O processo de internacionalização das empresas brasileiras é analisado a partir de fases relacionadas a aspectos econômicos que, de alguma maneira, influenciaram as trajetórias de internacionalização adotadas pelas empresas. Conforme analisado anteriormente, ROCHA et al, (2007) e FLEURY e FLEURY (2007) consideram a adoção de estratégias de internacionalização por parte de empresas brasileiras como um processo tardio e limitado, principalmente quando comparadas com outras de países emergentes. Essa afirmação tem como base, inicialmente, a verificação de que a maioria das empresas brasileiras formalizaram investimentos diretos no exterior mais intensamente a partir de 90.
Os primeiros anos da década de 80, marcados por forte instabilidade econômica, prejudicaram o processo de internacionalização de empresas brasileiras, principalmente a realização de IDE. O período foi marcado por crises no balanço de pagamentos, altas taxas de inflação e de juros, e apreciação da taxa de câmbio, principalmente. A partir da década de 90, foram implantadas reformas que contribuíram para o fortalecimento da liberalização econômica, principalmente ligadas à remoção de barreiras institucionais para o comércio.
Como forma de sobrevivência em um ambiente marcado pela competição acirrada, as empresas passaram a considerar a internacionalização de suas atividades (ROCHA, et al, 2007; COUTINHO et al, 2008; IGLESIAS e MOTTA VEIGA, 2002).
Este longo período apresentou desde elevadas taxas de inflação com indexação financeira generalizada e crises cambiais durante a década de 80 até períodos de estabilização precária com âncora cambial, elevadas taxas de juros e alta vulnerabilidade externa durante a segunda metade dos anos 90 (COUTINHO et al 2008).
As empresas brasileiras que se internacionalizaram nas décadas de 80 e 90 reconheciam o processo como uma forma de manutenção de suas posições competitivas já alcançadas no mercado doméstico bem como um meio de conquistar novos mercados no exterior. Portanto, na sua maioria, eram empresas que haviam atuado apenas no mercado nacional por um certo período.
As empresas estudadas foram fundadas entre as décadas de 80 e 90: a Lupatech em 1980, a Opto Eletrônica em 1986 e a Bematech em 1990. Esse é um aspecto que as diferencia da maioria das empresas brasileiras que, de acordo com a literatura, foram fundadas anteriormente e já tinham suas posições competitivas conquistadas no mercado interno quando iniciaram o processo de internacionalização.
Com relação à Opto Eletrônica, fundada nos anos 80, as condições econômicas presentes nesta década prejudicaram inicialmente o desenvolvimento da empresa devido às restrições presentes para a importação e exportação de equipamentos resultantes de um cenário de economia fechada. Outro aspecto que prejudicou a empresa em sua fase inicial esteve relacionado com as dificuldades enfrentadas para regulação de alguns de seus produtos aos requerimentos da Anvisa.
Um dos aspectos que tem contribuído para o desenvolvimento da Opto está relacionado ao acesso a financiamentos via órgãos públicos. Inicialmente, a empresa pôde contar com uma linha de financiamentos da FINEP para a compra dos equipamentos mesmo em uma fase em que o mercado para seus produtos, baseados na tecnologia laser, ainda não estava desenvolvido no Brasil. Contudo, logo esse fato se tornou uma oportunidade para a Opto e possibilitou o desenvolvimento de sua primeira patente.
Como questões econômicas presentes e que afetam o desenvolvimento da empresa, destacam-se as dificuldades e a burocracia para exposição de seus produtos em feiras internacionais e os entraves para a solução de questões ligadas à assistência técnica.
Para a Bematech, empresa fundada em 1990, a abertura comercial contribuiu para o nascimento da empresa. Conforme afirmado anteriormente, nesta fase, muitas empresas multinacionais dedicadas ao setor de atuação da Bematech deixaram de produzir no Brasil, o que gerou oportunidades para a empresa. Adicionalmente, foi intensa a entrada de computadores importados, o que acabou gerando no país uma grande demanda por periféricos, inclusive impressoras.
O principal problema da empresa em sua fase inicial esteve relacionado à dificuldade em captar recursos para o financiamento das operações. Como solução, os fundadores aceitaram a entrada de seis novos sócios.
O investimento em automação comercial representou um novo caminho para a empresa, que passou também a produzir impressoras de cheques, teclados e telas, além das mini impressoras. Maior atenção foi dada ao desenvolvimento de canais de distribuição e a empresa buscou divulgar mais a marca Bematech, já que a maioria dos produtos considerava as marcas de empresas parceiras (NAKAGAWA, 2008, p.154).
Em 2001, outro fator positivo para o desenvolvimento da Bematech foi a implementação da Nova Lei de Informática. Os principais benefícios referem-se aos benefícios fiscais criados para a maioria dos produtos e serviços relacionados às atividades de informática desenvolvidos por empresas de capital nacional bem como os incentivos criados às pesquisas.
No ano de 2007, a Bematech abriu seu capital na Bolsa de Valores, o que favoreceu o desenvolvimento das estratégias de expansão internacional, através da criação de subsidiárias, e a continuidade do processo de aquisições de novas empresas no Brasil e no exterior.
Já a Lupatech, apesar de oficialmente fundada em 1993, teve origem a partir de duas empresas, a Microinox e a Valmicro, fundadas respectivamente nos anos de 1980 e 1984. O fundador da empresa, Nestor Perini, destacou em entrevista que os aspectos negativos da economia brasileira presentes na década de 80 tiveram pouco impacto no desenvolvimento da empresa, já que na fase de juros altos a empresa contou com capital próprio para o desenvolvimento de suas atividades.
Com relação à década de noventa, afirmou que o processo de abertura econômica contribuiu para o desenvolvimento da Lupatech, baseado em aquisições de empresas, e também para o fortalecimento das exportações. Após 26 anos de fundação, no ano de 2006, a Lupatech abriu seu capital na Bolsa de Valores, o que também beneficiou a continuidade do
processo de aquisições formalizados pela empresa, que passou a evitar as altas taxas de juros cobradas em empréstimos bancários.
Quanto à década de 90, os dirigentes das três empresas consideradas destacaram que as condições econômicas trazidas pela abertura comercial contribuíram para o desenvolvimento das empresas. Apenas para a Opto a dificuldade em importar equipamentos fundamentais para o processo de produção e as tarifas de importação praticadas no Brasil dificultaram o desenvolvimento inicial da empresa na década de 80. Para a Bematech, a dificuldade em captar recursos governamentais também foi considerada um entrave para o desenvolvimento inicial da empresa.