Em observância ao ensinamento de André Ramos Tavares (2020, n.p.):
O Direito não abandona, por completo, a perspectiva histórica. Há, de outra parte, dentro da História como ciência, a preocupação com o Direito.
É a História que se preocupa com o estudo da origem, desenvolvimento e influência das principais instituições jurídicas. Também a origem das Constituições é inquietação histórica.
Em especial, a História está voltada para ordenamentos jurídicos já superados, não mais existentes. No caso específico do Direito Constitucional, preocupa-se em desvendar o surgimento das Constituições, para o que se vale de elementos sociológicos, geográficos, políticos, etc.
Mas o Direito em vigor e aplicado diuturnamente é também histórico, carregando, inevitavelmente, aspectos da concretude e da cultura vivenciada por todos.
Parte-se, então, para uma retrospectiva histórica do republicanismo no Brasil e no mundo.
Uma das civilizações mais antigas de que se tem registros, Roma, foi incialmente uma monarquia não-hereditária, do século VIII ao VI a.C., tendo sido governada por provavelmente sete reis, os quais governavam até o fim da vida, e eram eleitos - com exceção do último deles, Tarquínio, o Soberbo, que teria tomado o trono à força, um tirano (BRANDÃO; OLIVEIRA, 2015, p. 37-52).
A República Romana perdurou do século VI ao I a.C. e era governada inicialmente por dois cônsules, eleitos anualmente, que mais tarde passaram a compor um triunvirato. Convém esclarecer que os cônsules não concentravam todo o poder político, o qual era dividido com outras magistraturas, além do Tribuno da Plebe.
Durante séculos, apenas os patrícios podiam ser eleitos cônsules, e o primeiro plebeu foi eleito apenas em 366 a.C.
Nomeado ditador já ao final da República Romana, “Sula reintroduziu o princípio legal de que a repetição de um consulado pelo mesmo homem devia ter um intervalo de dez anos” (BRANDÃO; OLIVEIRA, 2015, p. 350). Entretanto, conforme passam a serem admitidas as reeleições e o prolongamento de ditaduras (que eram permitidas em casos específicos, por curtos períodos), a República Romana entra em crise com o assassinato de Júlio Cesar, que estaria acumulando poderes como de um rei, tendo sido nomeado um mês antes ditador vitalício, dictator perpetuus (BRANDÃO; OLIVEIRA, 2015):
Em 46, foi nomeado ditador por um período de dez anos [...], contrariamente ao costume, e em Fevereiro de 44, nomeiam-no ditador para toda a vida (dictator perpetuus), ao mesmo tempo que detém o consulado desse ano juntamente com M. Antonio. Assim a ditadura de César se torna num instrumento para efetuar o progressivo propósito monárquico do seu poder.
(BRANDÃO; OLIVEIRA, 2015, p. 438).
Importante mencionar que, tradicionalmente, o ditador era nomeado por um período de seis meses para casos específicos. Com o passar do tempo, contudo, a ditadura passa a desfigurar-se:
No final da república, o equilíbrio quebrou-se e a instituição acabou usada nas lutas entre facções. De missão entregue pelos cônsules, passou a ser uma forma de governo, cada vez mais longa. Utilizada para tentar sanar os males de que sofria a República, acabou por ser um dos fatores que levou ao seu fim e à criação do principado, uma nova forma de monarquia que tornava
em ficção a constituição republicana. (BRANDÃO; OLIVEIRA, 2015, p. 438-439).
Dessa maneira, o fim da República Romana teve por uma de suas causas o uso da ditadura como forma de governo cada vez menos limitada (como o foi durante quase toda a sua existência), dando lugar ao Império, que durou de 27 a.C. a 395 d.C.
Afastado o período medieval, pelas razões já expostas anteriormente, e seguindo a linha do tempo da história da humanidade, após a queda de Constantinopla6 em 1453, marcando a transição entre a Idade Média e a Idade Moderna, e em decorrência do domínio muçulmano pelo Império Otomano naquela região, dificultando ali a passagem (caminho da rota terrestre entre os continentes asiático e europeu, e da rota marítima entre Mar Negro e Mar Mediterrâneo), Portugal e Espanha, valendo-se de sua posição geográfica, lançam-se ao mar em busca de rotas alternativas para o comércio, o que resulta na descoberta do Novo Mundo em 1492 e na consequente colonização das Américas (incluindo o Brasil, encontrado em 1500 pelos portugueses).
Entre os séculos XVI e XVIII foram muito comuns as monarquias absolutistas na Europa, as quais, diferentemente daquela de Roma setecentos/quinhentos anos antes de Cristo, eram caracterizadas pela concentração de poderes absolutos nas mãos do rei. Sobre o absolutismo, explica Edward McNall Burns (1972, p. 589):
Floresceu em todos os países maiores sob a influência combinada do militarismo e da ambição, por parte dos monarcas, de consolidarem o seu poder a expensas dos nobres. Mas quase não houve lugar em que se apresentasse sob uma forma tão abominável como na França, durante o reinado dos três últimos Bourbons. Luís XIV foi a encarnação suprema do poder absoluto. Seus sucessores, [...], arrastaram o governo aos derradeiros extremos da extravagância e da irresponsabilidade.
A ruptura das Treze Colônias Americanas com a Inglaterra em 1776 - influenciada pelo movimento iluminista - fez surgir a república tal como é conhecida hoje, institucionalizada na Constituição dos Estados Unidos da América em 1787, bem como na Constituição francesa de 1791, em decorrência da Revolução que marcou a passagem da Idade Moderna para a Idade Contemporânea. Boris Fausto (2006, p.
108)afirma:
Alguns fatos significativos balisaram as transformações do mundo ocidental, a partir de meados do século XVIII. Em 1776, as colônias inglesas da América
6 Capital do Império Romano no Oriente.
do Norte proclamaram sua independência. A partir de 1789, a Revolução Francesa pôs fim ao Antigo Regime7 na França, o que repercutiu em toda a Europa, inclusive pela força das armas.
Em verdade, não apenas a independência norte-americana impulsionou os processos de independência das demais colônias no continente americano, como a própria república, tal qual fora discutida nos Artigos Federalistas mencionados no subcapítulo anterior, serviu de modelo para o mundo ocidental.
No Brasil, “A Assembleia Constituinte foi convocada por Dom Pedro I, antes mesmo da proclamação da independência, e veio a instalar-se em 3 de maio de 1823.
Nascida por iniciativa do Imperador, já surgiu com a soberania sufocada” (TAVARES, 2020, n.p.). Adota-se a forma monárquica na Constituição de 1824 - a primeira brasileira. “Exemplo único na América Latina, o Brasil ficou sendo uma monarquia entre repúblicas” (FAUSTO, 2006, p. 146). Essa exclusividade brasileira perdurou por quase 70 anos.
Esse Brasil Imperial e os anseios republicanos já existentes à época foram assim resumidos por Silva (1997, p. 78):
A realidade dos poderes locais, sedimentada durante a colônia, ainda permanecia regurgitante sob o peso da monarquia centralizante. A ideia descentralizadora, como a republicana, despontara desde cedo na história político-constitucional do Império. Os federalistas surgem no âmago da Constituinte de 1823, e permanecem durante todo o Império, provocando rebeliões como as ‘Balaidas’, as ‘Cabanadas’, as ‘Sabinadas’, a ‘República de Piratini’. Tenta-se implantar, por várias vezes, a monarquia federalista do Brasil [...]. O republicanismo irrompe com a Inconfidência Mineira e com a revolução pernambucana de 1817; em 1823, reaparece na constituinte, despontando outra vez em 1831, e brilha com a República de Piratini8, para ressurgir com mais ímpeto em 1870 e desenvolver-se até 1889.
“O republicanismo irrompe com a Inconfidência Mineira”, diz o autor na passagem acima, a qual ocorreu antes mesmo da Independência do Brasil (o fato deu-se ao final do século XVIII). Embora não deu-seja simples dizer, deu-segundo Fausto, o que pretendiam os inconfidentes, a maioria deles aparentemente tinha a intenção de
“proclamar a República, tomando como modelo a Constituição dos Estados Unidos”
(FAUSTO, 2006, p. 117), além da proposta de libertação dos escravos. A execução de Tiradentes pela Coroa portuguesa acabou por torná-lo um mártir republicano.
7 O Antigo Regime é caracterizado pelas monarquias absolutistas.
8 A República do Piratini foi fruto da Guerra dos Farrapos (1835) no sul do País, sob a Presidência de Bento Gonçalves.
O movimento republicano intensificou-se a partir de 1870 no Rio de Janeiro, com o Manifesto publicado no jornal A República por membros dissidentes do Partido Liberal liderados por Quintino Bocaiúva e Joaquim Saldanha Marinho, visando a divulgação dos ideais republicanos e a derrubada da monarquia. Por sua tamanha relevância, alguns trechos seguem transcritos:
Neste país, que se presume constitucional, e onde só deveriam ter ação poderes delegados, responsáveis, acontece, por defeito do sistema, que só há um poder ativo, onímodo, onipotente, perpétuo, superior à lei e à opinião e esse é justamente o poder sagrado inviolável e irresponsável. [...]
Assim, pois, anulada a soberania nacional, sofismadas as gloriosas conquistas que pretenderam a revolução da independência de 1822 e a revolução da democracia em 1831, o mecanismo social e político, sem o eixo sobre que devia girar, isto é, a vontade do povo, ficou girando em torno de um outro eixo -- a vontade de um homem.
A liberdade aparente e o despotismo real, a forma dissimulando a substância, tais são os característicos da nossa organização constitucional. [...]
O último presidente do Conselho de Ministros do ex-imperador dos franceses, em carta aos seus eleitores, deixou escapar a seguinte sentença: -- A consagrou inviolável, sagrado e irresponsável. A infalibilidade do arbítrio pessoal substituiu assim a razão e a vontade coletiva do povo brasileiro.
Que outras condições, em diverso regime, constituem o absolutismo? [...]
Uma Câmara de Deputados, demissível à vontade do soberano, e um Senado vitalício, à escolha do soberano, não podem constituir de nenhum modo a legítima representação do país. [...]
Posto de parte o vício insaciável de origem da Carta de 1824, imposta pelo príncipe ao Brasil constituído sem Constituinte, vejamos o que vale a monarquia temperada, ou monarquia constitucional representativa. [...]
Ou o príncipe, instrumento e órgão das leis providenciais, pela sua só origem e predestinação, deve governar os demais homens, com os predicados essenciais da inviolabilidade, da irresponsabilidade, da hereditariedade sem contraste e sem fiscalização, porque o seu poder emana da Onipotência infinitamente justa e infinitamente boa; ou a divindade nada tem que ver na vida do estado, que é uma comunidade à parte, estranha a todo interesse espiritual e então a vontade dos governados é o único poder supremo e o supremo árbitro dos governos. [...]
Se houver, pois, sinceridade ao proclamar a soberania nacional, cumprirá reconhecer sem reservas que tudo quanto ainda hoje pretende revestir-se de caráter permanente e hereditário no poder está eivado do vício da caducidade, e que o elemento monárquico não tem coexistência possível com o elemento democrático.
É assim que o princípio dinástico e a vitaliciedade do Senado são duas violações flagrantes da soberania nacional, e constituem o principal defeito da Carta de 1824. [...]
Perante a Europa passamos por ser uma democracia monárquica que não inspira simpatia nem provoca adesão. Perante a América passamos por ser uma democracia monarquizada, aonde o instinto e a força do povo não podem preponderar ante o arbítrio e a onipotência do soberano.
Em tais condições pode o Brasil considerar-se um país isolado, não só no seio da América, mas no seio do mundo. O nosso esforço dirige-se a suprimir este estado de coisas, pondo-nos em contato fraternal com todos os povos,
e em solidariedade democrática com o continente de que fazemos parte.
(MELLO, 1878, p. 725-745).
O texto publicado tecia duras críticas à monarquia instaurada com a independência e trazia, ainda, manifestações de vários membros do Parlamento que também se opunham ao regime, o qual estaria, segundo afirmavam, muito mais próximo de uma monarquia absolutista que de uma monarquia constitucional.
Buscavam, assim, elucidar a necessária transição para a república federativa, salientando a autonomia das províncias que, ligadas pelo princípio da solidariedade, preservariam a “comunhão da família brasileira”.
Segundo Fausto (2006, p. 227-228), enquanto alguns defendiam uma revolução popular, a maioria entendia que poderia haver uma transição pacífica após a morte de Dom Pedro II. Com a influência da doutrina positivista de August Comte9 na escola militar, surgiu uma “fórmula de modernização conservadora do país, atraente para os militares” (2006, p. 232-233), que optava por uma ditadura republicana, opondo-se ao republicanismo liberal.
Em 1883 iniciam-se vários desentendimentos entre governo, deputados e militares, e a partir de 1887 são intensificados os contatos entre líderes republicanos e militares, com vistas à derrubada da monarquia. Em uma reunião em 11 de novembro de 1889, o marechal Deodoro é convencido a liderar o movimento contra o regime, com o apoio de uma parcela expressiva da burguesia cafeeira de São Paulo (FAUSTO, 2006, p. 234). Sobre a Proclamação da República, segue o autor:
Nas primeiras horas da manhã de 15 de novembro de 1889, Deodoro assumiu o comando da tropa e marchou para o Ministério da Guerra, onde se encontravam os líderes monarquistas. Seguiu-se um episódio confuso para o qual existem versões diversas, não se sabendo ao certo se naquele dia Deodoro proclamou a República ou apenas considerou derrubado o ministério. Seja como for, no dia seguinte a queda da Monarquia estava consumada. Alguns dias mais tarde, a família real partia para o exílio.
(FAUSTO, 2006, p. 235).
Aristides Lobo (1889), em sua coluna Cartas do Rio no jornal Diário Popular, publicou a seguinte descrição do acontecimento:
9 As palavras “Ordem e Progresso” na bandeira brasileira foram inspiradas no lema do positivismo de Comte: “amor como princípio e ordem como base; progresso como meta”.
Eu quisera poder dar a esta data a denominação seguinte: 15 de Novembro, primeiro ano de República; mas não posso infelizmente fazê-lo. O que se fez é um degrau, talvez nem tanto, para o advento da grande era. [...]
Por ora, a cor do governo é puramente militar, e deverá ser assim. O fato foi deles, deles só, porque a colaboração de elemento civil foi quase nula.
O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava.
Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada. (LOBO, 1889 apud IMAGENS E HISTÓRIA, 2010, on-line).
Vê-se, portanto, que de fato a Proclamação da República em substituição ao regime monárquico brasileiro não foi fruto de um movimento popular, mas eminentemente militar. Tavares (2020, n.p.) ensina:
O declínio e queda do Império culminaram no golpe de Estado que, em 15 de novembro de 1889, proclamou a República. O Decreto n. 1, redigido por Rui Barbosa, foi expedido nesse mesmo dia, vindo então a funcionar como uma Constituição provisória e de emergência. Evidentemente que não se tratava de Decreto no sentido técnico [...], mas sim de verdadeiro texto normativo de transição, antessala da nova Constituição que viria a ser efetivamente proclamada.
A forma assumida em 188910, de forte inspiração norte-americana e materializada na Constituição de 1891, foi mantida em todas as constituições brasileiras posteriores. Note-se que por recearem uma ditadura republicana com Deodoro no poder, os defensores da República liberal apressaram a Assembleia Constituinte e o texto foi profundamente revisado por Ruy Barbosa, então Ministro da Fazenda do governo provisório.
A solução encontrada pelos norte-americanos para o problema alertado por Montesquieu (2000, p. 132), de que dificilmente uma república com grandes extensões territoriais pudesse subsistir11, qual seja, a forma federativa de Estado, foi também adotada pelo Brasil já em sua primeira república, em oposição ao Estado unitário.
Tal forma de Estado, caracterizado pelo compartilhamento do poder político por diversos núcleos de comando, que embora pulverizados pelo território, mantêm-se unidos por um pacto que não pode ser desfeito, o pacto federativo, igualmente subsiste na república brasileira até os dias atuais. Dessa maneira, cada
10 Artigo 1o do Decreto 1 de 15 de novembro de 1889: “O GOVERNO PROVISÓRIO DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL DECRETA: Fica proclamada provisoriamente e decretada como a forma de Governo da Nação brasileira - a República Federativa”.
11 Nesse sentido, Tocqueville: “A história do mundo não proporciona exemplo de uma grande nação que tenha permanecido por muito tempo república, o que levou a dizer que a coisa era impraticável”
(2005, p. 179).
membro e cada município age conforme sua pré-estabelecida competência e em prol do todo, em prol do bem comum.
Evidenciem-se as palavras de Ruy Barbosa (1946, p. 148) quanto à adoção da república federalista: “Eu era, senhores, federalista, antes de ser republicano. Não me fiz republicano, senão quando a evidência irrefragável dos acontecimentos me convenceu de que a monarquia se incrustara irredutivelmente na resistência à federação”. Essa justificativa pode ser explicada pela tendência à centralização do poder nas mãos do monarca, ainda que o Estado brasileiro enquanto monarquia constitucional previsse em sua Carta Constitucional a divisão dos poderes em executivo, legislativo e judiciário, pois apesar de independentes e harmônicos, o poder moderador de Benjamin Constant, exercido pelo monarca, sobrepunha-se aos demais (separação quadripartida de poderes).
Ainda sobre a anterior Constituição Imperial (de 1824), importante ressaltar que ela previa um legislativo exercido em Assembleia Geral, mas dependente de sanção imperial (FERREIRA FILHO, 2012, n.p.) e composto por duas casas, em que os senadores eram nomeados pelo Imperador e detinham mandatos vitalícios, e os cargos na Câmara eram temporários, porém o voto era indireto e censitário.
No ano de 1881, contudo, a Lei Saraiva trouxe uma pequena reforma eleitoral, estabelecendo o voto direto, mas mantido o requisito censitário. A partir de 1882, o voto passou a ser permitido aos naturalizados, aos libertos e aos não católicos, entretanto, proibiu-se o voto aos analfabetos. Apenas em 1889, já no início do Brasil República, o requisito censitário foi excluído.
Luís Roberto Barroso (2019, n.p.) escreveu sobre esse período no Brasil:
Começamos tarde. Somente em 1808 - trezentos anos após o descobrimento -, com a chegada da família real, teve início verdadeiramente o Brasil. [...]
Percorremos um longo caminho. Pouco mais de duzentos anos separam a vinda da família real para o Brasil e a comemoração do vigésimo quinto aniversário da Constituição de 1988. Nesse intervalo, a colônia exótica e semiabandonada tornou-se uma das dez maiores economias do mundo. O Império de viés autoritário, fundado em uma carta outorgada, converteu-se em um Estado constitucional democrático e estável, com alternância de poder e absorção institucional das crises políticas.
Desde que proclamada há mais de 100 anos, a República brasileira nunca deixou de ser uma república. Atualmente, conforme visto, a forma republicana de governo foi reafirmada pelos brasileiros mediante plebiscito em 1993, em atendimento ao artigo segundo do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias - ADCT.
2 O PARLAMENTO: ELETIVIDADE E TEMPORALIDADE
Observando-se a narrativa da história do republicanismo no Brasil, fica nítida a rejeição ao princípio monárquico e à soberania do imperador, contrastando com a busca pela consagração da soberania popular. Instauradas a república e a democracia representativa, o voto desempenha o papel fundamental de legitimação da soberania popular, fonte do poder político instituidor da república.
Sobre o voto, Tavares (2020, n.p.) ensina que “Pode-se seguramente considerar como a essência dos direitos políticos o reconhecimento do direito de votar e de ser votado”. Nas palavras de Silva (1997, p. 330), “os direitos políticos consistem na disciplina dos meios necessários ao exercício da soberania popular”. Ao aprofundar o conceito de direitos políticos, Tavares (2020, n.p.) afirma que:
[...] perfazem o conjunto de regras destinadas a regulamentar o exercício da soberania popular. Com isso requer-se significar que a expressão ‘direitos políticos’ é utilizada em sentido amplo, para designar: A) o direito de todos participarem e tomarem conhecimento das decisões e atividades desenvolvidas pelo governo; B) o Direito Eleitoral; e C) a regulamentação dos partidos políticos. Em síntese, pode-se afirmar que é o conjunto de normas que disciplinam a intervenção direta ou indireta, no poder.
Para Hans Kelsen (1995, p. 286), “o direito ao sufrágio é o direito do indivíduo de participar do processo eleitoral, dando o seu voto”, que também é costumeiramente chamado de “direitos políticos ativos”, ou “capacidade eleitoral ativa”. Ao exercerem tal direito e tal capacidade, os cidadãos escolhem seus representantes conforme as normas eleitorais vigentes.
Silva (1997, p. 105), citando Ruy Barbosa, escreve:
[...] o que discrimina a forma republicana não é apenas a coexistência dos três poderes, indispensáveis em todos os governos constitucionais, mas, sim, a condição de que, sobre existirem os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, os dois primeiros derivem, realmente, de eleições populares.
“Eleição popular e periódica” (GOMES, 2016, p. 55). Quer dizer, a transitoriedade dos mandatos atinente à forma republicana de governo está implícita em uma Carta Constitucional pela periodicidade do voto, e expressada via tempo de duração dos mandatos. A possibilidade de que representantes eleitos sejam escolhidos novamente no pleito seguinte ou no futuro, no mesmo ou em outro cargo, também guarda íntima relação com a alternância republicana, e, por tal razão, é
possível que o ordenamento jurídico autorize ou limite a recandidatura de representantes já eleitos, visando atender ao princípio da temporalidade dos mandatos.
Se a transitoriedade do poder pelas mãos do povo é característica dos Estados
Se a transitoriedade do poder pelas mãos do povo é característica dos Estados