2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.3. Argumentação, Linguagem e Enunciação
2.3.3 Categorias Argumentativas
2.3.3.1. Aspectos Enunciativos
Na análise da argumentação, o foco nos aspectos enunciativos recai no que Liberali (2013, p. 57) nomeia de “contexto em que o evento é realizado”. Notadamente a autora acredita que este é caracterizado pela relação mútua entre o local, momento, veículo, participantes, objetivos e conteúdos a serem tratados. O
entrelaçamento dos elementos listados faz com que o ambiente de argumentação surja e, por conseguinte, a linguagem possa tomar forma como enunciados que se relacionam não somente a esse evento imediato, mas ao contexto sócio-histórico mais amplo.
Dentro desse contexto, Liberali (2013, p. 57) afirma que o foco se concentra nos seguintes elementos: “1)Local e momento de produção/ recepção/ circulação; 2)Papel dos Interlocutores (Enunciadores); 3)Objetivos da interação – Fim; 4)Objeto / conteúdo temático”. Para a compreensão mais apurada desses aspectos, devemos descrevê-los individualmente, contudo essas descrições necessitam ser compreendidas como uma escolha didática porque devemos ter a clareza de que os aspectos enunciativos, assim como toda a argumentação, ocorrem de maneira inter- relacionada e não individualizada.
O local e o tempo são compreendidos como situações complexas em que conflitos de opiniões e ideias acontecem. Conforme a autora ressalta, podem suscitar situações expressamente monologais ou dialogais de acordo com uma espécie de “contrato de participação, a partir do qual os enunciadores realizam suas atuações” (LIBERALI, 2013, p 57). Neste quadro, podemos relacionar estes aspectos enunciativos à percepção de outros autores, também inseridos na perspectiva sócio-histórica, apesar de distantes em relação aos seus momentos históricos, notadamente Engenström (1999) e Bakhtin e Volochinov (2006).
Conforme apontado anteriormente nesse capítulo, Engenström, ao comentar sobre os elementos da atividade social, na terceira geração da Teoria da Atividade define o que chama de regras (ver página 30 deste trabalho). De acordo com o autor a atividade é regida por regras que são diretamente relacionadas à divisão do trabalho a qual os sujeitos estão submetidos. Por sua vez, Bakhtin e Volochinov (2006) defendem a ideia de que a linguagem está intimamente ligada ao horizonte social e, por essa razão, o enunciado não pode ser compreendido ativamente se separado do seu contexto sócio-histórico.
Em vista das nossas escolhas teóricas, observamos que é relevante considerar quando tomamos o tempo e o local, como categorias de análise, não apenas o contexto imediato de produção/recepção/circulação do evento, mas como esse contexto se relaciona a questões histórico-sociais, perceptíveis pela inegável presença do discurso de outros – não necessariamente sujeitos da atividade – no
evento analisado, e com as regras estabelecidas pela própria Atividade Social, que apesar de única, baseia-se em outras Atividades similares que ocorreram anteriormente. No contexto da nossa pesquisa, por exemplo, analisamos uma minibanca, entendendo esse evento como uma Atividade Social, cujos elementos são únicos e não podem ser repetidos, no entanto se relacionam a outras minibancas que direcionam as regras ou o contrato de participação dos interlocutores. Além da relação que nossa Atividade mantém com outras semelhantes, ainda podemos verificar as relações que ela estabelece com os contextos de ensino na pós-graduação, da educação brasileira como um todo e também do que é diretamente relacionado à própria pesquisa discutida na minibanca.
Em meio ao espaço e tempo, encontramos também a questão dos papeis dos interlocutores na argumentação. Liberali (2013) aponta que os interlocutores podem ter basicamente dois papeis o de produtores-oradores e o de ouvintes-leitores. Sobre essa questão, devemos ratificar que os papeis podem se alternar a depender do contrato de participação estabelecido, o que é o caso dos dados desta pesquisa.
Como produtores-oradores, a pesquisadora aponta três possíveis posturas: · sujeitos argumentantes: são aqueles que “se posicionam em relação à
verdade de uma proposta existente” (LIBERALI, 2013, p. 58).
· agenciadores políticos: esses buscam uma conexão entre duas posições conflitantes.
· mestres de raciocínio: por sua vez, esses criam bases para que haja um entrelaçamento entre as ideias e fazem com que sejam criadas novas possibilidades.
Sobre os ouvintes-leitores, Liberali os define como:
participam da enunciação na condição de sujeitos capazes de reagir e de interagir diante das propostas e teses que lhe são apresentadas. As disposições em que se situam os ouvintes-leitores (pathos) são fundamentais no processo de construção discursiva e de elaboração e reorganização das ideias em contraste. (LIBERALI, 2013, p. 58)
Pelas palavras da autora, percebemos que os ouvintes-leitores não ocupam a posição de receptores passivos das ideias levantadas pelos produtores-oradores, mas como parte constituinte do discurso destes. Em vista do exposto, a autora coloca os ouvintes leitores como sujeito fundamental para a argumentação.
Seguindo essa linha de raciocínio, é essencial compreender que os produtores- oradores organizam sua argumentação também com base naqueles que ouvem ou leem o seu discurso.
Ainda no que concerne aos aspectos enunciativos, devemos nos concentrar nos objetivos dos interlocutores que podem ser distintos, ou seja, ao tomar a posição de produtores oradores, os sujeitos possuem objetivos ligados ao objeto central da Atividade Social, mas que devem variar conforme percebemos a maneira que os sujeitos apresentam, embasam e sintetizam as suas teses. Em relação aos objetivos, percebemos, ao apreciar os dados, que estes variam durante todo o discurso e os sujeitos não se detêm a um só no curso da argumentação.
Liberali apresenta uma lista de objetivos que os sujeitos podem apresentar ao argumentar, com base na sua intensa pesquisa bibliográfica. No entanto essa lista não nos serve como categorias hermeticamente fechadas e concluídas, mas como uma sugestão de objetivos que deve variar a depender dos dados analisados, das escolhas do sujeito e de questões influenciadas pela enunciação, coforme a questão do dialogismo inerente à linguagem. Portanto, observemos a lista proposta pela autora:
· “agradar e comover;
· provocar ou aumentar a adesão às teses que se apresentem; · suscitar comentário, discussão, argumentação;
· examinar criticamente a argumentação do outro;
· enriquecer a visão de mundo pela diversidade de confrontos; · colaborar para a construção do pluralismo;
· atingir a vontade, sentimento dos interlocutores; · mudar o pensamento do outro;
· dar forma a um multiplicidade de formas de pensar e não simplesmente escolher a melhor alternativa;
· estabelecer diálogo na busca do verossímil;
· levar ao posicionamento diante de situações de conflito, à tomada de medidas e à busca de soluções;
· fazer compartilhar uma opinião (que pode ter como consequência uma ação);
· intensificar o pensamento por meio da compreensão de rede e multiplicidade;
· produzir conhecimento; e
· compreender e experimentar diferentes possibilidades.” (LIBERALI, 2013, p. 64-65)
Para ilustrar os aspectos enunciativos a serem tratados na análise da argumentação, Liberali apresenta o seguinte quadro, que sintetiza as características enunciativas dentro do contexto de suas categorias:
Quadro 3: resumo dos aspectos enunciativos Lugar/ momento físico e social
de produção/ recepção/circulação · contrato de participação (explícito / implícito); · discurso monológico X dialógico.
Objetivos da interação – Fim
· agradar e comover / atingir a vontade, sentimento dos interlocutores;
· examinar criticamente / enriquecer a visão de mundo pela diversidade de confrontos / comentário, discussão, argumentação;
· colaborar para a construção do pluralismo X provocar ou aumentar a adesão às teses que se apresentem; · estabelecer diálogo / posicionamento à
tomada de medidas / busca de soluções; · fazer compartilhar uma opinião àação; · reconhecer os próprios erros e
reconhecer a verdade alheia X mudar o pensamento do outro;
· produzir conhecimento / diferentes possibilidades / multiplicidade.
Objeto / conteúdo temático Tensividade retórica realizado por:
• feixe de possibilidades • conflitos conceituais • choques semânticos
• diferentes proposições de mundo/ proposta sobre o mundo
Papel dos Interlocutores
(Enunciadores)
Disposições em que se situam os interlocutores:
• Membros com experiências multiculturais consideradas relevantes
• Membros de comunidades
argumentativas
• Outro como capaz de reagir e de interagir diante das propostas e teses que lhe são apresentadas • Outro como coautor
Ainda devemos ressaltar que o quadro acima apresenta as categorias que nos guiarão na observação dos dados, contudo é latente a necessidade de referenciar ao contexto socio-histórico-cultural mais amplo e não apenas ao imediato, assim como atrelar os elementos supracitados aos conceitos de enunciado e enunciação trazidos por Bakhtin (2002).