Com relação à importância histórica, nota-se que, a partir do final da II Guerra Mundial, a perseguição nazista aos judeus levou a uma regulação, pela comunidade mundial, sobre o termo refugiado. Naquela ocasião se falava em refugiado por um enfoque coletivo, em que grupos étnicos sofreram privação de suas liberdades, com perigo até mesmo de extinção, como os judeus. No decorrer do século XX, o termo ganhou uma percepção mais peculiar, passando a ser usado também para indivíduos ou pequenos grupos de indivíduos, para justificar as perseguições e execuções no continente africano, que sofriam com diversas guerras civis levando à uma crise humanitária, sem precedentes. (JUBILUT, 2007)
O estabelecimento do Instituto do Refúgio surgiu em 1919, no contexto da Liga das Nações, após a Primeira Guerra Mundial. Fischel de Andrade afirma que o estudo dos refugiados pode ser dividido em duas fases. Na primeira, que durou de 1921 a 1939, o conceito compreendia os grupos étnicos ou nacionais a que pertenciam os refugiados. Já na segunda fase, de 1938 a 1951, o foco era o indivíduo que buscava proteção, com foco na necessidade de assegurar as pessoas que haviam sido afetadas por algum acontecimento político ou social, independente da definição de seu grupo. (FISCHEL DE ANDRADE, 1996)
A convenção de Genebra de 1951, que estabeleceu as regras internacionais sobre o refúgio e o seu protocolo de 1967, são considerados a base do direito internacional sobre os refugiados. Segundo Barichello (2014), após a Segunda Guerra Mundial surge a preocupação internacional com a dignidade humana, as atrocidades cometidas durante o holocausto motivaram o reconhecimento do status de refugiados. (BARICHELLO, 2014)
Atualmente, o Direito Internacional para os Refugiados regula as ações relativas ao assunto, sob a coordenação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). No Brasil foi criado, em 1997, o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), órgão de gerenciamento e execução no território nacional, que mostra o avanço e a preocupação do país com o assunto.
3.3 CONCEITO DE REFUGIADOS, DESLOCADOS INTERNOS E APÁTRIDA
Os problemas transfronteiriços, normalmente, ocorrem como consequência da existência de Estados Fracassados. Nestes locais, sucedem a evasão de grandes contingentes populacionais para regiões vizinhas, sob a forma de refúgios, na busca de necessidades básicas como alimentação, moradia, educação e segurança.
Segundo Andrew Natsios (1997), deve ficar bem evidente o completo rompimento da autoridade do poder de polícia e da manutenção da ordem pública do Estado, bem como, crise econômico-financeira severa, insegurança alimentar generalizada e grande fuga para os países fronteiriços para poder comprovar a crise humanitária de um Estado Fracassado.
O deslocamento forçado ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, principalmente dos judeus, estimulou a criação do Estatuto dos Refugiados de 1951 e pode-se observar que durante a Guerra Fria os conflitos tiveram, em sua maioria, viés ideológico e os movimentos populacionais eram contidos pelas disputas entre os dois blocos capitalista e socialista. O cenário internacional atual viu reacender o fenômeno trazendo para o foco principal da mídia o caso dos refugiados, especialmente o que vem ocorrendo no continente africano.
A primavera árabe, iniciada em 2010 na Tunísia e depois espalhada para os demais países do norte da África e Oriente Médio, intensificou a fuga desses países em guerra civil e encorajou milhares de pessoas a correrem risco de morte em uma travessia do Mar Mediterrâneo em busca de uma vida melhor. Na África subsaariana,
impossibilitados pelo grande deserto do Saara, esses movimentos populacionais se restringem aos países vizinhos com semelhanças culturais e religiosas.
Quando se refere ao conceito de refugiado, trata-se de pessoas que saem de sua terra natal por sofrerem perseguições, normalmente, motivadas por conflitos civis, questões de raça ou religião, nacionalidade, grupo social rival, opiniões políticas contrárias ou violação dos direitos humanos. Em virtude desse perigo e temor, essas pessoas não podem ou até mesmo não querem valer-se da proteção desses Estados e são rejeitados pelos mesmos, ficando impossibilitadas de retornarem para seus lares.
De acordo com o Estatuto dos Refugiados, em seu Artigo 2º - Obrigações gerais: “Todo refugiado tem deveres para com o país em que se encontra, os quais compreendem notadamente a obrigação de se conformar às leis e regulamentos, assim como às medidas tomadas para a manutenção da ordem pública”.
Os critérios para determinar a condição de refugiado constam em seu estatuto de 1951. Esse processo de definição ocorre em duas etapas. Na primeira, é necessário comprovar os fatos dos acontecimentos em cima dos refugiados. Na segunda, é preciso aplicar os conceitos definidos pela Convenção de 1951 e pelo Protocolo de 1967 em cima dos fatos ocorridos, ficando assim oficializado a situação de refugiado.
Já os conceitos sobre deslocados internos se referem às pessoas deslocadas dentro de seu próprio país, porém com as mesmas motivações dos refugiados. Mesmo sofrendo essa violência generalizada, estas pessoas não cruzam as fronteiras de seus países e, por isso, permanecem legalmente sob a proteção do Estado. Neste caso, o impacto atinge uma determinada região dificultando ainda mais a recuperação deste país.
Alguns autores, como Jane McAdam (2012), consideram o termo refugiados climáticos ou ambientais como as pessoas obrigadas a abandonar sua cidade ou país devido a mudanças no meio ambiente, porém esse conceito não possui amparo no ordenamento jurídico mundial. As principais causas dessa migração são a desertificação, secas e aumento do nível do mar. Atualmente, esse tipo de movimento populacional ocorre na África devido a desertificação e nas ilhas Carteret, no Golfo da Guiné, onde o aquecimento global fez aumentar o nível do mar, obrigando a retirada de cerca de 2000 pessoas. (MCADAM, 2012)
A Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados, de 28 de julho de 1951, discorreu sobre a situação dos apátridas que também são considerados refugiados, deixando de abranger outros casos de apátridas. Consequentemente, se fez necessária a realização da Convenção Sobre o Estatuto dos Apátridas, aprovada em Nova Iorque, em 28 de setembro de 1954. Esta Convenção definiu apátrida como sendo: “toda a pessoa que não seja considerada por qualquer Estado, segundo a sua legislação, como seu nacional”. Portanto, os apátridas podem nascer sem nacionalidade ou ter sua nacionalidade negada por um Estado, ficando sem a proteção do mesmo, um bom exemplo seriam os judeus dentro da Alemanha Nazista, durante a primeira metade do século XX, também pode ocorrer quando o Estado deixa de existir, deixando sua população sem nacionalidade.
Com essas definições anteriormente expostas, pode-se ter uma ideia do referencial teórico em torno do continente africano, especialmente dos aspectos em torno do fracasso de um país. Esses conceitos e conhecimentos foram importantes para a pesquisa e possibilitaram a condução dos trabalhos por este pesquisador.
4. A GEOPOLÍTICA DOS CONFLITOS NA REPÚBLICA CENTRO-AFRICANA
Historicamente, o mundo sempre viveu em intensos conflitos por motivos diversos, como lutas pela independência, pela conquista de territórios, por riquezas naturais, por questões religiosas, étnicas, dentre vários outros motivos. Em quase todos os continentes é possível verificar focos de conflitos envolvendo alguns dos temas acima, comprometendo a paz e a segurança da população local.
No continente africano essas tensões são constantes, principalmente na África Subsaariana. Na parte central, vários países, como a República Centro-Africana, a Angola e os Camarões, são tomados por uma violência generalizada, pressupondo um descaso das autoridades e dos líderes locais.
Os capacetes azuis, como são conhecidos os militares a serviço da Organização das Nações Unidas, que tem como missão a estabilização dos países em crise, têm intervindo no continente africano por décadas buscando construir um ambiente de paz duradoura.
De acordo com o site da ONU, a Missão de Estabilização da Organização das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUSCO) é a maior e a mais cara de todas. Atualmente, consome cerca de 20 mil militares, com um custo anual de aproximadamente 1,4 bilhões de euros. Desde seu início em 1999, essa missão tenta pacificar, sem sucesso, a região norte do país e já contou com o General do Exército Brasileiro Carlos Alberto dos Santos Cruz, como um de seus comandantes.
Atualmente, a grande maioria dos conflitos na África são interestatais e de grande complexidade, com inúmeros atores, estatais ou não, internos e externos, o que exige das forças oficiais a criação de condições sustentáveis, imprescindíveis, para a consolidação da paz. Este complexo mecanismo nem sempre tem o sucesso esperado trazendo de volta conflitos em áreas já pacificadas.
Nos conflitos mais complexos cresce de importância os programas de desarmamento, desmobilização e reintegração (DDR) - ou desarmamento, desmobilização, reintegração e reabilitação (DDRR), essenciais para os países em processo e em busca da paz. Esses programas são efetivos quando associados à ajuda humanitária, à reforma dos setores de segurança e ao acompanhamento dos direitos humanos. Se não executado corretamente podem impulsionar o recrutamento
ilegal para os grupos armados, beneficiando as forcas irregulares dentro de um conflito.
Alguns desses programas de DDRR, são coordenados por Organismos Internacionais (OI), como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), além de Organizações Não-Governamentais (ONG) e visam atingir as comunidades que necessitam de ajuda econômica e social, ao mesmo tempo, que buscam afastar os elementos armados inseridos nestas comunidades, que utilizam dessas armas para manter seus meios de subsistência e de sua proteção.
O conflito na RCA assume papel relevante na África Central, na medida que possui duração longa, com características bastante agressivas e que vem gerando uma onda de refugiados, sem precedente no país. Segundo o site das Nações Unidas, uma Comissão Internacional de Inquérito foi criada pelo Conselho de Segurança e concluiu que os principais atores do conflito na RCA cometeram graves violações dos direitos humanos e humanitários internacionais, constituindo crimes de direito interno e do Estatuto de Roma de 1998 (un.org, 2018).
O crime é generalizado em todo o país, incluindo roubo, destruição de propriedades e casas, posse ilegal de armas, sequestro, assassinatos, torturas e violência sexual. Para piorar a situação, o Exército Nacional da RCA (FACA) foi desarmado, devido à suspeita de envolvimento na violência contra a população, além da corrupção e indisciplina, dentro da instituição.
Após estas análises iniciais, serão mostrados estudos sobre as origens dos conflitos na RCA, bem como, um panorama do que vem ocorrendo na atualidade e sua ligação com a problemática da falência do país e as possíveis consequências para a África Central.
4.1 HISTÓRICO DOS CONFLITOS NA RCA
Desde a sua independência em 1960, a RCA vem enfrentando conflitos violentos. Estas hostilidades se incorporaram no país, ao longo dos anos, em uma intensidade que contaminou a política, denegriu as instituições estatais, as estruturas sociais e democráticas e o sistema judiciário, além de ter levado as Forças Armadas ao flagelo.
De acordo com Wendy Isaacs-Martin (2016), doutora na Universidade da África do Sul (UNISA), a RCA experimenta uma violência incomum, com execuções extrajudiciais, torturas, prisões, detenções arbitrárias e corrupção desenfreada do Estado. Além disso, conta ainda, que existem múltiplos atores estatais e não estatais envolvidos nesta violência, contribuindo para uma sociedade extremamente violenta. (ISAACS,2016)
Os relatórios do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) revelam que o movimento de refugiados e deslocados internos, na RCA, se intensificaram nos últimos cinco governos, o de Patassé, de Bozizé, de Djotodia, o de transição de Samba-Panza e o atual de Touádera, comprovando a escalada da violência e a mudança das relações entre os líderes, os exércitos e as milícias, deflagrando conflitos mais intensos nas transições destes mandatos. Esse caminho de violência, marcado pelas atrocidades cometidas por diversos atores criaram um ambiente de medo e desespero nas populações das diversas comunidades do país.
A composição dos grupos rebeldes nem sempre é formada, em sua totalidade, por membros de uma determinada classe religiosa ou étnica, na maioria dos casos incluem pessoas ou grupos com interesses em se beneficiar de questões políticas, econômicas ou até mesmo territoriais.
Isaacs (2016) argumenta que os conflitos têm início quando os grupos percebem que estão sendo excluídos, marginalizados ou que outros grupos estão recebendo tratamento preferencial ou sendo favorecidos em questões diversas. Como no país as pessoas são inseridas pela etnia, religião ou lealdades tribais, elas são facilmente convencidas de que seu grupo pode estar sendo explorado. A doutora diz ainda, que esses sentimentos podem gerar consequências sociais danosas, que em sua forma mais extrema, levaria a uma tentativa de limpeza étnica ou religiosa. (ISAACS, 2016)
De acordo com o site acnuk.org do Aid to the Church in Need (ACN) ou Ajuda à Igreja que Sofre, em português, a população muçulmana, na RCA, permanece em quantidade desproporcional e se encontra deslocada na parte ocidental do país ou encurralada em locais aonde existem a proteção das forças para a manutenção da paz, de onde não conseguem praticar a sua religião livremente. Ainda segundo o site, no final de 2014, cerca de 80% dos muçulmanos do país foram expulsos de suas aldeias e em meados de 2016, os que puderam pagar por sua viagem, regressaram
ao país, sobretudo ao enclave tradicional muçulmano da capital Bangui, conhecido como “Kilometre Cinp” (Quilômetro cinco).
Entre setembro e outubro de 2015, a capital Bangui foi palco de uma escalada de violência quando encontraram, na madrugada de 26 de setembro, o corpo de um jovem motorista de moto-táxi no 8º distrito de Bangui, predominantemente cristão. O seu corpo foi abandonado em frente da mesquita de Ali Babolo, no bairro muçulmano K5 e os possíveis acusados tinham tatuagens com os dizeres: “Feliz festa do Tabaski”, importante comemoração do calendário islâmico no final da peregrinação a Meca. Por esse motivo, milícias muçulmanas atacaram o vizinho 5.º distrito, com predominância de cristãos, disparando as suas armas e incendiando centenas de casas. Horas mais tarde, centenas de rebeldes Anti-balaka travaram batalhas sangrentas com os Ex-Seleka (acnuk.org, 2018).
Os conflitos locais são por recursos naturais e pela busca de subsistência rural da agricultura e da pecuária. A comunidade Peuhl se movimenta sazonalmente, levando seu gado para outras pastagens, principalmente na região entre o Sudão, o Chade e os Camarões executando, a séculos na região, a transumância, deslocamento dos pastores com seu gado em busca de novas pastagens. Porém, as pressões populacionais recentes exacerbaram este tipo de conflito no país. (MCGREW, 2016)
A história colonial da RCA sob o domínio francês, o comércio ilegal de escravos e o medo constante dos invasores fronteiriços levou a um sentimento atual na população de que o país estaria sendo invadido e saqueado novamente por estrangeiros. Por esse motivo, as forças de paz no país têm sido frequentemente, vistas como tendenciosas e que essa falta de neutralidade ficava clara com a nacionalidade das tropas das missões de paz, em sua maioria de países africanos. Outro motivo, é o posicionamento das tropas camaronesas e da RDC estacionadas ao longo da fronteira da RCA, aumentando o sentimento de invasão.
Segundo as Nações Unidas, os recentes ataques a tropas da MINUSCA, principalmente por elementos Ex-Seleka e Anti-balaka, podem ter sido motivados por animosidades históricas, devido à composição dessas tropas. Além disso, os indícios do envolvimento das tropas da União Africana (UA), do Chade e do Congo na morte ou o desaparecimento de civis, acalentaram as agressões recentes às tropas federais da ONU(un.org, 2018).
A exploração do conflito pelos países vizinhos e por seus apoiadores internacionais resultaram na proliferação de armas, agentes saqueadores, ladrões de gado, contrabandistas de diamantes e na exploração de recursos através das fronteiras. Com isso, se faz necessário um estudo das redes de apoio e financiamento dos grupos rebeldes, para melhorar a compreensão da dinâmica do conflito na RCA.
Outro ponto importante, são as dimensões espirituais do conflito. A crença de alguns grupos armados em feitiçaria, como os Anti-balaka e a alta incidência da justiça popular ou da máfia relacionada à punição de crimes de feitiçaria, bem como os outros crimes contra crenças espirituais, ainda existentes no país, tornam o conflito na RCA ainda mais complexo. Desta forma, as práticas e crenças de magias são tão importantes que os tribunais oficiais recebem muitos casos de feitiçaria e muitas vezes as alegações de bruxaria levam à justiça à sérias violações dos direitos humanos (DUKHAN, 2016).
A RCA é um país sem saída para o mar, localizada no coração da África. Os conflitos nos países localizados nesta região central são agravados pelo fato das fronteiras serem porosas e de fácil migração entre os países. Os conflitos nos países fronteiriços agravam esta situação, pois os combatentes rebeldes da RDC e do Chade transpõem as fronteiras da RCA em busca de mais espaço no cenário de caos regional.
Como muitos exércitos em outras partes da África, a FACA conta com efetivo insuficiente, é mal treinada, mal disciplinada e mal preparada para enfrentar os movimentos rebeldes e as milícias, somados a isso, pesa ainda a suspeita de cometerem atrocidades contra os civis, queimando e saqueando casas e até mesmo cometendo violência sexual contra a população.
Esta abordagem histórica dos conflitos na República Centro-Africana possibilita um melhor entendimento do que vem ocorrendo, atualmente, no território do país, facilitando o prosseguimento desta pesquisa.
4.2 QUESTÕES ATUAIS
Os conflitos atuais na RCA estão relacionados a motivos como a fragmentação da segurança entre o estado e os grupos armados, o próprio conflito entre os grupos armados, a falha nos serviços estaduais, a contestação política violenta sobre a
população, a competição por recursos do país, o conflito agropastoril, os refugiados e os deslocados internos que retornam aos seus lares.
As altas taxas de criminalidade são frequentemente relacionadas ao conflito entre os vários grupos armados existentes no país. A privação econômica sofrida pela maior parte da população agrava a situação caótica em que vive a RCA. Atualmente, o principal conflito armado acontece entre as forças dos Ex-Seleka, primariamente muçulmana, versus os Anti-balaka, principalmente cristã. Este conflito é uma potente mistura de fatores políticos, religiosos, étnicos e familiares, com raízes na busca de poder político, de recursos diversos e da necessidade de segurança de suas comunidades.
Os muçulmanos e cristãos, de uma maneira geral, não são representados pelas milícias dos Ex-Seleka e Anti-Balaka, respectivamente, nem as comunidades muçulmanas e cristãs os apoiam. Tal como o Seleka, o próprio Anti-Balaka é uma milícia, composta por várias facções de origem étnica semelhantes, porém com maioria cristã. Da mesma forma que as outras milícias, ela luta por acesso político e ganho material escondido atrás da fachada de autodefesa e autopreservação.
Os líderes de grupos rebeldes usam a ligação étnica-religiosa entre as pessoas de uma determinada tribo ou bairro para estimular as hostilidades aos grupos externos, exacerbando os conflitos e a violência na RCA. Esses sentimentos são interpretados como autodefesa e que por se considerarem vítimas justificam os ataques preventivos acreditando que suas vidas estão em perigo.
O recrutamento se torna relativamente fácil, pois os rebeldes usam esses laços religiosos, culturais e étnicos para cooptar mais pessoas, dando um caráter de rivalidade entre os muçulmanos e os cristãos. Outro fator importante é que primeiro eles estabelecem entidades de autodefesa com a finalidade de proteger as aldeias e comunidades e após conquistada a confiança e a sensação de segurança, fica mais fácil recrutar novos integrantes motivados pela pobreza e pelo medo.
A cooptação de crianças soldados é um problema grave na região central da África e principalmente na RCA. Na falta de serviços sociais e de infraestrutura estadual, muitos dos jovens centro africanos não puderam prosseguir com sua educação e esse ambiente adverso propicia o recrutamento de jovens e crianças para os grupos rebeldes. A sua maioria é utilizada em núcleos de defesa nas zonas rurais e no interior do país.
As exportações de diamantes foram interrompidas, a partir de 2013, com a intensificação dos conflitos. O processo Kimberly é um procedimento de certificação da origem dos diamantes. Os principais compradores e produtores do mundo se reuniram na cidade de Kimberly, África do Sul, em 2000, para tomarem as soluções