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2.4 Das atitudes do réu

2.4.1 Da contestação

2.4.1.1 Aspectos gerais e objeto

A contestação é conceituada por Pontes de Miranda como “a contrapetição do réu: por ela, se defende, objetando”.63

Pode-se dizer que a contestação possuiria um caráter residual, uma vez que nela se concentrariam as razões de fato e de direito para resistência do réu que não demandem o uso de via específica para argüição.

Através da contestação opera-se, salvo nas ações consideradas dúplices e quando admitido o pedido contraposto, a ampliação da cognição do juízo, sem que ocorra, todavia, aumento do objeto litigioso.

Cândido Dinamarco destaca o caráter residual da contestação, ao afirmar que “o caráter bastante amplo que lhe dão os artigos 300 e 301 do Código de Processo Civil conduz a excluir de seu âmbito somente as defesas que não sejam reservadas aos incidentes da exceção, da nomeação à autoria, da impugnação ao valor da causa ou da argüição de falsidade”.64

63 Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda, Comentários ao Código de Processo Civil, 3. ed., Rio de Janeiro:

Forense, 2001, v. 4, p. 117.

64 Cândido Rangel Dinamarco, Instituições de direito processual civil, 4. ed., São Paulo: Malheiros, 2004, v.

Alude ainda o autor ao fato de existirem algumas áreas de superposição, sendo admissível a argüição em contestação de matérias alegáveis em outra espécie de resposta, sempre que a lei não venha a impor a exclusividade de vias especiais, dando, entre outros, como exemplo, a hipótese do impedimento do juiz e a falsidade documental.

Note-se que no caso das ações dúplices e do pedido contraposto, pela natureza do direito material ou por opção de política legislativa, conforme se verá, a par de outros motivos, a contestação pode excepcionalmente permitir ao réu formular pedido, o que seria típico da reconvenção, dedutível em peça autônoma, à luz do artigo 299 do Código de Processo Civil.

Como leciona Frederico Marques, o réu, como regra, pleiteia na contestação uma sentença de natureza declaratória negativa, no que tange à pretensão de direito material afirmada pelo autor, enfatizando:

“Sob o aspecto processual, a contestação é pedido de tutela jurisdicional de conteúdo declaratório-negativo, ou pedido de desvinculação do processo, ou de ambos simultaneamente. Na contestação o réu se defende: a) pedindo que se declare inadmissível a tutela jurisdicional impetrada pelo autor; b) pedindo que se declare improcedente a pretensão do autor. No primeiro caso, pleiteia o réu que se finde o processo sem sentença de mérito; e, no segundo caso, pede sentença declaratória negativa em seu favor. O réu pede ao juiz que mantenha o status quo anterior à propositura da ação, ou levantando preliminares para pôr termo ao processo ou impugnando a res in iudicium deducta, para que seu interesse continue intangível e superando o do autor. Com a contestação, não se amplia a res iudicanda, mas tão-só o campo da atividade lógica do juiz. Ainda mesmo quando exceções de mérito, não apreciáveis pelo juiz, são argüidas não se dilata o litígio, uma vez que tudo continua gravitando em torno da matéria do libelo. Por outro, a sentença declaratória negativa que o réu procura obter incide igualmente sobre o pedido do autor e é conseqüência natural de sua improcedência (...).”65

Ressalve-se que tendo sido ajuizada ação declaratória da natureza negativa pelo autor, visando a declaração de inexistência da relação jurídica de direito material, o réu poderá pleitear na contestação, caso não opte por ajuizar ação declaratória incidental, pelo reconhecimento do elo que o promovente da demanda visa refutar, mantendo-se a situação jurídica anterior.

Os artigos 36, 300 e 396 mostram que a contestação deverá estar instruída com a procuração outorgada ao patrono do réu, salvo nas hipóteses excepcionais que se reconheça capacidade postulatória à própria parte (Lei n. 9099/95) ou quando atue o advogado em causa própria (art. 39), devendo ser escrita, salvo quando a lei preveja a forma oral (arts. 278, caput e 30 da Lei n. 9.099/95), contendo a especificação das provas, devendo estar instruída com os documentos indispensáveis.66

Uma vez apresentada a contestação, há vários efeitos relevantes que eclodem conforme adiante indicado67: 1) no plano material, a preclusão de alegação do benefício de ordem; 2) no plano processual: 2.1) preclusão relativa às matéria de defesa não argüidas na contestação, salvo as exceções do artigo 303, incisos I a III do Código de Processo Civil); 2.2) presunção de veracidade dos fatos narrados pelo autor na inicial e não impugnados pelo réu, salvo as hipóteses do artigo 302, incisos I a III do Código de Processo Civil; 2.3) responsabilidade do réu pelas custas de retardamento, caso não alegue na contestação qualquer das matérias do artigo 267, incisos IV e a VI, nos termos do artigo 267, parágrafo 3º ou, ainda, a responsabilidade integral pelas custas da parte que não argüir a incompetência absoluta (art. 113, § 1º); 2.4) aplicação das sanções previstas no artigo 22, caso não suscite na contestação eventuais exceções substanciais cabíveis; 2.5) surgimento das questões, entendidas consoante Carnelutti, dúvidas ou pontos controversos sobre os fatos (quaestiones facti) ou sobre as normas jurídicas (quaestiontes uris), não obstante apenas as primeiras devam ser necessariamente suscitadas para que o juiz possa conhecê- las.

O artigo 301 do Código de Processo Civil arrola as preliminares que o réu deve argüir antes de discutir o mérito.

66 Cândido Rangel Dinamarco critica o rigor de decisões exigindo que o requerimento de provas pelo réu já

seja feito na contestação. Entende que tal posição restritiva fere o direito à prova, que considera um dos pilares do processo civil moderno, de tal sorte que tenha ou não o réu feito o protesto por provas ao contestar, deve ter a faculdade de requerê-las. Assim, conclui que a falta de requerimento de provas ou protesto por elas na contestação, não prejudica o réu (Instituições de direito processual civil, cit., v. 3, p. 473).

67 José Carlos Barbosa Moreira, Novo processo civil brasileiro: exposição sistemática do procedimento, cit.,

Pode-se afirmar que questão é o ponto duvidoso ou controverso68, denominando- se de prévias as que devem ser lógica e cronologicamente examinadas antes do mérito.

As questões prévias podem ser preliminares ou prejudiciais.

As preliminares são as de natureza processual que indicam para o juiz se será ou não possível a apreciação do mérito, de tal sorte que sua existência impede ou retarda o julgamento da lide.

Conforme Tereza Alvim69, o ponto central da distinção entre prejudicial e preliminar não é a natureza da questão vinculada, mas o teor de influência que a questão vinculante terá sobre a vinculada.

Barbosa Moreira70 mostra que a solução de uma questão pode influenciar a de

outra, dos seguintes modos: a) tornando dispensável ou impossível a solução dessa outra (caso em que tratar-se-á de preliminar); ou, b) predeterminando o sentido em que há de ser resolvida, isto é, influenciando o teor da decisão condicionada (caso em que se cuida de questão prejudicial).

Em que pese a presente matéria venha ser novamente examinada por ocasião da fixação dos pontos principais da ação declaratória incidental, poder-se-ia, em síntese, observar que a preliminar é questão de natureza processual que se existente impede ou retarda o julgamento do mérito, enquanto a prejudicial é sempre de mérito, antecedendo de forma lógica a solução do litígio e nela necessariamente interferindo, constituindo verdadeira premissa para a solução da lide.

Cabe notar que não obstante o longo rol de matérias indicadas como preliminares para argüição na contestação, pode ainda o réu deduzir eventual existência do

68 Luiz Rodrigues Wambier; Flávio Renato Correia de Almeida; Eduardo Talamini, Curso avançado de processo civil: teoria geral do processo e processo de conhecimento, coordenação de Luiz Rodrigues Wambier, 3. ed., 3. tiragem, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 420-421.

69 Teresa Arruda Alvim Wambier, Questões prévias e os limites objetivos da coisa julgada, São Paulo:

Revista dos Tribunais, 1977, p. 15.

70 José Carlos Barbosa Moreira, Questões prejudiciais e coisa julgada, Rio de Janeiro, Borsoi, 1967, p. 22 e

ss. (Tese de Livre Docência − Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1967).

impedimento, conquanto ele preveja sua alegação por exceção ritual, que constituiria verdadeira objeção, face ao disposto no artigo 485, inciso II, além da eventual ausência do pagamento de custas, bem como as previstas no artigo 267, incisos IX e X71 e o descumprimento do artigo 268.