A história da Teoria da Universalidade e Diversidade do Cuidado Cultural (TUDCC) tem início no século XX, em meados da década de 50, nos Estados Unidos da América (EUA). De acordo com Melo (2010), nessa década, a história americana foi marcada pela Guerra Fria e pelo crescimento das tensões entre duas potências militares, EUA e União Soviética. Houve também uma grande explosão demográfica, além do início dos movimentos dos direitos civis e feministas no país.
Nessa época, a antropologia vivia o crescimento da Escola Relativista Cultural Norte-Americana, que se opunha à Escola Evolucionista Europeia. Essa antropologia americana que se opõe ao evolucionismo se fundamenta nas diferenças culturais, defendendo a ideia de que toda expressão, toda crença tem significado e validez apenas no contexto cultural a que pertence. Foi nesse contexto de mudança, também marcado pela ascensão da imigração no país, que Madeleine Leininger se sensibilizou para o estudo que, posteriormente, daria origem à TUDCC (MELO, 2010).
Na década de 50, Leininger era enfermeira especialista em saúde mental e desenvolvia sua prática profissional em uma casa de orientação para crianças.
Durante suas atividades, observou diferenças entre as crianças quanto à maneira como gostariam de ser cuidadas. Apesar de perceber essas diferenças, Leininger não soube explicar os motivos de existirem. Gradualmente, reconheceu que havia diferenças culturais entre as crianças de diferentes procedências (alemãs, africanas, judias e anglo-americanas), que tinham maneiras distintas de agir e se comunicar, que eram comportamentos padronizados e repetidos (LEININGER, 1985a).
De acordo com George (1993), Leininger concluiu que as diferenças repetidas de comportamento entre as crianças tinham uma base cultural, e frente à ausência de conhecimento das culturas das crianças, iniciou sua jornada na busca de explicações para as diferenças e semelhanças entre as culturas. Nesse sentido, Leininger caminha seus primeiros passos para a formação de uma teoria sobre a enfermagem como um fenômeno essencialmente transcultural (LEININGER, 1985a).
Inicialmente, Leininger explorou como as crenças, valores e práticas culturais poderiam influenciar os estados de saúde e doença das pessoas. Logo percebeu que conflitos e estresses culturais poderiam levar, gradativamente, a doenças físicas e mentais. Nessa perspectiva, as enfermeiras não poderiam ajudar as pessoas sem compreender seus valores e crenças culturais. Por estar intrigada com as questões de saúde, doença e cuidado, ela direcionou sua busca ao campo da antropologia, durante sua pós-graduação (LEININGER, 1985a).
Orientada em seu doutoramento por Margaret Mead, Leininger analisou as relações entre a antropologia e a enfermagem, de maneira a buscar as respostas aos seus questionamentos. Para chegar à teoria que a tornou mundialmente conhecida, desenvolveu estudos nas áreas de Antropologia Psicológica, Cultural e em Enologia Geral (SILVA; FRANCO, 1996). Descobriu um campo essencial para ajudar as enfermeiras a conhecer e a compreender culturas de todo o mundo, o que considerava essencial para cuidar das pessoas (LEININGER; McFARLAND, 2006).
Ao final da década de 50, nos EUA houve muita dificuldade para aceitação das concepções de Leininger, pois o conhecimento cultural por parte das enfermeiras era deficiente. Estavam voltadas para a busca da identidade e da competência técnica e desinteressadas nos aspectos culturais da profissão (GUALDA; HOGA, 1992).
Leininger (1985a) relata que iniciou sua teorização no início da década de 60, buscando a relação entre a enfermagem e a antropologia, bem como as contribuições para o cuidado humanizado, saúde e doença, por meio das diferenças e semelhanças entre as culturas. Nessa época, Leininger foi estudar os Gadsups, dos Planaltos Orientais da Nova Guiné, e reconheceu que o conceito de cuidado, saúde e doença eram diferentes daqueles que havia aprendido na escola de enfermagem americana. Nesse sentido, afirma que o conhecimento das diferenças seria importante para proporcionar um cuidado eficiente e satisfatório.
Foi então nos anos 60 que Leininger utilizou, pela primeira vez, os termos
“enfermagem transcultural” e “etnoenfermagem”. Em 1966, na Universidade do Colorado ofereceu o primeiro curso de enfermagem transcultural com experiências de campo, que foi fundamental no desenvolvimento posterior de cursos similares em outras instituições (GEORGE, 1993).
De acordo com Gualda e Hoga (1992), em 1974 iniciou-se uma série de eventos anuais, intitulados “National Transcultural Nursing Conferences”, que se tornariam uma fonte de referência importante da prática, ensino e pesquisa em enfermagem transcultural. Entre os anos de 1975 e 1983, houve maior incremento de interesse pela temática, de forma que as enfermeiras com formação antropológica e em métodos de pesquisa de campo passaram a ser valorizadas.
Nessa época, apenas algumas enfermeiras brasileiras tiveram contato com a enfermagem transcultural nos EUA, por meio dos programas de pós-graduação existentes.
Foi a partir de 1983 que ocorreu uma expansão significativa internacional da enfermagem transcultural, ao mesmo tempo em que se consolidou a importância do enfoque cultural na enfermagem (GUALDA; HOGA, 1992). De acordo com Leininger (1985a), foi a partir dessa época que as enfermeiras nos EUA começaram a valorizar e apreciar a TUDCC, por perceber a multiculturalidade presente nos hospitais, clínicas e nas agências de saúde em geral.
A TUDCC foi apresentada no Brasil no ano de 1985, no evento promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina, intitulado “I Seminário Internacional de Teorias de Enfermagem”, na cidade de Florianópolis, Santa Catarina. A partir dessa divulgação, a teoria despertou o interesse das enfermeiras brasileiras em se aproximar dos aspectos culturais de seus clientes, de maneira a oferecer um cuidado congruente com a cultura deles (LEININGER, 1985a).
Desde então, iniciaram-se as publicações científicas nacionais alicerçadas na teoria de Leininger. Entre elas, citam-se trabalhos oriundos de programas de pós-graduação, como dissertações de mestrado e teses de doutorado, artigos científicos publicados em periódicos voltados à área da enfermagem e da antropologia, além de capítulos de livros.
De acordo com Melo (2010), a teoria se afirma como contemporânea ao considerar que os contextos econômico, político e as condições sociais e culturais da década de 50 nos EUA, que serviram como base para o surgimento da teoria, hoje passam a ser o contexto de uma realidade mundial. O autor refere como tendência as ruínas das fronteiras dos países, de forma a se constituir uma comunidade global, com cidadãos planetários.
Nessa perspectiva, é ressaltada a atualidade da teoria, pois ela responde às demandas da modernidade tardia, o que se faz real a partir de estudos publicados no Brasil, que apontam a utilização da teoria como fundamentação teórica e/ou metodológica (MELO, 2010).
Diante do exposto, cita-se o estudo desenvolvido por Oriá, Ximenes e Alves (2006), cujo objetivo foi analisar a utilização da teoria do cuidado cultural nos trabalhos conclusivos dos programas de pós-graduação, stricto sensu, em enfermagem no Brasil. Trata-se de uma pesquisa documental realizada no banco de teses da Capes por meio da análise dos resumos de 26 dissertações e 10 teses, publicadas entre os anos de 1993 e 2001. Como resultados, as autoras identificaram os estados de Santa Catarina e Ceará como os detentores do maior quantitativo de estudos fundamentados na teoria de Leininger: um total de 15 e 13 trabalhos publicados, respectivamente.
No que concerne à época em que as dissertações e teses foram defendidas, as autoras mencionadas anteriormente apontam os anos de 1999 a 2001 como o período de efervescência, representados pelo maior número de defesas. Dos resumos analisados, os estudos foram qualitativos em sua totalidade, e o número de informantes chave variou entre três e 19 sujeitos. Quanto ao cenário em que o estudo foi desenvolvido, destaca-se a comunidade/domicílio dos sujeitos como o locus que prevaleceu em 14 dos 36 trabalhos (ORIÁ; XIMENES; ALVES, 2006).
A TUDCC tem sido utilizada em diferentes áreas de estudo, mas sua predominância está na área de saúde da mulher, seguida da assistência em enfermagem. Oriá, Ximenes e Alves (2006, p.248) percebem que “a teoria tem sido utilizada em diferentes objetos de estudo centrado na família, ou especificamente na mulher, ou ainda utilizando abordagens multirreferenciais”.
A utilização da TDUCC pode ser descrita como bem aceita pelos pesquisadores brasileiros, pois é disseminada em diversas áreas de atuação do enfermeiro e vem sendo aplicada aos mais diferentes objetos de estudo, o que se faz relevante para sua validação contínua e sistemática no âmbito do Brasil (ORIÁ; XIMENES; ALVES, 2006, p. 250).
Na concepção das autoras supracitadas, a TUDCC tem obtido destaque especial no desenvolvimento de dissertações e teses de enfermagem, o que aponta a aceitação da teoria no contexto brasileiro, bem como a indicação da eficácia de
sua utilização no desenvolvimento de práticas de cuidado congruentes com a cultura dos clientes.
Com o intuito de ressaltar a atualidade da teoria, aponta-se a revisão sistemática da literatura cujo objetivo foi descrever as práticas educativas em Enfermagem fundamentadas na TUDCC (MICHEL et al., 2010). O período analisado pelas autoras foi de 1985 (divulgação da teoria no Brasil) a 2009. Os resultados foram semelhantes aos encontrados no estudo de Oriá, Ximenes e Alves (2006), no que compete à maior concentração de publicações no final de década de 90 até o ano de 2002.
Uma das justificativas para a escolha da teoria de Leininger na fundamentação dos estudos se refere ao fato de os clientes não seguirem as orientações fornecidas, o que pode ocorrer devido às diferenças entre as crenças e valores dos profissionais e clientes. Dessa forma, os profissionais buscam nas práticas educativas (pautadas na teoria) a aproximação entre os saberes popular e profissional para que sejam reduzidos os conflitos culturais (MICHEL et al., 2010).
Considerando a investigação supracitada, aponta-se a aplicação da TUDCC no desenvolvimento de práticas educativas de enfermagem, que envolvem interação entre os indivíduos ou grupos. Nesse sentido, a teoria se mostra atual, bem como oferece fundamentação na realização das práticas profissionais que consideram a integralidade e diversidade dos sujeitos (MICHEL et al., 2010).
Por considerar que os aspectos históricos que envolvem a TUDCC não se encerram e que, como um muro em construção, a cada momento a história recebe um novo tijolo, ressalta-se a importância da teoria para a profissão da enfermagem por meio das palavras de Silva e Franco (1996, p.14):
as enfermeiras são parte de um contexto cultural tanto quanto seus usuários, elas têm uma cultura que está ligada à sua história familiar, étnica, social, profissional etc.; são tantas as culturas em nossas vidas, são tantos os conhecimentos que vamos adquirindo, assumindo e compartilhando, que o natural é viver num espaço de constantes ideias novas e divergentes (SILVA; FRANCO, 1996, p14).