2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-CONCEITUAL
2.4 IDOSO E SEU ESPAÇO NA SOCIEDADE
2.4.1 Aspectos gerais sobre envelhecimento humano
É parte do ciclo natural da vida: nascemos, crescemos, nos reproduzimos, envelhecemos e, ao fim, morremos. Quando estamos nos encaminhando para o fim do ciclo, podemos dizer que estamos sofrendo os resultados do processo de envelhecimento.
Esse processo, por sua vez, é marcado pela multidimensionalidade. Podemos observar que o envelhecimento humano pode se desenvolver sob diferentes aspectos: o cronológico, o biológico, o social e o psicológico (MASCARO, 2004, p. 40). Assim, percebemos que a palavra envelhecimento possui diferentes conotações, como observa Veras (1994, p. 25):
velhice é um termo impreciso e sua realidade, difícil de perceber [...] Nada flutua mais do que os limites da velhice em termos de sua complexidade fisiológica, psicológica e social. Uma pessoa é tão velha quanto suas artérias, seu cérebro, seu coração, sua moral ou sua situação civil? Ou é a maneira pela qual outras pessoas passam a encarar certas características que classifica as pessoas como velhas[?].
Essas concepções de envelhecimento podem ser intrínsecas e/ou extrínsecas ao ser humano. O conceito de envelhecimento biológico relaciona-se com aspectos nos planos molecular, celular, tecidular e orgânico do indivíduo, enquanto o conceito psíquico é a relação das dimensões cognitivas e psicoafetivas, interferindo na personalidade e afeto (FECHINE; TROMPIERI, 2012). Observamos que o envelhecimento cronológico – que pode ser observado pela data de nascimento – depende do próprio ser humano, mas pode ser influenciado por fatores externos. Um exemplo é o nível de desenvolvimento de uma nação. Assim, Veras (1994) destaca que, do ponto de vista cultural, o envelhecimento pode ser percebido diferentemente em um país com expectativa de 37 anos de vida, como
Serra Leoa, e outro de 78 anos de vida, como no caso do Japão. Nesse sentido, compreendemos o envelhecimento como “um processo heterogêneo e individualizado, que depende da interação entre fatores biológicos, sociais, psicológicos, econômicos, ambientais, históricos e culturais” (MASCARO, 2004, p. 89).
Em virtude de sua multiplicidade, o tema envelhecimento é tratado como objeto de estudo em diversas áreas do conhecimento. Dessa forma, observamos algumas linhas de estudo como: psicologia do envelhecimento (na psicologia), sociologia do envelhecimento (ou antropologia do envelhecimento), fisiologia do envelhecimento (na medicina), entre outros. A ciência que estuda o envelhecimento humano sob esses aspectos é a gerontologia: uma ciência de caráter interdisciplinar que considera a multiplicidade desse processo (CAMACHO, 2002). É a partir da multidimensionalidade que investigamos os idosos.
Observando as diferentes perspectivas que o tema envelhecimento envolve, nos deparamos com as de Platão e de Aristóteles: para o primeiro, o envelhecimento faz surgir nos seres humanos um imenso sentimento de paz e de libertação (SANTOS, 2001, p. 93). Aristóteles, no mesmo período, não concordava com Platão. Acreditava que o envelhecimento era o apagar progressivo da chama vital, a qual é a condição para a existência da vida humana (MASCARO, 2004, p. 44) e que nos traz a ideia da velhice como um período inerte da vida, na qual estamos declinando, sem forças, e por isso, afastados da vida em sociedade. Mascaro (2004) esclarece as diferentes posições: naquele período, de um lado, percebiam a velhice como um flagelo e um castigo que aniquilava a força do guerreiro. De outro lado, a velhice apresentava sabedoria, bondade a vigor, como também apresentava o poeta Homero em suas figuras das obras Ilíada e Odisseia.
Percebemos, a partir da posição de Platão e de Aristóteles e do esclarecimento de Mascaro, que num período muito distante do atual, o tema velhice era tratado de forma ambivalente. Ainda nas sociedades contemporâneas, o paradoxo permanece. Entre algumas nações, como por exemplo as indígenas ou orientais, envelhecer é algo sagrado e tratado com delicadeza, respeito e reverência (LOPES, 2012, p. 27), que pode acontecer pelo fato de a experiência e sabedoria serem valorizadas nessas sociedades, características comuns em pessoas maduras e com idade avançada. Em outras sociedades, como, por exemplo, as ocidentais capitalistas, em grande parte, a velhice é vista como um período de decadência física e mental, uma fase improdutiva da vida
(LOPES, 2012, p. 27). Dessa forma, podemos inferir que a visão da sociedade atual sobre a velhice é originada de um contexto social, político, econômico e cultural (NERI, 2007, p. 42).
Nas sociedades orientais, o envelhecimento é uma virtude. Araújo e Carvalho (2005) explicam que, naquele contexto, a velhice é objeto de adoração, e que os jovens recorrem aos idosos em busca de conhecimento e de experiência. Os aconselhamentos são valorizados e o idoso assume posição de destaque na sociedade. Assim, nas sociedades orientais, a função social do idoso é vinculada à experiência e sabedoria de vida que este possui.
Nas sociedades ocidentais, o envelhecimento traz alguns problemas de ordem social: aquele que envelhece passa a ocupar posição desfavorável na sociedade, e isso acontece, essencialmente, por conta do regime capitalista. As sociedades predominantemente capitalistas consistem em “um sistema que singulariza a capacidade produtiva em detrimento de outras dimensões do humano” (VERAS; CALDAS, 2004, p. 425), ou seja, no período da aposentadoria o indivíduo entraria em fase improdutiva – em termos econômicos – e, então, sem utilidade para uma sociedade.
Diante disso, cabe um questionamento: como são tratadas a sabedoria e a experiência que aquele que envelhece possui? Veras e Caldas (2004) explicam que, no cenário atual capitalista, a sabedoria e experiência – particular daqueles que envelhecem – perdem valor frente à palavra da ciência. Dessa maneira, o ancião perderia seu valor social, e essa perda já é caracterizada por um problema de ordem social que envolve muitas nações, ao mesmo tempo em que pode significar status, observando as diferentes sociedades. Ao passo que para alguns a velhice pode representar sabedoria e experiência, para outros pode adquirir conotações que envolvem improdutividade e dependência.