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Capítulo 4 – O Centro de Convivência de Afásicos (CCA)

4.7. Aspectos funcionais da repetição

Quando se busca fazer um levantamento das funções da repetição, segundo Koch (1994: 155), precisamos ter em mente que este mecanismo apresenta múltiplas funções potenciais e que tais funções não são excludentes, de modo que a classificação a que se chega é feita em termos de predominância relativa a uma das propriedades ou ao grau mais elevado. Marcuschi (1992) apresenta uma tipologia de funções baseada em fatores textuais (funções constitutivas do texto) e discursivos (funções de caráter pragmático e interacional). Nas funções textuais, a R pode realizar funções de coesão (referencial e sequencial); de formulação (Correção, Expansão e Hesitação); de compreensão

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Quanto ao processo de coesão referencial, dois elementos se repetem referencialmente quando têm o mesmo referente, seja este um objeto, um indivíduo, um fato ou um conteúdo proposicional. A R com função coesiva referencial opera no sentido de confirmação do referente.

A coesão sequencial diz respeito a uma relação textual em que o aspecto referencial é pressuposto e, portanto, não há necessidade de ser focalizado. A sequenciação é estabelecida pela conjetura de preservação dos referentes; pela manutenção do mesmo nível informacional e comunicativo quanto à cadeia tópica; pela produção de conectividade com base em relações lógicas; pela preservação da prosódia como identificadora e delimitadora de unidades. Assim, pode-se dizer que a coesão é uma condição para a assunção da coerência, desde que estejam interagindo colaborativamente (Marcuschi 2006: 17).

A função de formulação está relacionada às estratégias utilizadas pelo falante para dar suas contribuições. Uma das maneiras de formular é reformular, como, por exemplo, no caso das correções e das reconstruções (Marcuschi 1996).

A correção é um procedimento que na maioria das vezes acarreta uma repetição do mesmo segmento com alguma modificação. De acordo com Tannen (1987a: 622), o sentimento de familiaridade é um dos efeitos de conversações ricas em correção. Corrigir é fazer passar, entre outras, uma ―metamensagem de envolvimento pessoal‖. Para Marcuschi (1986), a correção funciona como um processo de edição conversacional que contribui para organizar a conversação localmente.

A expansão dá-se entre segmentos repetidos contiguamente duas ou mais vezes, até que o evento o comunicativo seja concluído, ocorre, na maioria das vezes, como autorrepetição:

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A modalidade de expansão mais frequente é representada pelas diversas formas de explicitação. Esse predomínio é devido ao fato de ser ela a que permite – de forma mais direta – a criação de um espaço comum partilhado pelos interlocutores. Usando-se uma imagem concreta, pode-se admitir que a explicitação corresponde ao desembrulhar de um pacote, e isso permite colocar em evidência as características de um ser, os desdobramentos de um conceito ou as particularidades de um fato. Essa evidenciação ilumina o tópico e permite inseri-lo no conhecimento prévio de cada interlocutor e no contexto partilhado que se cria no momento da interação verbal. (Galembeck 2013: 99)

A função de hesitação dá-se quando o sujeito repete seguidas vezes o mesmo evento comunicativo seja para ganhar tempo, seja pela dificuldade de encontrar a palavra certa, seja pelo problema patológico, o que, de acordo com Marcuschi (1999: 163), ―são estratégias adotadas pelos falantes para resolverem os problemas que surgem devido ao processamento on line de formas e conteúdos‖. Isso não quer dizer que a hesitação seja uma característica deste ou daquele falante, mas sim um fenômeno característico do processamento textual.

De acordo com (Marcuschi 1992: 129), a função de compreensão está ligada ―à facilitação da tarefa do ouvinte na compreensão‖. Uma das marcas do processo de compreensão é a intensificação, que se enquadra nos quesitos de contiguidade/proximidade, da identidade referencial e da autorrepetição. Já a compreensão por reforço busca melhorar, reforçar o que foi dito, opera como um marcador de saliência sem trazer ideias novas, visando melhorar a compreensão do que foi dito. No que se refere à repetição por esclarecimento, esta serve como comentários ou metacomentários. Para Tannen (1989: 35), há uma maior explicitude no que foi dito.

Quanto à função de argumentação, de presença constante na fala, de acordo com Marcuschi (1992: 145), tem afinidades com as outras, mas apresenta características próprias. Seu traço fundamental é produzir uma repetição que funciona como matriz e opera como uma assertiva no processo de argumentação em andamento. A função de argumentação manifesta-se em três funções: reafirmação, contraste e contestação.

A função de reafirmação pode ocorrer mais de uma vez nas interações em que ela aparece. É comum que um interactante se autorrepita várias vezes e só pare quando obtiver uma heterorrepetição por parte do interlocutor, confirmando seu argumento.

82 Repetição por contraste opera com a argumentação em favor de uma oposição entre assertivas calcadas na mesma estrutura. Uma das categorias da argumentação por contraste é a transformação de uma assertiva em uma indagativa e vice-versa.

Outra função é a repetição por contestação, que serve para o interlocutor declarar sua discordância, contradizendo seu interlocutor e quase sempre acontece como uma heterorrepetição, embora não se excluam alguns casos com autorrepetição.

A função por interação, para Marcuschi (1992: 152), é responsável pelo envolvimento na interação, diz respeito a repetições que servem tanto à produção quanto à compreensão, manifestando-se, preferencialmente, com a função de incorporação e responsividade.

A repetição com a função de incorporação opera quando a matriz proposta por um interlocutor for aprovada e incorporada na fala do outro, caracterizando-se como a realização de uma heterorrepetição. Um momento propício para o surgimento da repetição por incorporação é a hesitação. A ausência da incorporação pode ser um indício de distanciamento entre os falantes ou de caracterização por formalidade.

A repetição responsiva é definida a partir das reflexões de Norrick (1987: 225), relatando pares adjacentes, ou seja, pergunta-resposta, que são norteadoras das heterorrepetições. Estas repetições costumam acontecer em situação de interação em que há retomadas parciais ou totais de pergunta na resposta, quando o falante pergunta, e o interlocutor responde (cf. Quadro IV).

83 Quadro IV – Aspectos funcionais da repetição

Processo

Função

Coesão Sequenciação Referenciação Formulação Correção Expansão Hesitação Compreensão Intensificação Reforço Esclarecimento Argumentação Reafirmação Contraste Contestação Interação Incorporação Responsividade

Na conjuntura dessas ponderações, procuraremos destacar aqui o ponto de vista que privilegia as formas e funções da repetição enquanto organizadora do tópico em contextos textuais interativos. A seguir, serão expostos alguns recortes dos dados para melhor exemplificar este estudo no contexto das afasias, conferindo assim um contorno explicativo para o fenômeno da repetição na linguagem de afásicos.

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