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4 A CERTIFICAÇÃO DE TROPAS DO EXÉRCITO BRASILEIRO

4.1 Aspectos gerais da Doutrina Militar de Defesa e

A partir da participação do Brasil junto aos aliados na IIGM, a Doutrina Militar brasileira passou a ter como importante fonte referência a Doutrina Militar norte- americana, seja pelas experiências colhidas no campo de batalha atuando com o V Exército dos EUA, seja por se tratar de um dos principais parceiros estratégicos do país e da maior potência militar do planeta, dotada de renomada experiência em conflitos. Visacro (2019), completa com a seguinte afirmação em relação a influência da doutrina americana para o Exército Brasileiro:

Com o desenrolar da guerra na Europa e o engajamento dos EUA na defesa do Hemisfério Ocidental, o Brasil foi atraído para a órbita de influência norte- americana. A partir da criação da 1 Divisão de Infantaria Expedicionária, em 1943, a doutrina vigente no Exército dos EUA tornou-se o principal referencial teórico para os soldados brasileiros. É digno de nota que, dentre todas as nações do globo — incluindo os tradicionais aliados dos EUA, como Inglaterra, França, Canadá e Austrália — o Brasil tenha o maior número de oficiais estrangeiros diplomados pela Escola de Comando e Estado-Maior, sediada em Forte Leavenworth. Ao todo, 315 alunos brasileiros graduaram- se naquele estabelecimento de ensino entre os anos de 1943 e 2018.

Desde então, o poder militar brasileiro tem envidado esforços em aperfeiçoar a sua própria doutrina, buscando alinhar as referências das principais potências militares do mundo com as realidades e peculiaridades inerentes ao contexto estratégico do país.

Em 1946, o Estado-Maior Geral, posteriormente denominado Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), foi a primeira organização militar brasileira criada com a atribuição de desenvolver a unidade doutrinária das três FA, dentre outras tarefas. Somente em 1999, com a criação do Ministério da Defesa (MD) e com a consequente extinção do EMFA, o Brasil passou a aprimorar efetivamente o processo de integração das políticas, estratégias e concepções doutrinárias nas áreas de segurança e defesa. Todavia, somente em 2001 veio a surgir a primeira versão da Doutrina Militar de Defesa/DMD (BRASIL, 2007).

A DMD subsidia os preceitos doutrinários brasileiros relacionados ao emprego das FA na defesa da Pátria e nas demais missões previstas na Constituição Federal, nas leis complementares e em outros diplomas legais. Esse documento tem por

finalidade adicional proporcionar entendimentos comuns entre as FA para um eficaz emprego conjunto.

A PND e a END estão entre os documentos que orientam a elaboração da DMD. Nesse sentido, dentre os oito Objetivos Nacionais de Defesa (OND), fixados pela PND, podem ser destacados os seguintes que corroboram para elucidar o presente estudo:

[...]

II. Assegurar a capacidade de Defesa, para o cumprimento das missões constitucionais das Forças Armadas.

Refere-se a proporcionar às Forças Armadas as capacidades necessárias para realizar a vigilância, o controle e a defesa do território, das águas jurisdicionais e dos espaços aéreo e exterior brasileiros e prover a segurança das linhas de comunicação marítimas de interesse, por meio da dotação do setor de defesa de recursos orçamentários condizentes com a estatura político-estratégica do Brasil, com a devida regularidade e continuidade, e com o suporte das infraestruturas críticas, tais como transporte, energia e comunicação, entre outros. Leva em conta a necessidade de contínuo aperfeiçoamento das técnicas e da doutrina de emprego das Forças, de forma singular e conjunta, com foco na interoperabilidade; o adequado aparelhamento das Forças Armadas, empregando-se tecnologias modernas e equipamentos eficientes e em quantidade compatível com a magnitude das atribuições cometidas; e a dotação de recursos humanos adequados às peculiaridades da profissão militar, permanentemente qualificados, preparados e motivados.

[...]

VII. Contribuir para a estabilidade regional e para a paz e a segurança internacionais.

Refere-se à participação do Brasil nos mecanismos de resolução de controvérsias no âmbito dos organismos internacionais, complementada pelas relações com toda a comunidade mundial, na busca de confiança mútua, pela colaboração nos interesses comuns e pela cooperação em assuntos de Segurança e Defesa.

VIII. Incrementar a projeção do Brasil no concerto das Nações e sua inserção em processos decisórios internacionais.

Caracteriza-se pelas ações no sentido de incrementar a participação do Brasil em organismos e fóruns internacionais, em operações internacionais e na cooperação com outros países, visando auferir maior influência nas decisões em questões globais (BRASIL, 2020, grifo nosso).

A END, por sua vez, orienta as medidas que devem ser implementadas para que os OND sejam alcançados, pela elaboração de Estratégias de Defesa (ED) e Ações Estratégicas de Defesa (AED), alinhadas com cada um dos objetivos estipulados. Esse dispositivo também estabelece que as três FA, adicionalmente às suas atribuições constitucionais, deverão ter condições de atuar, de forma singular ou conjunta, em operações internacionais, quer de caráter expedicionário, de operações

de paz ou de ajuda humanitária, para atender a compromissos assumidos pelo País ou para salvaguardar os interesses brasileiros no exterior e, dessa forma, contribuir com os objetivos da política externa exercida pelo Brasil (BRASIL, 2020).

A tabela abaixo apresenta uma amostra do alinhamento dos OND, ED e AED que podem ser relacionados com a participação de tropas do EB em operações militares junto ao Exército dos EUA:

Tabela 3 - Amostra de Estratégias e Ações Estratégicas de Defesa relacionadas ao tema em estudo

Fonte: Adaptado (BRASIL, 2020).

Da leitura da END fica evidenciada a necessidade das FA brasileiras de incrementarem “capacidades” para o cumprimento de suas diversas missões, bem como a de “atuarem no ambiente conjunto”.

De acordo com a terminologia da DMD, entende-se que a “Capacidade Militar” é obtida mediante a combinação de soluções organizacionais que integram as áreas de Doutrina, Organização, Adestramento, Material, Liderança, Educação, Pessoal e Infraestrutura, resumida pelo acrônimo “DOAMEPI” (BRASIL, 2015).

Por outro lado, para que ocorra a atuação conjunta entre as FA é necessário que se estabeleçam níveis adequados de “interoperabilidade”. De acordo com o Glossário de Termos das Forças Armadas (BRASIL, 2015) esse termo está

relacionado a: “capacidade de forças militares nacionais ou aliadas operarem, efetivamente, de acordo com a estrutura de comando estabelecida, na execução de uma missão de natureza estratégica ou tática, de combate ou logística, em adestramento ou instrução. O desenvolvimento da interoperabilidade busca otimizar o emprego dos recursos humanos e materiais, assim como aprimorar a doutrina de emprego das Forças Armadas. A consecução de um alto grau de interoperabilidade está ligada diretamente ao maior ou menor nível de padronização de doutrina, procedimentos, documentação e de material das Forças Armadas. São os seguintes níveis de padronização: compatibilidade, intercambialidade e comunialidade. 2. Capacidade dos sistemas, unidades ou forças de intercambiarem serviços ou informações ou aceitá-los de outros sistemas, unidades ou forças e, também, de empregar esses serviços ou informações, sem o comprometimento de suas funcionalidades”.

Entende-se que a atuação de tropas do EB em operações militares junto com o Exército dos EUA está intimamente condicionada ao conceito de interoperabilidade definido pela DMD, o qual é semelhante ao empregado na doutrina americana de operações conjuntas:

“1. a habilidade de atuar em conjunto de forma coerente, efetiva, e eficientemente para atingir objetivos táticos, operacionais e estratégicos; 2. a condição alcançada entre sistemas comunicações-eletrônicos e de ou itens de equipamentos comunicações-eletrônicos quando informações ou serviços podem ser trocados direta e satisfatoriamente entre eles e/ou seus usuários (CJCS, 2018, tradução nossa).

Dessa forma, o conceito americano infere que as forças em presença devam possuir capacidades operacionais e técnicas comuns, como também relacionadas a equipamentos eletrônicos e de comunicações, para atuarem em conjunto.

De acordo com a OTAN, aliança militar liderada pelos EUA, a qual conduz um processo de padronização doutrinária para o emprego de meios militares dos países participantes, o conceito de interoperabilidade é o mesmo dos EUA , onde se soma à capacidade das forças militares para treinar, exercitar e operar efetivamente juntos na execução de missões e tarefas atribuídas (NSO, 2019).

Segundo Santos (2009), ao analisar as questões afetas à interoperabilidade no âmbito da OTAN, foram definidos por aquela aliança militar quatro grandes objetivos/capacidades que servirão de guia para o desenvolvimento e a aplicação dos requisitos de interoperabilidade: (1) capacidade para comunicar; (2) capacidade para

operar; (3) capacidade para apoiar; e (4) treinar e realizar exercícios em conjunto. O autor ainda acrescenta que, treinar e realizar exercícios, não sendo propriamente um objetivo da interoperabilidade, consiste numa atividade essencial para o apoio aos restantes dos objetivos, tendo em vista que as capacidades para comunicar, operar e apoiar não funcionarão num ambiente conjunto e combinado se não forem praticadas e testadas durante o treino operacional e nos exercícios. O autor ainda prossegue apresentando a figura abaixo para descrever esquematicamente as áreas de requisitos visualizados pela política OTAN, atinentes aos objetivos/capacidades a serem atingidos por uma força para alcançar a interoperabilidade:

Figura 5 – Resumo esquemático da política da OTAN para a alcançar a interoperabilidade.

Fonte: Adaptado Santos (2009).

Nesse sentido, o caminho que o Brasil está seguindo ao buscar participar de exercícios militares com os EUA irá proporcionar um elevado grau de interação e maturação para o emprego de suas FA em operações conjuntas e combinadas, onde os requisitos supracitados deverão ser evidenciados. Cabe, portanto, apresentar na sequência deste capítulo aspectos da Doutrina Militar Terrestre (DMT) e de processos em andamento no âmbito do Exército Brasileiro que irão corroborar para o atingimento desses objetivos.

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