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Nas próximas seções deste capítulo, vamos analisar o livro “Causalidade e acaso na física moderna” de David Bohm. Essa análise será feita procurando evidências na materialidade textual da obra, seguindo a concepção de controvérsia interna à comunidade científica que derivamos da noção de controle social de Bachelard. Acreditamos que essa análise ajudará a entender melhor a controvérsia entre interpretações da TQ, especificamente, na textualização da controvérsia presente na obra dos cientistas. Permitindo um entendimento das marcas presentes na materialidade textual do livro que evidenciam algumas das características dessa controvérsia.

Particularmente, essa análise ajudará no maior entendimento do período de transformação do estatuto da controvérsia perante a comunidade científica, uma vez que este livro foi, originalmente, publicado em 1957. Desta forma, como não haviam revistas e congressos especializados na controvérsia nessa época, marcada pelo 2º período histórico (FREIRE JR, 2003), a escrita de livros era a forma mais natural que se tinha para circulação desta temática. Pois não havia ainda nesse período intermediário o espaço institucionalizado de fundamentos da física, ou, especificamente, fundamentos da TQ que viria ser formado apenas na década de 70.

Além disso, o livro permite uma descrição mais pormenorizada da interpretação da TQ de David Bohm, permitindo maior explanação e discussão de suas ideias, o que não foi possível na publicação de seus artigos. Conforme destaca Freire Jr (1999), esse livro teve forte influência da motivação de Bohm por questões filosóficas. Nesse sentido, a publicação desse livro possibilitou uma maior difusão de sua interpretação da TQ, a fim de explicar em maiores detalhes os aspectos filosóficos de sua interpretação.

Um importante aspecto desse livro de David Bohm, que veremos em maiores detalhes a seguir, é que, reiteradamente, a interpretação de Copenhagen aparece na materialidade da obra como “interpretação usual” da TQ. Marcando, desta forma, na própria textualização do livro a monocracia dessa interpretação, que embora tivesse sua monocracia abalada ainda era a interpretação usual no 2º período histórico de

controvérsia entre interpretações da TQ (FREIRE JR, 2003). Deste modo, o fato de haver essa “interpretação usual” da TQ coloca qualquer outra interpretação como alternativa, já que esta teoria possui uma interpretação usual. Porém, mesmo chamando a interpretação de Copenhagen de “interpretação usual”, Bohm faz renascer a controvérsia por colocar em polêmica esta interpretação e permitir interpretações alternativas que indicam um caminho de pesquisa alternativo.

Neste livro, Bohm defende filosoficamente sua interpretação da TQ, sem apresentar minuciosamente o seu formalismo matemático, procurando construir uma interpretação alternativa (e uma linha de pesquisa) à interpretação de Copenhagen. Isso é característico do formato da publicação ser livro, pois as únicas revistas especializadas em física na época tinham de ter uma explanação matemática e não permitiam discussões filosóficos em maiores detalhes. Assim, nos livros os cientistas podiam explanar de forma diferente dos artigos, permitindo abordagens filosóficas maiores do que as permitidas nos artigos. Nesse sentido, Bohm procura demonstrar ao leitor que uma interpretação alternativa seria capaz de reproduzir os mesmos resultados com uma visão filosófica diferente, gerando uma nova linha de pesquisa capaz de estudar os fenômenos quânticos sob outra perspectiva.

Assim, um dos papeis desta obra de David Bohm é divulgar a sua interpretação alternativa e convencer pesquisadores a seguir sua linha de pesquisa pelo argumento filosófico de que seus pressupostos são mais pertinentes do que aqueles da “interpretação usual”. O que influenciou na própria institucionalização da controvérsia, gerando, décadas mais tarde, uma revista especializada em fundamentos da física.

O livro “Causalidade e acaso na física moderna” de Bohm possui 5 capítulos, onde cada um deles possui, pelo menos, 9 seções. Cada capítulo tem uma certa autonomia, pois a discussão se detém num determinado ponto. No primeiro capítulo, chamado de “Causalidade e acaso na lei natural”, se discute as leis da natureza de maneira geral. No segundo capítulo, chamado de “Causalidade e acaso na física clássica: a filosofia do mecanicismo”, se discute as leis da física clássica, caracterizando que os físicos clássicos seguiam a filosofia do mecanicismo determinista, e apresentando, brevemente, que os físicos modernos (físicos do século XX) seguem uma nova filosofia mecanicista que não se enquadra mais no determinismo, mas num indeterminismo. De qualquer forma, ambas filosofias

defendem que o enquadramento da física segue “[...] um tipo fundamental, final e básico de lei puramente quantitativa [...]” (BOHM, 2015, p. 145). No terceiro capítulo, chamado de “Teoria quântica”, se discute a interpretação usual da teoria quântica com a colocação de um contraponto, e demonstrando no final que os físicos defensores desta interpretação seguem o ideal do mecanicismo indeterminista. No quarto capítulo, chamado de “Interpretações alternativas da teoria quântica”, como o próprio nome sugere se discute a interpretação alternativa de David Bohm. Por fim, no quinto capítulo, chamado de “Um conceito mais geral de lei natural”, se discute uma visão mais geral sobre o papel da ciência, defendendo que não se deve nunca aceitar as teorias como finais e absolutas, não estando sujeitas a correções e modificações.

Nossa análise irá se aprofundar no terceiro capítulo, entendendo como a interpretação alternativa de Bohm surge em controvérsia com a interpretação usual, seguindo as características de controvérsia que derivamos da noção de controle social de Bachelard. No entanto, discutiremos as demais partes do livro quando acharmos apropriado para um melhor entendimento. Destacamos que nossa análise não se dará apenas no capítulo 4, onde Bohm apresenta em maiores detalhes a sua interpretação alternativa da teoria quântica, porque nosso interesse não é adentrar nesta interpretação propriamente dita, mas entender como esta interpretação aparece dentro da controvérsia na materialidade textual do livro.

3.3 A INTERPRETAÇÃO ALTERNATIVA EM CONTROVÉRSIA COM A