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2 REVISÃO DA LITERATURA

2.3 Aspectos Formativos do Rugby

Desde seu surgimento, o rugby sempre foi cercado por certo romantismo, envolvendo lendas e histórias sobre conquistas alcançadas por praticantes do esporte. Façanhas como o ato de William Web Ellis, que correu com a bola nas mãos pela primeira vez na história no ano de 1823, possibilitando assim o surgimento de um novo esporte (GARCIA, 1964) ou a vitória histórica da seleção de Gales, frente à quase invencível seleção da Nova Zelândia de 1905, que resultou em um laço de amizade muito forte entre jogadores galeses e neozelandeses (WILLIAMS, 1973) ou até mesmo o encontro entre França e Escócia, pós Primeira Guerra Mundial, onde os jogadores de ambos os times selaram a paz em um grande banquete, assim que finalizada a partida (GARCIA, 1964).

Também deve ser lembrada a história sobre o trágico acidente aéreo de uma equipe de rugby uruguaia, quando os valores e princípios derivados da prática desse esporte auxiliaram durante a luta pela sobrevivência (PARRADO e RAUSE, 2006).

Carlin (2009) relata ainda a história de Nelson Mandela, primeiro presidente negro da África do Sul, que se utilizou do rugby para unificar um país dividido entre negros e brancos.

Relatos como esses, que enfatizam o lado humano dos jogadores, treinadores ou simpatizantes do rugby, são muito comuns na literatura sobre esse esporte. Isso está relacionado ao que tem sido chamado de “espírito do rugby”.

Entretanto, para uma melhor compreensão do assunto, é necessário entender o mecanismo do jogo.

O rugby é um esporte com muito contato físico e à primeira vista até mesmo violento. Assim, existem muitas condições favoráveis para que um jogador se torne mal intencionado em suas atitudes. As regras do jogo permitem que um jogador utilize a força para sobrepor-se ao adversário. Durante uma partida, ocorrem inúmeras situações onde uma simples atitude desleal por parte de um jogador pode trazer graves riscos à saúde de outro. Em razão dessas características, o Rugby exige de seus jogadores, certo “código moral” para que a

atividade aconteça de forma a oferecer experiências formativas aos que se envolvem com essa atividade. O chamado “espírito do Rugby” deriva da exigência de virtudes morais como condição básica para o envolvimento com essa modalidade esportiva.

Em virtude do risco associado ao esporte, a IRB (International Rugby Board) oferece recomendações presentes nas leis oficiais do jogo, que refletem a responsabilidade de um jogador com relação à própria segurança e ao próximo, afirmando que:

O rugby é um esporte que implica contato físico.

Qualquer esporte que implique contato físico possui perigos implícitos. É muito importante que os jogadores joguem a partida de acordo com as Leis do Jogo e estejam atentos a sua própria segurança e a dos outros. É responsabilidade daqueles que treinam ou ensinem o jogo assegurar que os jogadores estejam preparados de modo que seja garantido o cumprimento das Leis de Jogo e de acordo a práticas seguras. (LEYES DEL JUEGO DE RUGBY, 2004, p.4, tradução nossa).

Uma atitude indispensável a um jogador de rugby, em virtude das leis definidas para o mesmo, é o sentido de cooperação. Uma das principais regras do esporte é a proibição de que a bola seja passada ou jogada para frente, o que praticamente impõe como característica desse jogo a cooperação entre os jogadores, ou “jogo coletivo”, o “apoio” entre jogadores de mesmo time para que a equipe marque pontos.

Por exemplo, em uma partida de futebol, um jogador mais habilidoso consegue tranquilamente percorrer todo o campo de jogo através de dribles e utilizando a velocidade para marcar pontos. No rugby isso é algo muito difícil de conseguir sem a ajuda dos companheiros, sem a cooperação mútua.

Outra regra que “impõe” o “jogo coletivo” aos jogadores de Rugby está relacionada a duas posições específicas dentro do jogo. As primeiras e segundas linhas do “scrum” são formadas por cinco jogadores, normalmente mais fortes e pesados que os demais jogadores do time. Esses jogadores raramente recebem a

bola, porém são jogadores que possuem a função de garantir, através da força e do jogo coletivo, a posse de bola e a continuidade de jogo. Ou seja, são jogadores que se dedicam e “batalham” o tempo todo, com o objetivo de oferecer um bem comum ao time. Assim, é possível notar mais um grande valor ensinado no rugby:

a solidariedade.

Outra característica com forte potencial formativo do Rugby é a inclusão. O rugby é um jogo coletivo que exige que os jogadores partilhem entre si diferentes papeis ou funções estratégicas/ táticas, que por sua vez exigem competências físicas, motoras, cognitivas e psicológicas distintas. Cada uma das posições que compõem um time possuem particularidades e necessitam um biótipo específico de jogador.

Na modalidade “rugby union”, foco desse estudo, o time é composto por quinze jogadores, sendo oito “forwards” e sete “backs”, também conhecidos como três quartos ou jogadores de linha. Resumidamente, os forwards são responsáveis pela formação do scrum, uma espécie de disputa pela posse de bola, que ocorre após alguma infração menos grave durante a partida, enquanto os backs são os jogadores mais rápidos e responsáveis pela criação das jogadas que possibilitam o avanço e conquista territorial.

Entre os forwards estão os jogadores da primeira, segunda e terceira linha.

A primeira linha é formada por três jogadores, sendo dois “pilares” e um

“hoocker”. Os pilares precisam ser jogadores muito fortes e pesados, pois serão responsáveis pelo primeiro contato com o adversário e pela sustentação durante a formação do “scrum”. Já o hoocker, apesar de ser também forte e pesado, em geral possui menor estatura e é mais leve do que os pilares, porém possui boa habilidade para lançar a bola durante as formações de lateral.

A segunda linha é composta por dois jogadores, normalmente os mais altos do time. Ambos necessitam ser fortes, pois auxiliam a primeira linha na conquista da posse de bola e sustentação do scrum e também precisam possuir boa capacidade para saltar, já que normalmente são os responsáveis pela conquista da bola nas formações de lateral.

A terceira linha possui três jogadores, sendo dois “asas” e um “oitavo”.

Essas posições exigem jogadores muito atléticos, com boa capacidade aeróbia, fortes e velozes. São os jogadores responsáveis pela continuidade da equipe, devem auxiliar na obtenção e manutenção de posse de bola, são muito importantes na defesa, mas também participam muitas vezes como opção para o ataque.

Já entre os backs, encontramos jogadores em geral mais velozes, com boa capacidade estratégica, pois são os responsáveis pelas jogadas de finalização e pela criação de jogadas que provoquem desequilíbrio defensivo e numérico na equipe adversária.

O “half-scrum” é o responsável pela ligação entre forwards e backs. É ele que introduz a bola na disputa do scrum e auxilia o “abertura” na organização do time e na criação das jogadas de ataque. Essa posição requer um jogador com boa capacidade de liderança e comunicação. Fisicamente, esses jogadores não necessitam ser fortes e pesados como os forwards, porém é necessário ser muito ágil e habilidoso. É comum encontrar jogadores dessa posição com baixa estatura, característica que auxilia em determinadas situações do jogo.

O abertura exerce função semelhante ao “meia” no futebol ou ao “armador”

no basquete. São jogadores que organizam a equipe e são responsáveis pela criação das jogadas de ataque. Um bom abertura deve possuir excelente leitura de jogo e tomada de decisão rápida, além de grande capacidade técnica para as habilidades específicas do jogo.

Os centros possuem funções e características semelhantes aos jogadores de terceira linha, já citados anteriormente. Em ataque são responsáveis por auxiliar na criação das jogadas, pelo avanço e conquista territorial e pela manutenção de posse de bola e continuidade da equipe. Em defesa devem auxiliar na contenção do avanço adversário e para isso devem possuir boa capacidade técnica defensiva. Fisicamente são jogadores fortes e velozes.

Os pontas são os jogadores mais rápidos da equipe, eles são os principais finalizadores em ataque e compõem a última linha defensiva, juntamente com o fullback. Devem possuir excelente técnica de corrida, agilidade, além de serem habilidosos na recepção de bolas e nos chutes.

Já o fullback exerce função parecida aos pontas, porém possui maior responsabilidade em situações de chute e contra-ataques. Em defesa é ainda responsável por auxiliar na organização da equipe, devido a seu posicionamento defensivo, que oferece visão privilegiada do campo de jogo. Essa posição requer boa leitura de jogo, capacidade de comunicação e liderança e no aspecto motor, excelente capacidade de chute e recepção.

Como ressaltado através da descrição de cada uma das posições dentro de um time, o rugby possui um grande caráter inclusivo, na medida em que necessita de jogadores com diferentes personalidades e características físicas para cumprir determinadas funções dentro de campo. O aspecto coletivo do jogo permite que cada um desses jogadores tenha grande importância dentro da equipe, ressaltando suas virtudes no cumprimento de uma função específica.

Outra peculiaridade com grande potencial formativo do Rugby, que não está explicitada nas suas regras formais, mas apresenta-se como ritualização do que chamamos anteriormente “espírito do jogo” é o chamado “terceiro tempo”.

Esse ritual obrigatório é uma espécie de confraternização, onde todos os jogadores dos dois times jantam, cantam músicas e se divertem ao final da partida, em um ambiente de muito respeito e companheirismo. Pelo código assumido entre as equipes, o time local deve oferecer o terceiro tempo ao time visitante, como forma de agradecimento à visita. A dimensão do terceiro tempo dentro do rugby pode ser sentida no exemplo da partida histórica entre França e Escócia, citada anteriormente.

Toda essa dimensão ética e moral associada a esse jogo foi recentemente sintetizada e explicitada em um documento da Rugby Football Union (RFU) da Inglaterra. Nesse documento, a entidade procurou sistematizar de maneira resumida e simples, o “espírito do Rugby” num Código, onde destacam os valores que devem ser seguidos pelos praticantes do esporte no ambiente britânico, como pode ser observado a seguir:

Código do rugby

Espera-se que qualquer pessoa envolvida no rugby na Inglaterra, seja como jogador, treinador, árbitro, dirigente, pai ou espectador, apóie os valores nucleares do nosso esporte:

Espírito de equipe, respeito, divertimento, disciplina, esportividade. Jogar para ganhar – mas não a qualquer preço. Ganhar com dignidade, perder com elegância.

Cumprir as Leis e regulamentos do jogo. Respeitar adversários, árbitros e todos os participantes. Rejeitar batota, racismo, violência e drogas. Valorizar voluntários bem como os agentes profissionais. Divertir-se com o jogo.

Isto é rugby. (RFU, 2010, tradução nossa).

Pelo exposto até aqui, pode-se inferir que desde a sua criação o rugby foi utilizado como um esporte construtor de caráter, onde os aspectos formativos e educativos são mais valorizados do que a competição em si. Aliás, pode-se dizer que para alguns adeptos dessa modalidade a competição é o meio necessário para que as possibilidades formativas descritas acima surjam.

O rugby também pode ser visto como uma experiência inclusiva, acolhendo na sua prática uma diversidade de perfis físicos, motores, cognitivos e psicológicos.

Um jogo que apesar de sua esportivização foi capaz de preservar na sua prática, nas suas regras e na sua cultura, a sua potencialidade para formação ética e moral dos seus jogadores. Um esporte que auxilia no desenvolvimento das capacidades físicas e cognitivas, em virtude da complexidade das regras e da necessidade de utilização de amplo repertório motor.

Assim, o rugby oferece ao profissional de educação física ferramentas importantíssimas para a formação e desenvolvimento de indivíduos, seja com relação a aspectos motores, cognitivos ou afetivo-sociais.

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