3 O IMPOSTO SOBRE A RENDA DAS PESSOAS JURÍDICAS
4.3 ASPECTOS HISTÓRICOS DA TEORIA DO TRIBUTO ÓTIMO
Feito tal introito, importa definir o que denominamos de Teoria do Tributo Ótimo. Nas palavras de Teodorovicz (2015, p. 16):
Quando se fala em teoria da tributação ótima aplicada a determinado sistema tributário, portanto, quer se referir a mecanismos construídos de forma interdisciplinar (associado a distintos campos do conhecimento aplicados ao estudo da tributação) para compreender de que forma seria possível aperfeiçoar aquele específico sistema tributário (sem ignorar suas peculiaridades em relação a outros sistemas) em prol de um sistema mais justo, do ponto de vista econômico e social, mais racional ou eficiente, não inviabilizando, por outro lado, a atividade empresarial nacional (com a mínima distorção possível).
A Teoria da Tributação Ótima surge como um direcionamento teórico da política tributária pautado em contribuições da teoria econômica, sem negar a influencia de fatores sociológicos, jurídicos e éticos ligados à criação de mecanismos que favoreçam o aperfeiçoamento do sistema vigente, podendo ser considerada um mecanismo essencial para o amadurecimento de qualquer sistema tributário existente (TEODOROVICZ 2015, p. 11)
Infere-se que, correram importantes esforços históricos que antecederam a perspectiva de estudos dedicados a elevar critérios de aprimoramento dos sistemas tributários. Entretanto, não é tão simples determinar um marco inicial da teoria da
tributação ótima, pois os estudos sobre as melhores formas de tributar vêm de muitos séculos atrás.
Adam Smith (1996, p. 282-284), o pai da Economia Moderna, precursor em muito na atenção aos problemas econômicos decorrentes da tributação, elencou quatro diretrizes que devem estar presentes, norteando e integrando a constituição de um regime tributário aperfeiçoado:
I. Os súditos de cada Estado devem contribuir o máximo possível para a manutenção do Governo, em proporção a suas respectivas capacidades, isto é, em proporção ao rendimento de que cada um desfruta, sob a proteção do Estado (...) II. O imposto que cada individuo é obrigado a pagar deve ser fixo e não arbitrário. A data do recolhimento, a forma de recolhimento, a soma a pagar, devem ser claras e evidentes para o contribuinte e para qualquer outra pessoa. (...) III. Todo imposto deve ser recolhido no momento e da maneira que, com maior probabilidade, forem mais convenientes para o contribuinte. (...) IV. Todo imposto deve ser planejado de tal modo, que retire e conserve fora do bolso das pessoas o mínimo possível, além da soma que ele carreia para os cofres do Estado (...)
Em outras palavras, Smith previa o respeito a capacidade contributiva, a certeza e a objetividade da legislação, a simplicidade e a otimização dos tributos através do menor custo possível.
Na sequência, dentre outros estudiosos célebres que refletiram a temática principiológica tributária podemos citar John Stuart Mill, que também tratou da política tributária com rara qualidade, buscando aprofundar análise dos princípios anteriormente elencados por Adam Smith, bem como apresentou propostas específicas de política tributária, como a de uma tributação mais pesada sobre as heranças.
Outrossim, apesar dos bons esforços realizados nos séculos XVIII e XIX, o primeiro grande passo rumo a uma teoria moderna da tributação ótima pode ser atribuído ao artigo publicado pelo jovem Frank Ramsey em 1927, denominado, a contribution to the theory of taxation.
Não obstante Ramsey ter delimitado muito o seu objeto de estudo, tendo dado demasiada ênfase a tributos sobre commodities (consumo), ele produziu inúmeros insights que influenciaram os estudos de política tributária e até de outros temas.
Dentre os aspectos mais relevantes da sua pesquisa, convém citar o seu questionamento sobre a possibilidade de elevar as receitas estatais através de impostos sem que isso distorcesse em muito os comportamentos econômicos. Ele
também expôs em seus estudos o quão negativa a tributação pode ser para a economia, em razão da sua alta capacidade de redução da demanda. Além disso, o referido autor evidenciou a gravidade do “peso-morto” gerado pela tributação, ele concluiu que os produtos com menor elasticidade de demanda deveriam ter alíquotas maiores (Regra do Inverso da Elasticidade).
Ademais, de acordo com Villas-Bôas (2015):
Na época em que foi publicado o texto de Ramsey, havia uma defesa forte pela instituição de tributos fixos (Lump Sum Taxes), e ele contribuiu para demonstrar que situações distintas precisam, às vezes, ter tratamento distinto, para que as inevitáveis distorções econômicas sejam, ao menos, minimizadas, ou seja, a neutralidade, que busca inicialmente a eficiência econômica, pode ser prejudicial à própria eficiência.
Apontado pela maioria dos estudiosos da área como o trabalho inaugural e percussor sobre tributação ótima, o texto de Ramsey recebeu contribuições nos anos que o sucederam. Contudo, apenas no início dos anos 70 é que se cristalizou um linha de pesquisa mais identificada, quando foram publicados alguns textos de Peter Diamond, James Mirrlees, Joseph Stiglitz e Anthony Atkinson.
Uma construção muito significativa, que merece destaque, foi realizada por Mirrles em uma obra de 1971 denominada An exploration in the Theory of Optimum Income Taxation, em que discorreu sobre o paradoxo que vige até hoje na teoria da tributação ótima, o denominado trade-off entre eficiência e equidade. Nos dizeres de Caliendo (2009, p. 278), Mirrles questionou “qual é o nível de tributação que mais promove o bem-estar geral com o menor nível de perdas pelos efeitos adversos da tributação sobre o estímulo ao trabalho e ao empreendedorismo?”.
Portanto, a partir desses estudos, que são as bases teóricas, outros se seguiram, considerando a necessidade de se reformular os sistemas tributários para aproximar a eficiência da equidade.