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3   MACROECONOMIA AMBIENTAL, CONTABILIDADE NACIONAL

3.1 Aspectos gerais 44

A definição de macroeconomia pode ser sintetizada como o estudo do comportamento agregado de uma economia que trata sobre a observação das tendências globais.

Para isso, a macroeconomia precisa de medidas sintetizadoras da atividade econômica que constituem a informação básica que permite aos economistas se concentrarem nas mudanças dominantes na economia, para além das influências particulares que atuam sobre os setores específicos desta.

Tais medidas econômicas requerem um vasto conjunto de dados estatísticos que permitam descrever o comportamento econômico agregado. Desses dados, os mais importantes são as contas nacionais, que registram os níveis agregados do produto, da renda, da poupança, do consumo e do investimento na economia. Assim, um conhecimento preciso das contas nacionais constitui a coluna vertebral da análise macroeconômica moderna. Surge, portanto, a necessidade de um conhecimento mais profundo de seus fundamentos e metodologia.

A contabilidade nacional constitui um instrumento de mensuração que fornece a estrutura conceitual para o desenvolvimento de equações macroeconômicas, as quais descrevem todos os aspectos da economia. Os dados informados na contabilidade nacional pertencem aos agentes econômicos (firmas, famílias, setor público e setor exterior) e aos processos econômicos, que logo são compilados e processados por organismos especializados com o intuito de permitir comparações no tempo (para medir o crescimento) e espaço (entre países).

Os resultados gerados pela contabilidade nacional são, a nível agregado, produto, renda, poupança, consumo, gastos nacionais e investimento da economia. Essa informação influi diretamente sobre muitas decisões econômicas com um impacto direto sobre o nível de renda e gastos das famílias.

De forma ilustrativa, Séruzier (2003) aponta que a contabilidade nacional põe em movimento o fluido dentro de um circuito único e fechado nele mesmo. O fluido vem a ser a renda criada pela nação, e o circuito, a economia. O circuito pode ser analisado em dois níveis: o primeiro nível descreve os fluxos, que neste caso são as contas consolidadas da nação, e o segundo nível decompõe tais fluxos distinguindo os diferentes agentes econômicos.

Com respeito à renda, o autor coloca o seguinte axioma: “a única renda criada é aquela gerada pela atividade de produção”. Logo, é a produção o centro de toda a contabilidade nacional, ou seja, apenas se contabilizam as rendas que correspondem aos fatores de produção.

Sob os conceitos circuito, fluxo e renda pode-se dizer que as contas nacionais são uma aplicação, na prática, do fluxo circular da renda apresentado no Gráfico 11. Este modelo trata de uma economia aberta com setor público, em que se consideram alguns pressupostos simplificadores da realidade para ilustrar uma ideia mais geral dos elementos que fazem parte da contabilidade nacional.

Gráfico 11 – Fluxo circular da renda

Bens e serviços Firmas Setor externo Estado Fatores de produção Famílias Compra de bens e serviços Pagamento de bens e serviços M X T T TR TR G

Fluxo real Fluxo monetário Filtrações Fonte: Azqueta, 2002; Harris e Codur, 2004.

Os agentes econômicos desse sistema econômico têm as seguintes funções e objetivos: − As famílias são os titulares dos fatores produtivos que vendem às firmas em troca de uma compensação monetária destinada ao consumo de bens e serviços finais (consumo presente) e à poupança (consumo futuro). Uma parte da renda recebida é destinada às obrigações fiscais (T).

− As firmas produzem, mas para isso gastam na contratação de fatores (valor agregado – VA) e distribuem o consumo abastecendo os mercados e recebendo como pagamento o valor dos bens e serviços produzidos dentro do país (produto interno bruto – PIB).

− O Estado realiza gastos (G) para comprar bens e serviços, o que é financiado por meio da arrecadação de impostos (T) diretos das famílias e das firmas. Também realiza transferências (TR), paga aposentadoria e fornece subsídios às famílias e às firmas. Existem períodos nos quais o setor é poupador de fundos (superavitário) e outros nos quais é devedor de fundos (deficitário).

− O setor externo que compreende as importações (M), as exportações (X) de bens e serviços finais.

Observa-se no Gráfico 11 que pelo tipo de transações que existem no fluxo circular se distinguem duas classes de fluxo. O primeiro, chamado fluxo real, corresponde às transferências entre os agentes de bens e serviços, e que no Gráfico está representado pelas setas contínuas. Já o segundo, clamado fluxo monetário, corresponde às transações de dinheiro, que no Gráfico está representado pelas setas descontínuas.

Cada setor tem uma conta na qual as entradas ou receitas serão um crédito (fontes), e as saídas ou gastos, um débito (usos). Pelo princípio da dupla entrada, o que representa uma receita para um setor deve significar um gasto para outro setor. Portanto, os usos devem se igualar às fontes de cada conta. As diferenças que se verifiquem entre receitas e gastos serão a poupança de cada setor.

Como visto, a informação contida na contabilidade nacional faz dela o modelo descritivo mais vasto do qual se vale a macroeconomia moderna, pois dela surgem os indicadores mais importantes que se assentam em um suporte teórico fornecido pela teoria econômica. Uma vez que a contabilidade nacional permite comparar o crescimento entre países e porque nela se baseia a implementação de políticas econômicas, sua metodologia tem sido padronizada pelo Departamento de Estatística das Nações Unidas (UNSTATS, sigla em inglês) por meio do Sistema de Contas Nacionais (SCN).

O SCN determina a metodologia para a elaboração da contabilidade nacional e a estrutura ordenada das contas dos países. Apesar do rigor do marco central que é necessário para garantir a exata integração dos dados, o sistema é flexível na aplicação do marco nos diferentes países, pois deve atender às necessidades analíticas e disponibilidade de dados.

Portanto, qualquer que seja a estrutura econômica, o ordenamento institucional ou o nível de desenvolvimento do país, este pode adequá-lo a sua realidade (UNSTATS, 2008, p.42).

A análise da contabilidade nacional como instrumento de mensuração macroeconômico que se desenvolve dentro do fluxo circular da renda, permitiu que a macroeconomia ambiental apontasse um vazio nesse circuito, isto é, o próprio meio ambiente como fornecedor de insumos à produção e receptor dos rejeitos desse processo. Desde a criação do SCN em 1953, não se tinha dado importância ao papel fundamental do meio ambiente na economia. Só a partir do SCN 1993 é que se incorpora o conceito de contas satélites na contabilidade nacional, o que confirma a flexibilidade do sistema. Essas contas satélites permitem a contabilidade do meio ambiente sem afetar a comparabilidade do marco central utilizado para a formulação de políticas (UNSTATS, 2008, p. xlix).