesmo tempo, in vigilando e in omittendo”.

Será observado pelo juiz a conduta sob a forma objetiva, e não sob o aspecto da culpa dos menores, e decidirá se, no caso, poderá ser excluída a responsabilidade dos pais, reconhecendo, então, o caso fortuito ou a força maior155.

Aponta Diniz156 que “Pouco importará que os pais sejam

negligentes na vigilância, isto é, incorram em culpa in vigilando, que outrora se presumia havendo a inversão do onus probandi, incumbindo aos pais provar que cumpriram com o dever de vigilância para se livrarem da responsabilidade”.

Não há que se falar em presunção de culpa dos pais, portanto. Mesmo que não haja culpa dos pais, responderão estes objetivamente pelos atos danosos de seus filhos, absoluta ou relativamente incapazes [...]157.

O CC garantiu, ainda, que a responsabilidade civil dos pais pelos atos dos filhos menores seja mantida, mesmo estes sendo incapazes, conforme o art. 928: “O incapaz responde pelos prejuízos que causar, se as pessoas por ele responsáveis não tiverem obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios suficientes para tanto”.

Gagliano e Pamplona158 explicam o citado dispositivo,

afirmando que:

Pouco importando, pois, que se trate de menor absoluta ou relativamente incapaz, se o seu representante não tiver a obrigação de indenizar (imagine que o pai esteja em coma, e o seu filho, órfão de mãe, haja ficado em companhia da avó idosa, ocasião que cometeu o dano), ou for pobre, poderá a vítima demandar o próprio menor, objetivando o devido ressarcimento, caso haja patrimônio disponível.

154 VENOSA, Silvio de Salvo. Direito civil: responsabilidade civil. p. 71. 155 VENOSA, Silvio de Salvo. Direito civil: responsabilidade civil. p. 71.

156 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, 7º volume: responsabilidade civil. p. 510- 512.

157 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, 7º volume: responsabilidade civil. p. 510- 515.

158 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil, volume 3: responsabilidade civil. p. 204.

Uma vez que a responsabilidade paterna é decorrência do dever de guarda, com mais razão se configura no caso do menor sem discernimento, pois a obrigação de zelar por ele e de vigiá-lo é mais rigorosa159.

Continua Gonçalves160, aduzindo que:

Se provado ficar que o ato do menor privado de discernimento, abstratamente considerado, não violou nenhuma obrigação preexistente, força é convir que a ação promovida pela vítima contra o pai do menor inimputável deverá ser prontamente repelida, pois não se compreenderia que os representantes do menor incapaz, culpados por presunção legal, continuassem “culpados” pela prática de um ato que ocasionou um prejuízo mas não vulnerou nenhuma norma jurídica.

Do contrário, quando ficar provada a ilicitude do menor, seja ele incapaz ou não, fica dispensada a indagação sobre a imputabilidade do filho menor, pois o pai não responde pelo filho mas pela sua própria culpa161.

A responsabilidade civil dos pais não será ilidida, da mesma forma, se o filho viver em outra localidade, mas ainda depender das expensas dos

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