Mapa 21 – Mapeamento de pixos e graffiti no Benfica
2 PERCALÇOS METODOLÓGICOS, A BUSCA DE UM NOVO OLHAR
3.1 Aspectos históricos e descrição do bairro
A proposta desse subcapítulo é apresentar ao leitor resumidamente a história e descrição do bairro Benfica concomitante à exposição de ilustrações e mapas feitos a partir do olhar da pesquisadora em seus percursos etnográficos, também da apresentação de fotografias do Benfica através da leitura do bairro feita pelo pixador Vampyro AC. Em um segundo momento as falas dos interlocutores são utilizadas para representar a importância desse bairro na história da pixação de Fortaleza.
Nossa! Benfica é um paraíso. O bairro do Benfica que não seja descoberto, que não se corrompa que não chegue outras pessoas ai e façam como fizeram e como estão fazendo em outros bairros, que o Benfica seja sempre esse marasmo de possibilidade, de virtude. Que o Benfica é um bairro que tem tudo, ta do lado do centro tem uma praia, a pé em quinze minutos você chega na praia, tem parada pra todos os terminais, tem shopping, tem universidade, tem curso de inglês, tem pracinha, tem praça de skate. A maioria dos transeuntes que você vê são pessoas jovens são todos universitários que você vê que sempre estão portando uma mochila nas costas, alguém que para pra falar com você... Muitas árvores, eu acho que essa questão do ambientalismo ele é bem, não é bem, mas ele ainda é, ele existe. A questão também da autocultura das pessoas do Benfica, acho que o Benfica ele torna Fortaleza mais humana, sabe? (Vampyro AC)
Fotografia 03 – “Caixa de Morpheu”
Fonte: Vampyro AC (2014).
Legenda49: Pixações de várias gerações permeiam o tempo e condições climáticas nas Caixa d’água do centro tendo então outras cargas.
Segundo Barroso50 a cartografia do bairro Benfica51 começa no sentido norte-sul
nas caixas d’água da Rua Antônio Pompeu até a Avenida Eduardo Girão52, e no sentido leste-
oeste da rua Senador Pompeu e sua continuação na avenida dos Expedicionários até a avenida
Carapinima53 alargando-se, nas proximidades do shopping Benfica, nas ruas Justiniano de
Serpa e Dom Jerônimo e também contemplando o último trecho da avenida do Imperador.
49 As legendas apresentadas em algumas imagens foram escritas por Vampyro AC e compõem suas fotografias.
Ambas foram gentilmente cedidas por Vampyro AC para compor essa pesquisa.
50 BARROSO, Francisco de Andrade. O Benfica de ontem e de hoje. Fortaleza, 2004.
51 “Foram os portugueses que lhe deram o nome, tirado de um bairro da velha Lisboa.” (Ibid., p.09)
52 A atual Avenida Eduardo Girão era chamada antigamente por Riacho do Tauape, esse riacho era o limite
natural do Benfica. (Ibid.)
Mapa 04 – Limites cartográficos do bairro Benfica
Fonte: Ilustração da autora e mapa de Bruna Beserra (2015).
O Benfica, assim como o Jacarecanga, foi um bairro desenvolvido inicialmente por sua função residencial ao abrigar famílias ricas e influentes no mercado de Fortaleza e de uma classe média emergente de funcionários públicos e profissionais liberais. Na organização da estrutura urbana de Fortaleza foram construídas vias que viabilizassem o escoamento da produção de Fortaleza, como das indústrias instaladas no final do século XIX na parte oeste da cidade.
A primeira indústria têxtil instalada em Fortaleza foi a fábrica Tecidos Progresso, em finais do século passado. Posteriormente, outras atividades industriais também se implantam em Fortaleza, beneficiando matérias primas da agricultura e principalmente do extrativismo. Implantaram-se assim fábricas como Siqueira Gurgel, que fabricava sabão e óleo comestível, Brasil Oiticica fabricante de óleos e Philomeno Gomes produtora de tecidos a partir do algodão, para o abastecimento do mercado interno.
A maioria dessas indústrias localizava-se na região oeste de Fortaleza, nas imediações da Francisco Sá – Jacarecanga, bairro que no final do século XIX, rivalizava com o Benfica, como espaço escolhido pelas elites do Estado, para a construção de palacetes e chácaras. (VASCONCELOS JÚNIOR, 1999, p.32-33) A reforma urbana de Fortaleza (iniciada por Silva Paulet, em 1823) com continuidade de Adolfo Herbster, previa em sua planta de 1875, uma ordenação da cidade em formato xadrez com a aberturas de novas ruas. Uma dessas vias principais era a atual Avenida
da Universidade54, também chamada de boulevard, como eram chamadas as notáveis avenidas
abertas em Paris do século XIX. A Avenida da Universidade era larga o bastante para dar
vazão ao tráfego dirigido à Porangaba,55 essa por muito tempo só possuía revestimento na
faixa central com pedras e trilhos de madeira para o tráfego de bondes puxados por burros. A partir de 1914 os bondes eram elétricos pertencentes à The Ceará Tramway, Light and Power & Company Limited.
Nessa época, o movimento de veículos praticamente se restringia aos bondes e à numerosas carroças, a par de grandes comboios de cargueiros; quando aumentou o número de automóveis, e começaram a aparecer os primeiros ônibus, os trilhos foram passados para junto ao meio fio próximo às casas de números pares, e todo o restante da avenida foi calçamentado. (BARROSO, 2004, p.23)
Foi nas margens da Avenida da Universidade que se formou o bairro Benfica56. A
nova estrada possuía chácaras em suas margens, um dos proprietários destas, João Antônio do Amaral, devoto de Nossa Senhora dos Remédios fez voto de construir-lhe um templo, que foi pago por sua viúva. A construção tardou, sendo inaugurada somente em 13 de agosto de 1910.
54 Era chamada antigamente por Avenida Visconde do Cauipe. (Barroso, 2004)
55 Barroso (2004) narra que o nome Porangaba é de origem indígena e que nessa localidade havia aldeiamentos
dos índios denominados Algodões, mas quando os jesuítas foram expulsos, em 1759, o Marquês de Pombal exigiu que fossem substituídos todos os topônimos indígenas, e o nome Porangaba foi substituído por Arronches. (Ibid., p.218)
56 Segundo Pereira (2008, p.57e58) por volta de 1920 as classes sociais mais abastadas de Fortaleza migraram
para áreas onde hoje se localizam os bairros Jacarecanga, Benfica e Parangaba. A paisagem do Benfica destacava-se por suas chácaras com manguerais, mansões e o campo do Prado (hoje atual Estádio Presidente Vargas).
Desenho 05 – Igreja Nossa Senhora dos Remédios
Fonte: Ilustração da autora (2014).
Ao lado da igreja havia a “Casa das Missões” residência dos padres holandeses pertencentes à Congregação das Missões fundada em Paris, em 1625, e chegada ao Ceará em 1864. Essa casa deu origem ao Hospital Mira y Lopez, em 1969, hoje demolido para erguer um prédio residencial.
No próximo quarteirão, em sentido sul, abriga o “Dispensário dos Pobres do Sagrado Coração”, mantido sob os cuidados da Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. E logo mais o Recanto do Sagrado Coração, inaugurado em 28 de agosto de 1998, para acomodar senhoras idosas. Ao lado, o que hoje é o Motel Chalet, era uma bodega e os trilhos do bonde elétrico chegavam até ali juntos aos paralelepípedos.
Após algumas casas, vinha a casa do Senhor Francisco Anísio de Oliveira Paula, pai do humorista Chico Anísio (1931-2012), esse senhor foi o primeiro dono dos ônibus do Benfica, com a garagem da Empresa São José localizada nos fundos de sua casa. Nesse local foram construídos prédios que representam hoje o Condomínio Lisboa. Ao lado deste encontra-se a Escola de Ensino Fundamental Centro dos Retalhistas, fundada em 02 de abril de 1937, quando se destinava aos filhos dos associados comerciantes varejistas de secos e molhados, os célebres “bodegueiros” de Fortaleza. (Barroso, 2004, p.237)
Mais a frente o chão de concreto marcava o começo da Avenida João Pessoa, após a Rua Padre Cícero houve ali a vacaria de Pompílio Ferreira dos Santos que era também comerciante em Maranguape. (Barroso, 2004, p.241)
Mapa 06 – Benfica Parte I
Fonte: Ilustrações da autora e mapa de Bruna Beserra (2014).
Segundo Vasconcelos Júnior (1999) a partir da década de 1950 as famílias ricas de Fortaleza escolhem a nova área da Aldeota como moradia, deste modo, os bairros Jacarecanga e Benfica iniciam um processo de deterioração e mudança funcional. Essa deterioração não foi sentida no Benfica pela possibilidade de compra dos imóveis pelos antigos inquilinos. Outro fator que favoreceu o Benfica foi a instalação da Universidade Federal do Ceará nesse bairro com a aquisição e manutenção das tradicionais arquiteturas.
Ainda na Avenida da Universidade, uma residência de posse do Doutor Edgar Cavalcante de Arruda foi vendida à Universidade Federal do Ceará (UFC) em 20 de novembro de 1957, conservada a estrutura tornou-se a Rádio Universitária. Ao lado desse terreno chegando até a Avenida Treze de Maio, era o Colégio Santa Cecília que foi demolido
e, hoje, compreende o Departamento de Arquitetura da UFC e o Museu de Arte da UFC (MAUC).
Desenho 07 – MAUC
Fonte: Ilustração da autora (2014).
Onde hoje é o Centro de Humanidades da UFC eram várias moradas que foram adquiridas pela Universidade, algumas destruídas, outras conservadas como a casa do Senhor Francisco Queiroz Pessoa que hoje abriga o prédio da Cultura Germânica na esquina da Avenida da Universidade com Treze de Maio.
Desenho 08 – Bloco da Cultura Germânica UFC
Fonte: Ilustração da autora (2014).
A sede da Reitoria da UFC foi morada do Senhor José Gentil Alves de Carvalho (1867-1941), patriarca de uma grande e rica família que adotou como sobrenome o seu segundo nome próprio, Gentil. José Gentil era de Sobral-CE e casou-se com uma moça de uma também poderosa família conterrânea, os Frota de Sobral. Estabeleceu-se em Fortaleza em 1893 inicialmente com comércio de tecidos, depois ergueu o Banco Frota Gentil, em 1917. Em 1934, para melhor administrar seus imóveis abriu a Imobiliária José Gentil S.A.,
“não queria misturar política com negócios, mas aceitou, em certa época, ser eleito Vice- Presidente do Ceará.” (BARROSO, 2004, p.248)
A casa principal da família Gentil foi vendida à Universidade por Cr$5.000.000,00 em 08 de outubro de 1956, dentro do terreno existiam outras duas casas. “A Universidade pôs abaixo as duas casas menores e ampliou, enormemente, a principal, acrescendo-lhe uma ala paralela à Rua Paulino Nogueira e uma grande haste horizontal unindo as duas.” (BARROSO, 2004, p.252)
Desenho 09 – Reitoria UFC
Fonte: Ilustração da autora (2014).
Na quadra da Rua Paulino Nogueira morava o Senhor João da Frota Gentil, filho de José Gentil, sua casa luxuosa foi demolida e hoje compreende-se os anexos da UFC como os Departamentos de Ciências Sociais e Filosofia, a Editora da UFC, a Farmácia Universitária e uma agência dos Correios. Outra casa nessa quadra foi demolida para abrigar o Conselho Regional de Contabilidade.
O Coronel José Gentil de posse do quadrilátero que compreende as avenidas da
Universidade, Treze de Maio e as ruas Marechal Deodoro e Adolfo Herbster57 abriu ruas e
utilizou o terreno da forma mais lucrativa possível, construindo vilas e casas para alugar, com pequenas exceções. As ruas nomeadas pelo abastado Senhor Gentil eram declaradas ruas particulares como se estivessem contidas em um condomínio fechado. (Ibid., p.321)
57 Segundo Barroso (2004) o terreno de propriedade do Cel. José Gentil não ia até a margem da Lagoa do
Tauape, outrora existente, que veio a tornar-se a Rua Antenor Frota Wanderley. No entanto, o documento que oficializa o bairro Gentilândia prolonga essa delimitação da Rua Adolfo Herbster para a Avenida Eduardo Girão. O documento data de 27 de junho de 2000, sancionado pela Câmara Municipal de Fortaleza no projeto de lei nº434/99 do vereador Narcílio Andrade. (VIANA, 2009, p.24-25)
As casas eram de vários tamanhos e tipos, destinadas às várias camadas da sociedade. Agrupadas em quarteirões elas foram formando o pequeno bairro que passou a ser
conhecido como Gentilândia58. O autor narra a existência de pelo menos quatro praças na Vila
Gentil. Quando a administração daquela área passou para a Prefeitura duas dessas praças foram reinvidicadas pelos herdeiros da família Gentil passando a serem loteadas. Restou como espaço público preservado a Praça José Gentil e a Praça da Feira da Gentilândia.
Desenho 10 – Praça José Gentil
Fonte: Ilustração da autora (2014).
A Praça José Gentil é um espaço convidativo para práticas de esporte e lazer. Recentemente, ela recebeu novas instalações de equipamentos esportivos para prática de musculação somando à quadra de futebol e às sombras das mangueiras resulta em um lugar valorizado para atividades físicas. Seus vários bancos sob as árvores, quiosque de vitamina, banca de revista, parada de ônibus e pontos de taxistas e moto taxistas contribuem diariamente
58 Pereira (2008) relata em sua dissertação Lugares no bairro: uma etnografia no Benfica a crença dos residentes e ex-moradores do Benfica que destacam a Gentilândia como lugar de memória e de tradição na cidade de Fortaleza. A autora narra que, em 2001, um movimento dos moradores da Gentilândia tentou fazer da área um bairro autônomo do Benfica, na tentativa de fazer vigorar o projeto de lei 434/99 que denomina a Gentilândia como um Bairro de Fortaleza.
Segundo Viana (2009) a tradição desse bairro ganhou em 2006 um espaço expositivo no bar do Marcão, o Memorial da Gentilândia. “Cuja proposta é descrever, por meio de fotografias e depoimentos, diversos elementos da história desse lugar, como a origem do nome, a educação, os prédios, as personalidades do bairro entre outros.” (VIANA, 2009, p.28)
para o fluxo de pessoas na praça. Em frente à esta, um terreno estreito na rua Paulino Nogueira pertencente a UFC da lugar à estrutura da Residência Universitária. Prédio de três pavimentos com um auditório e hall no térreo e 12 quartos nos pavimentos superiores.
Desenho 11 – Residência Universitária
Fonte: Ilustração da autora (2014).
Desenho 12 – Praça da Feira da Gentilândia
Fonte: Ilustração da autora (2014).
A Praça da Gentilândia é um espaço ambiental de variados usos ao longo dos dias e horários da semana. Durante o dia sua calçada e bancos de madeira estimulam caminhadas, encontros e bate-papos. Em 2013, um projeto de revitalização de três praças em Fortaleza contemplou a Praça da Gentilândia com uma área para praticantes de skate, piso polido e
rampas de acessibilidade. As pistas de skate foram coloridas por frases e imagens representando o esporte. À noite, variadas barracas de comida ocupam parte do espaço para atender a demanda de estudantes, moradores e transeuntes. Aos domingos a praça recebe as tendas dos feirantes que vendem frutas e verduras.
A Feira Livre na Praça da Gentilândia data mais de sessenta anos e era de grande significado para os habitantes dali. Havia a venda de gêneros alimentícios, verduras, frutas, aves vivas e cortes de carne expostos sem as devidas preocupações com as regras sanitárias. Também eram vendidos itens de cerâmica, artigos de flandre, regadores de jardim e etc. (Barroso, 2004, p.326-327)
Isso, porém, foi mudando, com a chegada dos mercadinhos e dos supermercados, e as exigências da fiscalização, trabalhista, do Imposto de Circulação de Mercadorias, da Saúde, e hoje a feira não representa nem um décimo do que era naqueles saudosos tempos. (BARROSO, 2004, p.327)
Mapa 13 – Benfica Parte III
Fonte: Ilustrações da autora e mapa de Bruna Beserra (2014).
Barroso (2004) conta que o quadrilátero das atuais avenidas Treze de Maio, Expedicionários e ruas Marechal Deodoro e Costa e Souza foi ocupado por longo tempo pelo hipódromo, lugar onde ocorriam corridas de cavalo. Esse lazer valorizado pelas famílias
nobres deu a essa área o nome de bairro do Prado. “O hipódromo determinou a criação de uma linha de bondes, e esta o desenvolvimento do pequeno bairro. Os trilhos vinham até onde
hoje existe um posto de gasolina” (Ibid., p.282), na Rua Marechal Deodoro59.
Com a saída do hipódromo foi possível prolongar a Rua Paulino Nogueira até à Expedicionários, dividindo o terreno. A área circunscrita na Treze de Maio deu origem ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), antiga Escola Técnica Federal do Ceará de 1968. Na outra área, margeada pela Paulino Nogueira, foi erguido pela Prefeitura Municipal de Fortaleza o Estádio Presidente Vargas, inaugurado em 14 de setembro de 1941. Também na mesma área, em 1982, foi inaugurado o Ginásio Aécio de Borba Vasconcelos, de médio porte com cerca de 3000 lugares, destinado à prática de outros esportes, como basquete, vôlei e, especialmente, futebol de salão.
Em 30 de outubro de 1999, o bairro ganhou o shopping Benfica situado na quadra que compreende as avenidas Treze de Maio, Carapinima e as ruas Juvenal Galeno e Teresa Cristina.
Desenho 14 – Shopping Benfica
Fonte: Ilustração da autora (2014).
A fachada limpa, ordenada e moderna do shopping Benfica contrasta visualmente com o lado oposto da Avenida do Centro de Educação de Jovens e Adultos do Ceará (CEJA) e do prédio institucional da UFC. Por conta de sua visibilidade as avenidas Carapinima e da Universidade possui ao longo de suas extensões intervenções de pixos, cartazes, faixas, propaganda política e graffiti compondo uma mistura desordenada.
59 A citada rua foi também conhecida por Rua da Cachorra Magra, caminho por onde entrava o gado que ia ser
abatido, também no trecho após cruzar a Treze de Maio foi chamada de Rua do Prado Novo. (BARROSO, 2004, p.140)
Fotografia 15 – UFC, Avenida Carapinima
Fonte: Arquivo pessoal (2014).
O conceito de visibilidade largamente utilizado nessa pesquisa está ligado a ideia de aparição pública, de um mostrar-se, da amplitude de se mostrar visível. A cidade assim seria o espaço que permitiria melhor esse visível, pois como também lugar de vivências e de passagens (tráfego) permite que uma multidão de olhares se construa sobre suas estruturas físicas de muros, prédios e etc.
No entanto, ao mesmo tempo em que o espaço público possibilita uma ampliação das formas de mostrar-se, segundo Samain (2012) a visibilidade depende da relação entre imagem e olhar. A imagem teria um “poder de ideação”, isto é, um potencial intrínseco de suscitar pensamentos e ideias.
Nesse horizonte, diria que a imagem é uma “forma que pensa”, na medida em que as ideias por ela veiculadas e que ela faz nascer dentro de nós – quando as olhamos – são ideias que somente se tornaram possíveis porque ela, a imagem, participa de histórias e de memórias que a precedem […] (SAMAIN, 2012, p.33)
As imagens seriam polissêmicas, mas isso dependeria de um processo epistemológico do observador, pois a leitura destas e em conseqüência sua visibilidade dependeria da parte subjetiva e afetiva do observador na sua recepção. Samain organizador e também autor do livro Como pensam as imagens (2012) desenvolve narrativas através dos aportes deixados por Aby Warburg (pai da iconologia e antropólogo das culturas humanas). O livro desenvolve esforços para assumir que as imagens são portadoras de pensamento e como
tal nos fazem pensar. Warburg recomendava a recepção das imagens na sua apreciação, ou seja, levar em conta a resposta do espectador ao que ele vê. “A compreensão da imagem inclui o poder que essa última exerce sobre o espectador.” (SAMAIN, 2012, p.85)
A paisagem que segue em sentido leste na Avenida da Universidade é composta pela mistura de edificações tradicionais e modernas. Na esquina com a Rua Juvenal Galeno um batalhão de comércios de gráficas impressiona pela publicidade que preenche suas estruturas, a vasta concorrência faz com que os serviços ofertados saltem à rua em letreiros pintados. Esses pequenos comércios têm como fotocópia de documentos seu principal serviço, destinado a atender a demanda dos estudantes e professores da área.
Fotografia 16 – Comércios de fotocópias
Fonte: Arquivo pessoal (2014).
Ao lado residências de arquitetura antiga que tiveram suas fachadas preservadas, algumas se tornaram equipamentos públicos, como a sede do Sistema Nacional de Emprego (SINE/CE) e a Biblioteca Municipal Dolor Barreira, outras comércios. Adiante outros equipamentos da UFC como o Restaurante Universitário e o Posto Médico.
Mapa 17 – Benfica Parte II
Fonte: Ilustrações da autora e mapa de Bruna Beserra (2014).
Do lado oposto dessa avenida visualiza-se a Casa Amarela Eusébio Oliveira mantendo uma arquitetura tradicional e simbolizada pela mesma cor que batiza seu nome. Quarteirões à frente o prédio de arquitetura original que em 1923 era o centro de ensino Grupo Escolar Rodolfo Teófilo foi vendido à Universidade em 28 de dezembro de 1962 para abrigar a Faculdade de Economia, Administração, Atuária e Contabilidade (FEAAC).
Desenho 18 – FEAAC
O antigo Grupo Escolar então foi para a Rua Juvenal Galeno entre as avenidas Carapinima e Universidade e, hoje, chama-se Escola de Ensino Fundamental e Médio Rodolfo Teófilo. (Barroso, 2004, p.211)
Esse perímetro compreendido no Mapa 17 apresenta nas principais avenidas essa miscelânea de estruturas urbanas das quais estamos narrando, arquiteturas antigas ressignificadas junto a espaços novos permeados por signos urbanos da publicidade, pixação e graffiti.
Por meio da descrição e narrativa histórica percebemos que o bairro Benfica é representado por uma heterogeneidade de espaços. Das edificações tradicionais e modernas, dos lugares religiosos aos cabarés, e os espaços que abrigam temporariamente as festividades