TERCEIRA PARTE: RIO DE JANEIRO
2. Aspectos Econômicos da Capitania do Rio de Janeiro
Segundo Maria Fernanda Bicalho, durante o século XVII o Rio de Janeiro se
afirmou como porto português no Atlântico sub-equatorial524; característica que foi
ampliada com a descoberta do ouro nas gerais, a partir da segunda metade do século XVII. Com isso, o Rio de Janeiro atraiu, sobre si, o interesse da Coroa portuguesa: “A descoberta do ouro nos sertões mineiros veio reforçar seu estatuto de praça comercial e marítima, conferindo-lhe maior importância e centralidade no interior da colônia e do próprio império colonial. Ao atrair o aparato administrativo, comercial fiscal e militar metropolitano para aquela região, a cidade do Rio de Janeiro se constituiria em alvo de frotas e expedições não apenas portuguesas, mas provenientes das demais potências européias, o que iria representar contínuas ameaças à sua integridade e conservação.”525 Ora, localizado numa região estratégica “no interior da principal rota de navegação das esquadras de guerra e de comércio das diferentes potências coloniais européias, seja a
caminho do Oriente, seja em direção ao Oceano Pacífico e às Índias de Castela”526 , e
porto de escoamento dos metais preciosos, a região do Rio de Janeiro foi palco de disputa entre várias coroas. Como São Paulo e São Luís, a sua produção açucareira era incipiente e, por isso, se encontrava à margem da economia açucareira colonial. Mas, como principal porto meridional da América Portuguesa, conseguiu atrair a atenção das autoridades coloniais. Era do Rio de Janeiro que se embarcava a cachaça e a farinha usadas no comércio de escravos em Angola.
522
Vivaldo Coaracy, op. cit., p. 08
523
Vivaldo Coaracy, op. cit., p. 09
524
Maria Fernanda Bicalho. A cidade do Rio de Janeiro e a Articulação da Região em torno do Atlântico-
Sul: Séculos XVII e XVIII. In: Revista de História Regional 3 (2): 7-36. Rio de Janeiro. 1998
525
Maria Fernanda Bicalho,. A cidade do Rio de Janeiro e a Articulação da Região em torno do Atlântico- Sul: Séculos XVII e XVIII. In: Revista de História Regional 3 (2): 7-36. Rio de Janeiro. 1998
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A economia da capitania do Rio de Janeiro no século XVII estava ligada à função de porto comercial, aos engenhos de açúcar e ao “contrato das baleias”. “Era a indústria do azeite de baleia uma das mais prósperas e rendosas atividades exercidas no Rio de Janeiro.”527 Era um dos monopólios régios, onde a coroa cedia à arrematadores o direito da pesca e comercialização do azeite: “O contratador pagava ao fisco uma importância global, mediante a qual adquiria o direito exclusivo para exercer a referida indústria. O
contrato era concessão feita pelo provedor da Fazenda com representante do fisco.”528
Mas apesar disso, a capitania do Rio de Janeiro foi uma capitania de discreta projeção colonial quando comparada à Bahia e Pernambuco.
Como já nos referimos acima, embora tivesse uma posição periférica em relação ao comércio colonial, a cidade do Rio de Janeiro, segundo Maria Fernanda Bicalho, esteve ligada às principais rotas comerciais da colônia, e ao comércio, tanto de escravos na África, quanto ao comércio com a colônia espanhola no sul do continente: “Embora secundária na produção açucareira da América portuguesa, e marginal às principais rotas de comercialização deste produto no Atlântico, a posição meridional da capitania do Rio de Janeiro lhe conferiu, durante todo o século XVII, condições excepcionais de trânsito entre as possessões espanholas do estuário do Prata e os enclaves negreiros na África. Durante a União Ibérica, e mesmo antes, por força do direito do asiento, os portugueses foram pródigos em furar o bloqueio metropolitano que impedia o comércio entre as diferentes possessões coloniais lusas e hispânicas. Os comerciantes luso-fluminenses, participando ativamente do tráfico negreiro, tinham acesso privilegiado aos portos da região platina, conseguindo desta foram abocanhar algum quinhão das riquezas de Potosí. Por outro lado, o exercício do mesmo tráfico lhes permitia reter partes das rendas coloniais destinadas à metrópole, fazendo surgir, segundo Luiz Felipe de Alencastro, o triângulo negreiro Luanda-Rio de Janeiro- Buenos Aires, fator constitutivo da autonomia
econômica da América portuguesa.”529
Essa “rota para o sul” foi primordial em dois momentos muito importantes, ligados às capitanias do sul da América Portuguesa. O primeiro, foi quando da investida de portugueses, paulistas e fluminenses às reduções guaraníticas, em busca da mão-de- obra indígena, levando à destruição total das aldeias do Guairá. O segundo momento foi
527
Vivaldo Coaray, op. cit., p. 186
528
Idem
529
Maria Fernanda Bicalho, op. cit., p. 179
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A esse respeito veja também:
de Luis Felipe de Alencastro. Oquando da criação da Colônia de Sacramento em 22 de janeiro de 1680, que visava conquistar e colonizar terras no sul da América, garantindo a posse do território à Coroa portuguesa, descobrir minas de metais preciosos e conseguir o controle dos índios guaranis que estavam sob o domínio dos jesuítas espanhóis. A manutenção dessa “aventura” no sul do continente recaiu sobre as capitanias de São Paulo e Rio de Janeiro, o que sobrecarregou de impostos os seus moradores, criando revoltas e motins: “... Os custos de sua sustentação e defesa recairiam pesadamente sobre a população do Rio de Janeiro. A responsabilidade de enviar tropas, munições e mantimentos para o Sul abriu ainda mais um canal de drenagem de homens e recursos da capitania, agravando sensivelmente as já precárias condições militares e econômicas de seus moradores. Apesar desses conflitos, e coroada por aquela fundação, afirmara-se progressivamente ao longo do século XVII – e a partir dos interesses econômicos e políticos sediados na cidade do Rio de Janeiro – a supremacia do seu porto no interior da região Centro-Sul da América, e em toda a extensão do Atlântico subequatorial, traduzindo assim, a inequívoca vocação atlântica dessa cidade.”530 Essa situação só contribuiu para aumentar o clima de tensão e de “pobreza” que sempre acompanhou as capitanias de São Paulo e Rio de Janeiro.531
Assim, como já observamos ao analisarmos a documentação colonial para São
Paulo e Maranhão, a alegada “pobreza” marcará todo o século XVII no Rio de Janeiro.532
Também, o tema “minas e ouro”, bem como “defesa”, serão os motes do século XVII. Como exemplo da “pobreza” no Rio de Janeiro, temos a carta enviada à Corte por Salvador de Sá em 1640, onde o governador relatou a falta de mantimentos e a pobreza da capitania. E, um ano antes, a Coroa já se preocupava com o abastecimento da infantaria do Rio de Janeiro, que se dirigia à guerra na Bahia.533
530
idem, p. 180
531
Ainda com relação ao porto natural da cidade do Rio de Janeiro e as rotas de comércio colonial, cabe aqui uma colocação. Com a descoberta do ouro nas Gerais, o Rio de Janeiro no século XVIII iria experimentar um grande desenvolvimento e aumento das atividades comerciais e portuárias.
532
Requerimento de Salvador Côrrea de Sá e Benevides , Capitão-mor e Governador do Rio de Janeiro, na qual pede autorização para um navio transportar da Bahia para o Rio de Janeiro um carregamento de sal, de que havia grande necessidade naquela praça. – 1640 – AHU – Caixa 02 -doc. 191 E, “(...) o século XVII
foi um período marcado por uma profunda estabilidade econômica no que se referia às capitanias do Sul. Um leitura mesmo que superficial da correspondência entre a câmara ou as autoridades régias na colônia e os ministros e conselheiros ultramarinos na metrópole torna flagrante a situação de escassez e penúria vivida pela cidade ao longo dos Seiscentos.” Maria Fernanda Bicalho, op. cit., p.178
533
Carta dirigida ao Governador do Rio de Janeiro Salvador Côrrea de Sá, acerca do abastecimento de mantimentos necessários para a infantaria que ia de socorro ao Brasil –-Lisboa, 08 de abril de 1639 – AHU
A empreitada colonial foi montada com o intuito de se conseguir os maiores lucros possíveis, a custos baixos. Dentre as características do Mercantilismo, que norteava economicamente a política colonial do Antigo Sistema Colonial, o metalismo era uma das características mais importante. A necessidade imperiosa de acumular metais preciosos, levou os portugueses à desbravar o interior da América Portuguesa em busca de ouro e prata. Afinal, se a América Espanhola já havia descoberto seu filão de ouro, por que na América Portuguesa não se acharia o mesmo?
Além da função de defesa do território e de porto natural, o Rio de Janeiro, assim como São Paulo, no mesmo período, esteve envolvido nas descobertas das minas. Segundo Vivaldo Coaracy, Salvador de Sá foi nomeado administrador das minas nas capitanias de São Vicente, Rio de Janeiro e Espírito Santo: “O regimento que lhe foi expedido determinava que em tudo o tocante às minas e às diligências que sobre as mesmas se houvessem de fazer ficaria Salvador de Sá isento da jurisdição do
Governador-Geral do Brasil.”534 E para essa empreitada, assim como acontece em São
Paulo, a figura do índio, quer fosse como guia, como transportador ou soldado, era de vital importância. Embora houvesse um comércio de escravos africanos vindos de Angola, mas que na sua maioria se dirigia às capitanias do norte e não do Rio de Janeiro, o índio ainda era a mão-de-obra preferencial para se trabalhar nos engenhos da região.