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4. Comissão da Verdade

4.1. Aspectos e importância da memória brasileira

Como já trabalhado, no Brasil, a busca da valorização dos direitos humanos é bas- tante recente e, assim como a democracia, é necessário que os mecanismos para a sua prote- ção sejam aperfeiçoados, beneficiando também, a própria democracia. Apesar de ser asse- gurado como Princípio Fundamental na Constituição de 1988 e ter dado prerrogativa ao Di- reito Internacional de legislar sobre o assunto como se direito interno fosse, o país encontra bastante dificuldade em pôr em prática medidas que assegurem o rol de garantias que os direitos humanos possui.

O Direito à Verdade e o Direito à Memória, estes sendo entendidos como inerentes aos Direitos Humanos, defendidos pela atual Constituição, começaram a ser integrados as políticas públicas propostas pelo Estado recentemente. Na perspectiva internacional, a valo- rização desses princípios deve ser estimulada principalmente após estados passarem por pe- ríodos de exceção ou vivenciar crimes de guerra. No Brasil, o debate sobre memória e es- quecimento começou com a Lei da Anistia e perdura aos dias atuais, seja através dos fami- liares que tiveram as histórias dos seus entes roubadas pela ditadura, ou mesmo nas tentações totalitárias que o presente demonstra ter, deixando claro o esquecimento das recentes vio- lências vividas no período militar.

Nesse contexto, a valorização da memória se vale tanto de seu aspecto individual como o coletivo, quando, à luz da filosofia política, entende-se a memória como um dever do Estado e também como um direito do povo. A interpretação como dever do estado, deve- se à responsabilização dos agentes ativos daquilo que abalou a democracia, daquilo que ins- taurou a violência como política de estado, atendendo a necessidade de justiça. Já a memória como um direito do povo, relaciona-se com o acesso à verdade, o acesso à justiça e as repa- rações que o estado-agente busca garantir (TELES, 2015, p. 58). Vemos a ineficiência do Brasil enquanto ‘devedor’, por não ter havido responsabilização dos que suspenderam a de- mocracia, demonstrando o zelo e cuidado para a sua proteção, como também se mostra ine- ficiente em dar o direito emanado do povo, quando não promoveu de forma vigorosa, os anseios sociais em trazer à comunidade brasileira, a verdade sobre o regime, principalmente no tangente às violências cometidas para propiciar uma fidedigna memória nacional.

Edson Teles, em seu livro Democracia e Estado de Exceção: Transição e Memória Política no Brasil e na África do Sul, ao trabalhar a comparação da política de enfrentamento das ditaduras que assolaram o Brasil e a África do Sul, cuidou em expor a importância da memória, principalmente no que diz respeito às marcas na atualidade, ao dizer que

A importância de compreender o trauma da ditadura está no fato de que tal passado deixou marcas não somente nas vítimas, mas na sociedade como um todo, na medida em que abalou a confiança nas instituições políticas, do mesmo modo que fez surgirem dúvidas com relação aos valores éticos e sociais (TELES, 2015 p. 29-30).

Ainda, no segundo capítulo de seu livro, ele apresenta o agrupamento de três grandes tipos de memória coletiva que pode ser encontrada posteriormente ao estado de exceção brasileiro, onde cada uma delas defende, diante da disputa da hegemonia da memória naci- onal, suas interpretações do passado de formas distintas: a versão dos agentes e instituições militares; a posição dos movimentos de direitos humanos que contemplam a versão dos fa- miliares das vítimas e a memória do consenso (TELES, 2015, p. 54).

Obviamente, a versão dos militares sobre os fatos e sua memória é defendida sob um aspecto de guerra, que fora necessário todos os excessos pois o país vivia “uma forte ameaça de ataque comunista ao governo brasileiro” e que necessariamente, deveria ser combatida. Já a versão da memória das vítimas se vale do clamor pela justiça, pelo dever do estado e pela sóbria investigação das atrocidades que atingiram seus familiares, com a devida respon- sabilização dos agentes estatais. E, por último, há a memória do consenso, que busca uma posição mediana entre as duas anteriores, colocando a transição como negociada e consen- tida por ambos os lados, sendo a memória mais adotada pós-ditadura. Através dessa visão, há uma limitação dos fatos que aconteceram na ditadura, de forma que o governo sucessor pode ser até recepcionado de forma simpática (TELES, 2015, p. 54), minimizando as críticas e questionamentos da redemocratização.

Quando observamos os sujeitos defensores dessas memórias, vemos claramente que, a hegemonia da memória nacional após o fim da ditadura, permanece sendo alternada prin- cipalmente entre a memória dos militares e a memória do consenso. Isso porque o processo político-transicional do Brasil, conforme já demonstrado nos capítulos acima deste trabalho, fora conduzido por aqueles que detinham o poder político, ou seja, os próprios militares e os

que faziam parte do seu grupo de apoiadores. A versão dos militares ainda encontra espaço no arranjo político brasileiro, seja na voz das próprias instituições militares, que ainda são muito presentes no cenário do cotidiano brasileiro; seja na voz das gerações que receberam influência de familiares que mantém o apreço pelas medidas militares, ou mesmo foram beneficiados com ela, difundindo como se o regime ditatorial fosse responsável por manter a ordem frente crises políticas.

Já a visão de consenso encontrou espaço e foi recebida como hegemônica ao propor uma linha mediana para as interpretações, colocando a transição como um acordo entre os grupos formados na circunstância da abertura política. Ela procurou dar, de forma prioritária, a legitimidade à transição negociada, entendida como um basta a interpretação que o regime de excesso foi violento e atroz por ambos os lados. Essa interpretação convida a aderência ao discurso político do meio,

É uma memória que reconhece os crimes como excessos cometidos e, ao mesmo tempo, questiona a amplitude da repressão, considerando os atos de barbárie da ditadura como fruto da ação de grupos minoritários e radi- calizados do regime, resultado dos atos da chamada “linha dura”. Por outro lado, interpreta a luta de resistência como a ação revolucionária e radicali- zada de pequenos grupos desvinculados do movimento pelo fim da dita- dura e retomada da democracia. Na tentativa de “racionalizar” o ocorrido, faz uso do discurso público do esquecimento e do perdão e coloca a socie- dade na posição passiva do espectador que se encontra entre dois lados extremos (TELES, 2015, p. 56).

E esse tipo de interpretação encontrou espaço e apoio mesmo de outras gerações que, mesmo não presenciando nenhum ato de exceção ou da oposição, acolheram a interpre- tação que aquele estado de violência de ambos os lados deveria ser rejeitado e que o passado está passado, gerando um afastamento social do próprio enfrentamento das violências da ditadura.

A memória social, como uma coletivização de identidade, tende a expressar, inva- riavelmente, as relações de poder dos grupos sociais. Se, no Brasil, a memória do consenso encontra mais espaço é porque as instituições políticas assim desejaram, quando reforçam como se houvesse um equilíbrio entre os lados que lutaram em polos opostos na ditadura. Como se o aparato estatal e a organização em movimentos sociais de opositores pudessem

ser equivalentes nas violências. Essa forma de lembrar, de memorizar, atende aos interesses dos que estão no topo da superestrutura, quando estes podem propiciar o senso-comum que mais os favorecem, conforme Enrique Serra Padrós:

(...) memória é uma construção. Como tal, ela é perpassada, veladamente, por mediações que expressam relações de poder que hierarquizam, se- gundo os interesses dominantes, aspectos de classe, políticos, culturais, etc. Isto não é produto do acaso; é sim, resultado da relação e interação entre os diversos atores históricos em um determinado momento conjuntural (PADRÓS, 2001, p. 81).

Mesmo o consenso sendo adotado de forma a ser o senso-comum, há também uma resistência que faz com que a memória seja disputada por diferentes atores históricos, pois o senso-comum não representa a realidade dos fatos do passado (PADRÓS, 2001, p. 81). Ao passo que, não há a possibilidade da memória ser neutra, por “a memória, tendo relação direta com o passado, manifesta-se, também, a partir das vicissitudes do presente, que ativa aquele ou o reconstrói a partir de suas necessidades e indagações” (PADRÓS, 2001, p. 82), ela acaba sendo um outro espaço de disputa entre os que exercem poder no presente.

É importante comentar que, ainda que não seja deliberadamente hegemônica, a me- mória dos militares é, comparada a visão dos grupos dos familiares das vítimas da repressão, muito mais bem aceita e possui mais registros oficiais, seja nos discursos, ou seja através da forma com que ela foi recepcionada em livros que fazem parte da educação regular, sem contar com os da educação militar. A educação possui importante papel na memória, pois historiciza os fatos através do registro que, ao serem grafados em livros, possuem o poder de perpetuar interpretações e produzem memórias para aqueles que não vivenciaram o pas- sado. Isso fez com que as discrepâncias vividas no tempo da exceção fossem minimizadas, tornando os livros, apenas expoentes do referencial de memória que atendeu ao grupo que deteve o poder de registrá-las.

E, também, vemos que, no Brasil, o privilégio deste registro quando mesmo nas gerações do presente o golpe é defendido como revolução, quando essa interpretação encon- tra espaços nas vozes do senso-comum ou mesmo quando encontra espaços em vozes que pleiteiam o retorno de uma política de estado violenta, vendo isso como algo positivo e pro- gressista para o país. Essa irracional defesa, e até mesmo a perigosa visão mediana do senso- comum, por ser ausente de criticismo, certamente corroborou com o golpe parlamentar de

2016 e, também, com a aberrante defesa pelo retorno do estado de exceção como um possível remédio para corrupção, como se vê em manifestações políticas na atualidade.

A memória da história da ditadura como um consenso, quase entendendo a ditadura como uma equidade de disputa, como se sociedade pudesse ser comparada ao Estado em um regime de exceção, tomou maior espaço na hegemonia da memória, até mesmo para que fosse justificado a transição brasileira. Essa visão pode ser encontrada não somente no dis- curso público, mas nas políticas públicas sobre educação e cultura, que formaram valores morais favoráveis àquela visão, seja pelos livros de história na educação regular, seja pelos discursos políticos adotados pelos partidos e organizações políticas.

Já a memória da oposição, que constantemente fora sufocada através do não-regis- tro, da não-publicização, tem-se a memória daqueles que lutaram contra o regime, de fami- liares daqueles que tiveram as suas condições de vítimas roubadas através do esquecimento imposto na Lei da Anistia. A condição de vítima foi roubada por serem colocados como agentes da violência ao lado daqueles que os violentaram. A Lei da Anistia nevoou a memó- ria que marcava a oposição ao regime ao colocar todos em um só campo, neste lugar de apaziguamento entre dois polos antagônicos, com um ar forçado de bandeira branca, como vimos no capítulo anterior. Porém, anistiar aqueles que não se dizem os nomes? Centenas de jovens que se tem apenas a certeza que foram assassinados, mas não oficialmente ou sob quais condições ou mesmo por qual agente, muito menos anistiados. O Estado, quando de- fine vítimas e algozes como agentes iguais de crimes políticos, faz com que a memória dos que sofreram desaparecimento forçados, tenham seu também, seu esquecimento forçado.

A própria permanência dos militares nas estruturas políticas do Brasil e em posições privilegiadas, acaba por deteriorar a visão dos familiares das vítimas, deteriora a própria história daquelas pessoas e dos grupos de defesa de Direitos Humanos. Vemos, como exem- plo, a permanência de executores e apoiadores daquele regime em bancadas congressistas como a dos militares, a dos empresários e a dos ruralistas. A bancada dos direitos humanos que poderia enfrentar essa política do silêncio que acomete a sociedade, atualmente, encon- tra-se minoritária no Congresso.

A política do silêncio, instituída pela Lei da Anistia e recepcionada pela democracia, atinge a própria elaboração do entendimento do passado, prejudicando, assim, a formação de referências nacionais com a sua história e entendimento plural. O privilégio de algumas vozes também altera os valores de uma sociedade e os produtos da vivência em comum, lesando a complexa experiência histórica que o passado possui (PADRÓS, 2001, p. 83). O

Brasil, somente em 2011, começou a ir contra o silêncio imposto, dando lugar e criando espaços para que a memória das vítimas pudessem ser valorizadas, fazendo com que sua própria história pudesse ser contada através da criação da Comissão Nacional da Verdade.