2. A COMPLEXIDADE DO TRANSEXUAL
2.2 Aspectos Históricos
Para compreender a questão da transexualidade, conforme foi exposto mais acima, é necessário explorar todas as formas de conhecimento, a fim de obter uma compreensão coesa e ampla. De modo que, segundo ARAUJO (2000, p.36) ao examinar a estrutura comportamental humana, partindo de uma perspectiva antropológica, é perceptível que dentro dessa estrutura, não se encontra muito instinto:
“(...) falar da sexualidade humana é falar das origens da humanidade. Em todas as culturas, incluído as mais primitivas, a sexualidade sempre esteve presente, permeando todos os setores da vida do indivíduo e grupo no qual está inserido. O sentido da sexualidade sempre variou conforme a época, a cultura, e os costumes morais vigentes”.
Isso significa observar que a realidade, tal como conhecemos, em relação ao comportamento humano, segundo CHILAND (2003, p.88) possui influência direta e é consequência de uma experiência social condicionada. De modo que, cada cultura, possui uma experiência diferente, que determina o seu modo de sobrevivência e uma compreensão única a respeito do potencial do ser humano.
Segundo WHITTAKER (1977, p.73) o instinto, dentro da Psicologia, pode ser definido como “(...) como um comportamento não aprendido, padronizado, dirigido ao objetivo que só é encontrado em determinadas espécies.” Desse modo, o autor GREGERSEN (1983, p.10) complementa:
“(...) de todo o comportamento humano, a conduta sexual deveria ser a mais próxima do instintivo, com relativamente pouca variação. Os fatos são diferentes: mesmo a maneira como as pessoas copulam diferem de um grupo para outro.”
Observando pela via antropológica, fica mais fácil compreender como o condicionamento cultural ou a socialização, possuem relação intima com o aprendizado de quais são os comportamentos que são aprovados e admitidos dentro de determinado grupo social. Dentro dessa mesma ótica, a autora DIAS (2008, p. 1-4) aponta é possível identificar qual é o responsável pela formação dos comportamentos masculino e feminino.
A antropologia ensina que não existem, segundo MEAD (1988, p.9) diferenças, partindo das diferenças biológicas, entre os comportamentos masculino e feminino. Portanto, caso de fato existissem tais diferenças, seria possível observar tais diferenças em todas as culturas, o que as pesquisas conseguem comprovar, que não existe.
A obra da autora MEAD (1988, p. 221) “Sexo & Temperamento”, a autora, antropóloga, fez uma pesquisa de campo na Nova Guiné, na década de trinta, por cerca de dois anos, estudando o “Condicionamento das Personalidades Sociais dos Dois Sexos”.
“Foram analisadas três diferentes tribos – Arapesh, Mundugumor e Tchambuli – habitantes de áreas próximas, contudo pertencentes a culturas profundamente diferenciadas. O objetivo era desvendar em que proporção as distinções temperamentais entre os sexos eram inatas, e em que proporção era a cultura a dirigente de sua determinação; objetivava, também, estudar os instrumentos educacionais responsáveis pelo desdobramento dessas diferenças”.
O que é importante na pesquisa da antropóloga, é o fato de que, a leitura completa de sua pesquisa, desmistificam a crença de que na sociedade ocidental, de que existe uma vocação biológica preexistente. Isso significa dizer que não existem fatores que indiquem que o homem possui habilidades naturais para executar certas atividades de forma mais eficiente que uma mulher (PERES, 2001, p.18).
Diferente do que se dissemina a homossexualidade sempre esteve presente na sociedade. Estudando a história, isso fica mais notório, principalmente quando se observa que ela esta na sociedade desde a concepção da historia humana. Os povos antigos, entretanto, tinham suas próprias maneiras de lidar com isso.
Alguns povos consideravam a homossexualidade como uma característica de seres divinos, ou ainda uma espécie de dever social. Nessas sociedades, o que fazia com que o instituto não fosse tratado com indiferença, mas sim, total repúdio ou até sendo criminalização dentro da sociedade em que era observado (GREGERSEN 1983, p. 10).
Conforme Dias (2001, p. 27):
“A homossexualidade é tão antiga como a heterossexualidade. Acompanha a história da humanidade e, se nunca foi aceita, sempre foi tolerada. É uma realidade que sempre existiu, e em toda parte, desde as origens da história humana. E diversamente interpretada e explicada, mas, apesar de não a admitir, nenhuma sociedade jamais a ignorou”.
Porém, tanto a história Grega Clássica, quanto a História da Roma antiga, são referenciais robustos, que denotam em relação a sociedade ocidental. Isso se dá principalmente em decorrência da relevância que ambas as civilizações tiveram na história da construção da sociedade. E seus escritos, segundo OLIVEIRA (2003, n/d) nesse contexto, eram reconhecidos tanto pela qualidade, como pela quantidade em que eram feitos.
Segundo SOUZA (2001, p. 103) a respeito da homossexualidade dentro dessas civilizações:
“A homossexualidade prevista e plenamente inserida nas duas civilizações antigas, cujo pensamento definiu a cultura ocidental, representa um estágio de evolução da sexualidade, das funções definidas dos gêneros para as classes.”
Segundo a autora, na sociedade grega, as relações homossexuais que existiam, de modo geral eram essencialmente pautadas na pedofilia. Esse tipo de relação se desenvolvia como um rito de passagem, um advento sexual dos adolescentes, chamados na época de efebo (SOUZA, 2001, p. 103).
Os preceptores, que geralmente eram tidos na figura de um guerreiro, desempenhavam na vida desses jovens um papel primordial para o seu desenvolvimento, o papel de mestre. Desse modo, o preceptor se disponibilizava para passar tempo suficiente como o jovem mancebo, para que pudesse passar adiante os seus conhecimentos. Para o jovem, portanto, ser escolhido pelo mestre, era uma tremenda honra (SOUZA, 2001, p.103).
A educação Grega possuía como princípio alcançar o ideal de virilidade e de excelência. Isso pode ser observado pela leitura de suas mitologias, onde é possível encontrar, a sexualidade sendo desenvolvida em sua modalidade mais livre. É preciso esclarecer, porém, que a homossexualidade em conjunto com a virilidade, não devem ser concebidas como formas de subjugação ou efeminação (KAPAN, 2002, p.943).
Sobre a homoafetividade Grega, NETO (2010, p. 67) complementa:
“A antiguidade grega, A que pertenceu Platão, caracterizava se pelo politeísmo, crença em vários deuses, a cada um atribuindo se a responsabilidade por certos fenômenos, como o Deus amor, responsável pelo sentimento de afeição entre as pessoas; assinalava se; ainda, pela bissexualidade masculina, em que aceitavam se as relações sexuais de homens com mulheres e com homens, i pela pederastia, relacionamento entre os erastes e o erômenos: aquele, mais velho de 25 anos, procurava um moço entre 12 e 15 anos (o erômenos), a quem, sob a aprovação dos respectivos pais, servia de amigo e educador até os seus 18 anos, quando a relação passava a ser de amizade, exclusivamente, sem conteúdo sexual, que, de resto, não compreendia penetração anal e sim o coito interfemural (fricção do pênis entre as coxas, junto da genitália). Assim chamada homossexualidade grega encarnava um costume altamente moral de finalidade educadora; a intimidade física entre os erastes e o erômenos concebia como o processo de construção consciente do indivíduo.
Cumpre destacar, também, que na Roma antiga, o Imperador Adriano, conhecido por suas habilidades de combate e administração, além de amplo conhecedor das artes e filosofias gregas, estudioso, detentor de um reinado que perdurou por vinte anos, é uma figura histórica importante, pois assumiu publicamente o seu relacionamento homoafetivo com Antínoo.
Grande parte da estrutura Romana conhecida atualmente, como as leis de caráter social, a implementação de inúmeras fronteiras, como a de Bretanha (atual Inglaterra), foram de responsabilidade do referido imperador. Bem como a definitiva expulsão dos judeus, na até então província da Judéia, que posteriormente passou a ser conhecida como Síria-Palestina.