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O contexto de exploração das terras dessa bacia hidrográfica aponta para levas de extração mineral, em virtude da descoberta de metais preciosos que contribuiu para

que os portugueses alcançassem o interior do território, em um processo de expansão. Saint-Hilaire (1974) descreve que, em 1572, Sebastião Fernandes Tourinho foi encarregado de navegar pelo Rio Doce para buscar confirmação sobre a existência de pedras preciosas entre as capitanias de Porto Seguro e do Espírito Santo, porém em virtude da mata densa e em recorrência de ataques indígenas, os aventureiros desistiram. Mais tarde, a descoberta de ouro de aluvião em rios como Ribeirão do Carmo e Ribeirão Ouro Preto, ambos afluentes do Rio Doce, atraiu portugueses e estrangeiros em uma onda de ocupação na região aurífera (BOXER, 1969). Para proteger as áreas de exploração do minério, foram limitadas as áreas de acesso à região, proibindo a navegação no Rio Doce. Para Espindola (2007), a proibição foi estabelecida para que houvesse maior controle das áreas de exploração evitando possíveis extravios.

O aumento da concentração populacional ao longo do processo migratório atraiu agricultores incumbidos de produzir alimentos para os trabalhadores das minas. Este foi o marco da degradação ambiental, em que sucessivas gerações organizavam queimadas como estratégias para limpar a terra tanto para mineração quanto para a prática da agropecuária. Os vales perderam sua cobertura vegetal, foram cavados pela erosão e pelos exploradores que, ao exaurirem a terra com o ouro de aluvião, iniciaram as perfurações no terreno, construindo túneis e poços nas encostas, ampliando o processo erosivo (BOXER, 1969).

A recuada no processo de ocupação do vale do Rio Doce, como medida protetiva a reservas minerais, fez com que as áreas do Baixo e do Médio Rio Doce tivessem a ocupação retardada. Assim que foi retomada a ocupação do vale do rio Doce, associada ao declínio do ciclo do ouro, já no início do século XIX, o Rio Doce tornou- se importante alternativa de ligação entre a região mineradora, Ouro Preto, Sabará, Mariana com o litoral marítimo. Espindola (2007) aponta inúmeras tentativas de consolidar essa via fluvial, não obstante os obstáculos à navegação, principalmente da região mineradora até a confluência com o rio Guandu, tais como, a insalubridade das áreas subjacentes ao rio, em função das florestas que sombrejam as margens, que dificultava a ação do sol e favorecia a ocorrência de doenças, além dos ataques indígenas.

Os povos indígenas que habitam a região apresentada por Espindola (2005, p. 136) com Sertão do Rio Doce receberam o nome de Botocudos, “[...] em virtude de usarem nos lábios e nas orelhas uma grande rodela de madeira, à semelhança de um botoque, que é como os portugueses chamavam as rolhas de barril”. Enquanto se evitava a ocupação do vale do Rio Doce, os indígenas dominavam a área ocupada, com uma estratégia de combate aos intrusos (ESPINDOLA, 2005). “Eles carregavam o estigma de serem antropógrafos, porém não se encontrava qualquer referência de que essa prática tenha sido testemunhada ou confirmada por cronistas, militares, missionários, diretores de índios, viajantes estrangeiros, entre outros” (ESPINDOLA, 2005, p. 139).

Junto à tentativa de consolidar a navegação fluvial, existiu um esforço em manter as margens do Rio Doce livre dos ataques indígenas para que os colonos, sentindo-se protegidos, poderiam ser atraídos para as novas terras.

O objetivo estratégico, no entanto, não era a utilização da mão de obra indígena, mas a ocupação do território e a abertura do Rio Doce à navegação. A insistência em atribuir aos Botocudos a antropofagia servia para justificar a ocupação como sendo uma guerra justa, e legitimar o cativeiro ou o extermínio determinado pela Carta Régia de 13 de maio de 1808 (ESPINDOLA, 2005, p. 160).

Além do processo de extermínio amparado pela Carta Régia, a construção da ferrovia contribuiu para que os Botocudos do vale do Rio Doce fossem praticamente dizimados (REIS, 2016). Para Espindola (2005, p. 155), o processo de ocupação do Sertão do Rio Doce “provocou o desaparecimento do índio como etnia”. Atualmente, os últimos remanescentes dos Botocudos, que habitavam o vale do Rio Doce, são os povos Krenaks, cuja a reserva indígena se situa no município de Resplendor – MG.

Diante desses fatos, o povoamento de Colatina ocorreu de forma tardia. Os primeiros imigrantes navegaram pelas águas do Rio Santa Maria da Vitória e se deslocaram pelo Vale do Canaã, margeando o Rio Santa Maria do Rio Doce até o município. O Médio e o Baixo Rio Doce, até as imediações de Colatina, tiveram sua ocupação expandida no final do século XX com a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Apesar das dificuldades durante a construção, decorrente dos ataques indígenas,

doenças, chuvas torrenciais, entre outros, a estrada de ferro era um importante empreendimento de ligação entre Minas Gerais e o litoral capixaba. Os investimentos no transporte impulsionaram a criação de núcleos urbanos, aumentando vertiginosamente os índices populacionais, ampliando o povoamento das margens do Rio Doce (CAMPOS, 2001).

Segundo Campos (2001), ao longo da ferrovia Vitoria a Minas, foram instaladas serrarias para a exploração da mata Atlântica. Nas clareiras abertas, eram feitas queimadas para o plantio de capim colonião, ampliando a pecuária. A renovação das pastagens era feita por meio de queimadas, em virtude das quais se destruiu a cobertura vegetal e o solo ficou exposto à erosão, sendo transportado pelas águas das chuvas e depositado ao longo da calha do rio, provocando seu assoreamento.

A experiência de viajar pelas margens do Rio Doce pela Estrada de Ferro Vitória a Minas permite perceber o longo período de exploração sofrido por essa bacia hidrográfica. “A retirada da cobertura vegetal contribui para a remoção desses solos pela aceleração dos processos morfodinâmicos indicados por ravinas e sulcos” (PIRH- DOCE, 2010, p. 66), visíveis nos mares de morro que margeiam o canal fluvial.

A ampliação dos núcleos urbanos, a instalação das indústrias, o aumento populacional implicou uma demanda energética que conduziu ao aproveitamento das águas da Bacia Hidrográfica do Rio Doce para a produção de energia. A construção das barragens desencadeou um desvio no curso de água, interferindo na vazão, no transporte de sedimentos, na piracema, exercendo impactos na fauna e na flora, além do deslocamento de núcleos urbanos, intensificando no depósito de sedimentos descarregados ao longo das planícies de sedimentação (COELHO, 2007). “No Baixo Rio Doce, a barragem da UHE Mascarenhas representa uma barreira que restringe o desenvolvimento dos deslocamentos, representando, portanto, um impacto ao sucesso da atividade migratória [...]” (EPE, 2007, p. 117).

As áreas de planície foram densamente ocupadas e por consequência, quando o rio transborda o leito menor atinge áreas urbanizadas, levando a população a sofrer com a problemática das enchentes. Nos períodos de chuvas, a população que habita as áreas de risco geológico (encostas suscetíveis a deslizamentos), também precisam

abandonar suas residências. Além disso, o rio continua sendo depósito de efluentes industriais e domésticos e, desde o século XVIII, sofre os impactos da mineração.

O Diagnóstico Ambiental da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, elaborado pela EPE (2007, p. 42), concluiu que entre as causas dos problemas ambientais da bacia hidrográfica, destacam-se:

• desmatamento e mau gerenciamento dos solos com vocação agrícola (pastagem, cana-de-açúcar e plantações de eucaliptos), que conduzem à erosão acelerada, à redução das vazões durante o período seco e ao aumento na importância e frequência das cheias, devido ao assoreamento dos leitos dos rios;

• atividades de extração de ouro (garimpo) que destroem as margens dos rios e os contaminam com mercúrio;

• poluição tóxica devido à intensa atividade industrial no Vale do Aço (minerações de ferro e siderurgia);

• precariedade do saneamento e abastecimento de água potável do conjunto de aglomerações urbanas e comunidades rurais;

• vulnerabilidade das fontes de água potável frente a poluições acidentais (por exemplo, a cidade de Governador Valadares localizada a jusante do Vale do Aço).

Nos últimos anos, a ausência de chuvas, a ineficiência do manejo do solo e a interferência do fenômeno El Niño colocou em risco o abastecimento das cidades, como Colatina, que margeiam o Rio Doce. Apesar dos enfrentamentos, o rio seguia seu curso na luta por manter-se perene, porém, o rompimento da barragem, pertencente ao complexo minerário de Germano, no município de Mariana/MG, construído para armazenar os resíduos da mineração, mudou a hidrodinâmica do rio.

A barragem rompida continha um quantitativo de 50 milhões de m³ de rejeitos de mineração de ferro, destes, 34 milhões de m³ de rejeitos foram lançados no meio ambiente, e 16 milhões restantes estão sendo carreados, aos poucos, para jusante e em direção ao mar, já no estado do Espírito Santo (IBAMA, 2015). Os rejeitos devastaram o distrito de Bento Rodrigues, provocando perdas materiais e humana, atingiram Barra Longa - MG, percorreram pelos rios Gualaxo do Norte e Ribeirão do Carmo até alcançar o Rio Doce. A força das águas transportou a onda de lama pelos 663,2 km percorridos até a Vila de Regência, Linhares-ES, quando atingiu o Oceano Atlântico em 21/11/2015, expandindo-se para as águas oceânicas.

Entre os danos socioambientais decorrentes do rompimento da barragem do Fundão estão:

a) Destruição de habitat e extermínio da ictiofauna em toda a extensão dos Rios Gualaxo, Carmo e Doce perfazendo 680 km de rios; b) Contaminação da água dos rios atingidos com lama de rejeitos; c) Suspensão do abastecimento público nas principais cidades banhadas pelo Rio Doce; d) Suspensão das captações de água para atividades econômicas, propriedades rurais e pequenas comunidades; e) Assoreamento do leito dos rios e dos reservatórios das barragens de geração de energia; f) Soterramento das lagoas e nascentes adjacentes ao leito dos rios; g) Destruição da vegetação ripária e aquática; h) Interrupção da conexão com tributários e lagoas marginais; i) Alteração do fluxo hídrico; j) Impacto sobre estuários e manguezais na foz do Rio Doce; k) Destruição de áreas de reprodução de peixes; l) Destruição das áreas de “berçários” de reposição da ictiofauna (áreas de alimentação de larvas e juvenis); m) Alteração e empobrecimento da cadeia trófica em toda a extensão do dano; n) Interrupção do fluxo gênico de espécies entre corpos d’água; o) Perda de espécies com especificidade de habitat; p) Mortandade de espécimes em toda a cadeia trófica; q) Piora no estado de conservação de espécies já listadas como ameaçadas e provável ingresso de novas espécies no rol de ameaçadas; r) Comprometimento da estrutura e função dos ecossistemas aquáticos e terrestres associados; s) Comprometimento do estoque pesqueiro - impacto sobre a pesca; t) Impacto no modo de vida e nos valores étnicos e culturais de povos indígenas e populações tradicionais; u) Impactos ambientais sobre sítio catalogado pela Convenção Ramsar (Parque Estadual Rio Doce); v) Impactos sobre o ambiente costeiro-marinho abrangido pelas unidades de conservação Reserva Biológica de Comboios, Refúgio de Vida Silvestre de Santa Cruz e a Área de Proteção Ambiental de Costa das Algas. (IBAMA, 2016, p. 6-8)

Em decorrência do rompimento da barragem e seus desdobramentos, foi proposto contra a SAMARCO Mineração S/A, VALE S/A e BHP Billiton Brasil LTDA um Termo de Transação e de Ajustamento de Conduta (TAC) para exigir a reparação e mitigação dos danos socioeconômicos e socioambientais, bem como a compensação proporcional aos impactos não reparáveis ou mitigáveis (IBAMA, 2016).

Essa abordagem histórica permite identificar os longos anos de degradação ambiental que muitas vezes atinge o campo da invisibilidade, fazendo com que os problemas ambientais passem despercebidos aos olhos das entidades públicas. Por isso as práticas educacionais devem contemplar os problemas locais, para que os estudantes possam ficar em alerta e ter a consciência da necessidade de reunir forças para lutar em favor das causas ambientais.