5. PERCEPÇÕES DA COMUNIDADE ESCOLAR ACERCA DA CONDICIONALIDADE
5.2 ASPECTOS GERAIS: O PERFIL DAS ESCOLAS ENTREVISTADAS
Neste momento, faz-se importante retomar a questão metodológica para a melhor compreensão dos elementos expostos neste capítulo. A proposta inicial era investigar 02 (duas) escolas de IDEBs extremos. Contudo, esbarramos em alguns impasses que nos levaram a escolher 03 (três) escolas públicas municipais. Estas foram definidas por serem as únicas a contarem com dados no portal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Neste portal podemos encontrar dados referentes à avaliação das
escolas com base em seus IDEBs. A escolha das escolas através do IDEB, como discutido anteriormente, partiu do pressuposto de que a qualidade ou não da escola, pode vir a influenciar o aprendizado dos seus alunos, ainda que não determine por si só o desempenho destes.
Como o estudo presente visa fazer uma análise da percepção dos atores inseridos no processo educacional sobre a condicionalidade de educação do PBF, é preciso levar em conta os processos constitutivos das relações sociais no município em torno da implementação das políticas de educação e de assistência. Tal demanda se justifica diante do argumento de que o acompanhamento da frequência escolar das crianças beneficiárias do PBF, funciona como um instrumento que, ao menos em tese, deveria servir para mobilizar uma articulação intersetorial entre as políticas em questão, juntamente com a de saúde, no intuito de qualificar a atenção em torno dessa parcela mais vulnerável da população.
É nesse sentido que procuramos, além de entrevistas com os atores específicos que operam no chão da escola, entrevistar também o gestor do Programa Bolsa Família e a Secretária de Educação, como forma de entender como estes dialogam e percebem a condicionalidade em questão.
Ao iniciar a pesquisa sobre as escolas públicas e seus respectivos IDEBs, deparamo- nos com um primeiro impasse: as informações acerca destas. De um total de 09 (nove) escolas públicas municipais na modalidade de ensino fundamental (com base em dados coletados na própria Secretaria de Educação do município), apenas 03 (três) apareciam com informações acerca do seu respectivo IDEB na base do INEP. Dentro desse universo, porém, não há uma série histórica que permita destacar a escola de maior e a de menor IDEB, tendo em vista que nem todas as 03 (três) escolas participaram da Prova Brasil em todos os anos em que esta fora aplicada. Sendo assim, resolvemos elegervalores relacionados ao ano de 2007, ano que deu início a estas avaliações e que permitia avaliar a diferença entre as 03 (três) escolas com dados disponíveis. As escolas foram estão classificadas em ordem decrescente, do maior para o menor IDEB: Escola A: 4,7; Escola B: 4,1 e Escola C: 3,9.
Em comparação com dados relativos às media nacional e estadual para a rede pública no ano de 2007, vemos que, das escolas disponíveis a única que se encontra abaixo das três médias (nacional, estadual e municipal) é escola C. Para visualizarmos com maior clareza, a média nacional para rede pública referente aos anos iniciais do ensino fundamental, era de 4,0 em 2007. Já a média relativa à rede pública do Estado do Rio de Janeiro para as etapas iniciais do ensino fundamental, era de 4,1. Por fim, para a rede pública municipal, a média era de 4,2
em 2007. Logo, não há muita discrepância entre as médias apresentadas e as das escolas escolhidas.
Quanto ao fato de não conseguirmos acesso aos dados referentes às outras escolas públicas municipais no portal do INEP, partimos do pressuposto do quantitativo de alunos que seriam necessários para realizarem a Prova Brasil. Segundo o INEP (2011), é necessário o número mínimo de 20 (vinte) alunos por turma para que a escola seja avaliada.
Como trata-se de um município pequeno, muitas escolas se localizam em áreas rurais e distritos mais afastados do perímetro urbano, atendendo a um quantitativo menor de alunos. Nesse aspecto, tais escolas podem não possuir o número de alunos por turma exigida para participar da avaliação feita pelo INEP para a composição do IDEB.
A partir da entrevista feita com uma das coordenadoras pedagógicas da Escola B, que anteriormente ocupava outro cargo na Secretaria de Educação, a mesma nos informou sobre todas as avaliações as quais as escolas eram submetidas, inclusive uma avaliação criada pelo município para aferir a qualidade das escolas. Quando questionada sobre a Prova Brasil e se todas as escolas participavam, esta respondeu positivamente. Inclusive, esta coordenadora pedagógica acrescentou que houve casos em que os alunos que ultrapassaram o quantitativo necessário para fazer a Prova em uma escola, eram remanejados para fazer a Prova nas escolas rurais onde não havia se atingido o número necessário para fazê-la.
Com essa estratégia, as escolas menores, segundo ela, conseguiam fazer a Prova. Contudo, tal estratégia implica que a rede pública municipal seja avaliada, mas não há como medir nesse caso, a qualidade da escola que recebeu alunos de outra para fazer a Prova Brasil. Contudo, esta explicação ainda não esclarece o fato de porque nem todas as escolas, mesmo com a estratégia descrita acima, não terem calculados os seus respectivos IDEBs principalmente nos anos subsequentes a 2007.
Importante ressaltar dentro disso que as escolas escolhidas são as maiores do município para a coleta de dados. Estas também se encontram localizadas em contextos diferentes: a escola A localiza-se num distrito afastado do centro da cidade de Carmo e atende a crianças provenientes da área rural e urbana, além de receber crianças de ao menos 02 (dois) outros distritos carmenses; a escola B é a maior escola pública municipal e se localiza na parte central da cidade; por fim, a escola C encontra-se na parte periférica da cidade, sendo esta a que atende o público em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica.
A partir de tal constatação, as escolas identificadas pelo site do INEP onde encontramos os IDEBs, são também as escolas com um maior quantitativo de alunos, e consequentemente, com um maior número de beneficiários do Programa Bolsa Família. O que foi imprescindível para nossa escolha também.
O primeiro contato deu-se na Secretaria de Educação do município, onde, contamos com um facilitador diante da relação de proximidade com a uma das funcionárias. Trata-se da operadora máster do Programa Bolsa Família. Esta é a responsável por repassar as informações acerca da frequência escolar dos alunos beneficiários para o Sistema Presença.
A partir de dados coletados junto a Secretaria de Educação e as respectivas secretarias das escolas, conseguimos mapear o quantitativo de alunos que recebiam o benefício no ano letivo de 2014, ainda que não de forma precisa. Isso porque, em algumas escolas o que tínhamos era o quantitativo geral de alunos incluindo os do primeiro e do segundo segmento. Contudo, nossa proposta foi trabalhar com o primeiro segmento apenas.
A escola A tinha em 2014 cerca de 27 (vinte e sete) alunos do primeiro segmento na condição de beneficiários. Neste caso, não tivemos acesso ao quantitativo geral de alunos no primeiro segmento. Porém, o quantitativo total de alunos da escola, incluindo os dois segmentos gira em torno de 115 (cento e quinze), de acordo com a secretária da mesma. Já a escola B, contou em 2014 com 446 (quatrocentos e quarenta e seis) alunos beneficiários do Programa no primeiro segmento, segundo informações também da secretaria da escola. Número bem expressivo se levarmos em conta que a escola possuía no mesmo ano, um total de 763 (setecentos e sessenta e três) alunos no primeiro segmento.
A escola C contou em 2014 com um total de 88 (oitenta e oito) alunos beneficiários no primeiro segmento do ensino fundamental. Neste caso, apesar de não termos tido acesso ao quantitativo exato do alunado em geral da escola em questão, em entrevista com a atual diretora, a mesma afirmou que esta contava, em 2014, com um total de quase 100 (cem) alunos. Sendo assim, pode-se dizer que a escola possui um percentual de quase 90% de alunos beneficiários. Tal fato, porém, não surpreende tanto, tendo em vista que se trata da escola localizada na periferia de Carmo, onde se encontra a parcela mais vulnerável da população.
A infraestrutura das escolas é em geral semelhante. A escola A possui peculiaridades. Localizada em um distrito afastado da cidade de Carmo, esta fora construída no intuito de atender aos filhos dos funcionários de uma usina hidrelétrica pertencente a uma
concessionária de energia elétrica. Neste caso tratava-se de funcionários de nível superior, e também daqueles com menor grau de instrução e qualificação.
A escola conta hoje com um número pequeno de alunos se comparada à Escola B, atendendo ao primeiro e ao segundo segmento do ensino fundamental. Há pouco mais de 01(um) ano a escola deixou de atender a educação infantil. Esta recebe alunos das zonas rurais e urbanas e também de outros distritos considerados vulneráveis em termos de situação socioeconômica.
A infraestrutura da Escola A é considerada boa. Esta possui 03 (três) prédios. O prédio onde funcionava a educação infantil, porém, foi interditado diante da situação de precariedade de sua estrutura física. No geral, a escola possui refeitório, sala de informática, biblioteca, quadra de esporte, laboratório de química e um amplo espaço para atividades ao ar livre.
O quadro de funcionários é composto pela diretora, orientadores educacionais, coordenadores pedagógicos, professores, secretária e demais funcionários responsáveis por serviços gerais.
Já a escola B dispõe de um amplo espaço físico. As salas de aulas são grandes e abarcam no máximo 25 (vinte e cinco) crianças por turma. Além do refeitório e de um espaço para as crianças aproveitarem o recreio, a escola, que atende a maior parte dos alunos no ensino fundamental do município, conta ainda com auditório, sala de informática, biblioteca e sala de recursos, que é utilizada para atender alunos com deficiência ou “problemas de aprendizagem” em geral.
Já as atividades físicas, que ocorrem nas aulas de educação física, acontecem na quadra de esporte municipal de Carmo que fica bem ao lado da Escola. Por fim, a escola se divide em 03 (três) turnos, sendo que pela manhã e pela tarde estudam os alunos do primeiro segmento, já à noite, encontram-se os alunos do segundo segmento na modalidade de Educação de Jovens e Adultos.
A Escola B possui em seu quadro de funcionários: diretora, diretora adjunta, secretários, coordenadores pedagógicos, orientadores educacionais, professores, funcionários responsáveis pelos serviços gerais, e ainda psicólogos, sendo a escola com o quadro mais completo em termos de profissionais da educação.
A escola C é a menor. Ela atende a uma média de 100 crianças de acordo com a direção da escola. A escola encontrava-se em reforma no momento em que fomos fazer a
coleta de dados, não tendo sido possível observar de forma mais detida a sua condição física. Porém, a diretora nos informou sobre a existência de uma estrutura física considerável para comportar os alunos em tempo integral. No momento das entrevistas, que se deram no início do ano letivo de 2015, as crianças estavam estudando no galpão de uma igreja e em uma casa alugada até que as obras terminassem, com prazo previsto para abril de 2015.
No geral a escola possui no seu quadro de funcionários: diretora, secretária, professores e funcionários responsáveis por serviços gerais. Em termos de estrutura física, esta não conta com biblioteca, mas possui sala de informática, de recreação e leitura, de artes e de reforço.
A partir da compressão do perfil das escolas e dos motivos que nos levaram a escolha das 03 (três) elencadas, o ponto seguinte traz uma análise do contexto complexo em que se deram as entrevistas. A proposta é compreender o ambiente e os elementos que tangem as relações sociais peculiares tecidas no município a partir das entrevistas com a Secretária de Educação e o Gestor do PBF. Tais entrevistas revelaram noções importantes que se refletem na administração pública e consequentemente, na implementação do PBF em Carmo.
5.3 COMPREENDENDO O CENÁRIO DE IMPLEMENTAÇÃO DO PBF EM CARMO: