2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.2 SUSTENTABILIDADE EM EDIFICAÇÕES HOSPITALARES
2.2.1 Aspectos históricos
A palavra hospital tem sua etimologia do latim hospitalis, que significava hóspede, pois os antigos hospitais abrigavam os viajantes e também acolhiam as pessoas debilitadas que iam para estes espaços para ter uma morte digna. Há relatos históricos sugerindo a existência de hospitais desde a Babilônia e no Egito (GÓES, 2004).
As primeiras edificações que funcionavam como um espaço de tratamento datam da Antiguidade. Os templos tinham espaços destinados a receber enfermos que eram atendidos pelos sacerdotes que misturavam as primitivas práticas médicas com rituais religiosos (SAMPAIO, 2005).
Na Grécia Antiga, além dos templos, havia casas para alojar enfermos mais abastados. Já para os forasteiros, escravos e os menos favorecidos, existiam os xenodochium. Os xenodochium eram ambientes com dupla finalidade: atender ao viajantes e cuidar dos enfermos, com funções análogas às realizadas hoje em hotéis e hospitais (GÓES, 2004; SAMPAIO, 2005).
O Império Romano foi o primeiro exército a contar com um aparato para o atendimento dos feridos em batalha; é atribuída a Roma a criação do hospital de campanha. Os legionários, além de serem tratados no hospital de campanha, também eram assistidos na valetudinarias, as quais consistiam em um espaço divido em quatro partes: três compartimentos com área de cerca de 20m2 e uma parte destinada à administração. As valetudinarias podem ser consideradas os precursores dos hospitais da civilização ocidental (ANTUNES, 1991; MIQUELIN, 1992).
Os hospitais, como os conhecemos hoje, surgiram como lugares de acolhida de doentes e peregrinos, durante a Idade Média. A Igreja, que era a principal instituição
política, social, econômica e religiosa, também teve papel fundamental para a criação de edificações voltadas à assistência social, pois os mosteiros eram o único lugar onde a população tinha acesso a uma atenção especializada (SAMPAIO, 2005). Ressalta-se que ainda hoje as entidades de fins filantrópicos repreRessalta-sentam 11,01% contendo 744 hospitais no Brasil; e os hospitais privados sem fins lucrativos representam 27,54% dos hospitais brasileiros com 1.849 (FBH, 2009; BRASIL, 2009a).
Três tipos de estabelecimentos atendiam aos enfermos durante a Idade Média:
xenodochium, lobotrophium e nosocomum. O primeiro era destinado a refúgio de forasteiros, que chegavam exaustos e enfraquecidos de grandes viagens, sendo tratados como doentes. Os lobotrophiums eram asilos que atendiam aos inválidos, aos leprosos e às pessoas com doença de pele que eram excluídos do convívio social. O nosocomum era uma casa que assitia doentes de diversas enfermidades e funcionava à semelhança de um hospital atual (GÓES, 2004; SAMPAIO, 2005). O primeiro hospital da civilização ocidental nos moldes atuais foi o Hôtel-Dien em Paris, com as primeiras citações históricas datando do século VIII, no ano de 829; no auge contou com mais de 1.100 leitos individuais e 600 coletivos (LISBOA, 2002; GÓES, 2004). A figura 7 apresenta uma ilustração dos leitos coletivos do Hôtel-Dien.
FIGURA 7 - ILUSTRAÇÃO DO HÔTEL-DIÊN EM PARIS COM LEITOS COLETIVOS FONTE: Toledo (2008)
As cruzadas auxiliaram na disseminação dos hospitais por toda Europa, Oriente Médio e norte da África, ao tratar dos peregrinos, enfermos e combatentes.
Também houve um intercâmbio dos conhecimentos médico-científicos da civilização islâmica e cristã. O Bartinstan era o hospital islâmico e já contava com a separação de doentes por idade, enfermidade e sexo, bem como com sistema de iluminação e ventilação natural (SAMPAIO, 2005).
No Renascimento, com a mudança do pensamento teocêntico para o antropocêntrico, as doenças começam a ser estudadas de forma científica e os hospitais ganham as formas de cruz ou de claustro (TOLEDO, 2002; SAMPAIO, 2005).
Com a Revolução Industrial, os hospitais começam a ter uma tipologia pavilhonar de blocos horizontais, com altura de no máximo quatro pavimentos, e surgem as primeiras premissas para o combate à infecção hospitalar. Porém, o grande crescimento da demanda e a falta de condições de salubridade nas cidades contribuíram para proliferação de doenças e mendicâncias nas cidades, o que por sua vez sobrecarregava os hospitais (SAMPAIO, 2005; TOLEDO, 2008).
Em 1859, a enfermeira inglesa Florence Nigthingale publicou o livro Notes on Hospitals no qual ela estabelecia padrões mínimos de qualidade no espaço físico dos hospitais. Suas inovações foram baseadas na experiência que teve durante a Guerra da Criméia, quando foi convocada pelo Secretário Britânico da Guerra Sidney Herbert para ser a enfermeira superintendente do hospital militar britânico de Scutari em um subúrbio da parte asiática de Constantinopla (PARUCKER, 2008;
MFN, 2010).
Em sua chegada com mais 38 enfermeiras, as condições de higiene do hospital militar eram propícias a infecções com soldados deitados diretamente no chão, rodeados de insetos e ratos. Nessas condições, doenças como cólera e tifo faziam com que as probabilidades de morte por contaminação dentro do ambiente hospitalar fossem sete vezes maiores do que a morte dos militares em campo de batalha (O'CONNOR; ROBERTSON, 2010).
Durante esse período como administradora, aproveitou seus conhecimentos em análise estatística para coletar dados e organizar um sistema de registro de informações. Conseguiu desenvolver uma ferramenta para cálculo de taxa de mortalidade nos hospitais. Em fevereiro de 1855, três meses após sua chegada a Scutari, reduziu as taxas de mortalidade de 60% para 42,7%. Na primavera do mesmo ano, introduzindo melhoras nos equipamentos hospitalares, condições de higiene,
fornecimento de água tratada e frutas e vegetais nas dietas dos pacientes, as taxas de mortalidade despencaram para 2,2% (O'CONNOR; ROBERTSON, 2010).
As avaliações estatísticas de Nightingale de causas de mortalidade ficaram conhecidas por coxbombs, denominação dada pela própria enfermeira, que eram diagramas de radar. Durante todo o período da Guerra da Criméia foram utilizadas essas informações gráficas, que adotava na faixa periférica na cor azul para os falecimentos decorridos de doenças contagiosas. A área central na cor vermelha correspondia a óbitos em consequência de ferimentos. A região intermediária na cor preta era atribuída a mortes por outras causas (O'CONNOR; ROBERTSON, 2010). Um exemplo destes gráficos de Nightingale pode ser observado na figura 8.
FIGURA 8 - COXBOMBS DE NIGTHINGALE DO HOSPITAL DE SCUTARI FONTE: O'Connor e Robertson (2010)
Conforme a figura 8, os Coxbombs de Nigthingale evidenciavam o significativo papel das doenças contagiosas como causa de mortalidade nos hospitais militares britânicos na Guerra da Criméia (O'CONNOR; ROBERTSON, 2010).
Nigthingale apontava que a superlotação das enfermarias – camas de 2x2 metros com capacidade para seis pacientes – juntamente com a falta de ventilação e iluminação natural, auxiliava na propagação de doenças. Também é atribuído a Nigthingale a concepção de leitos individuais por pacientes, como pode ser observado na figura 9.
FIGURA 9 - PROPOSTA DE LEITOS INDIVIDUAIS PARA PACIENTES DE NIGHTHINGALE
FONTE: Fundação Florence Nightingale - FFN (2010)
Com as contribuições recebidas durante a campanha da Criméia, Nigtingale fundou a primeira escola de enfermagem no hospital St. Thomas em Londres.
Nightingale prestou assistência e cuidados médicos para as forças armadas na Índia e no Canadá. Também foi consultora do governo americano sobre saúde militar durante a Guerra Civil Americana (MFN, 2010).
Outro ponto importante a ressaltar no trabalho desenvolvido por Nigthingale é o papel de recuperação da força de trabalho de um império britânico que vivenciava a plena expansão do capitalismo (FORMIGA; GERMANO, 2005). Além do papel de enfermeira, professora, pesquisadora, Nigthingale é considerada a pioneira na administração hospitalar (TREVIZAN, 1988).
Sua maior contribuição para a arquitetura hospitalar foi a enfermaria Nigthingale, que consistia num salão longo e estreito com os leitos dispostos de forma perpendicular em relação às paredes e uma circulação central (MIQUELIN, 1992; TOLEDO, 2008).
As figuras 10 e 11 apresentam exemplos desse tipo de enfermaria.
FIGURA 10 - ENFERMARIA NIGHTINGALE FONTE: Silva (2001)
FIGURA 11 - ENFERMARIA NIGHTINGALE FONTE: Toledo (2008)
Os dois lados possuíam janelas, permitindo assim a ventilação cruzada. O pé-direito elevado também auxiliava na movimentação do ar. As instalações sanitárias situavam-se numa das extremidades com ventilação para três faces do bloco. Esse tipo de enfermaria tornou-se padrão durante cinquenta anos nos hospitais e elemento mais importante da anatomia de um edifício hospitalar (MIQUELIN, 1992).
No Brasil, a assistência médica hospitalar foi iniciada por Portugal, que tinha por costume passar para suas colônias seu acervo cultural e tecnológico (GÓES, 2004). Em 1498, foi fundada em Lisboa a primeira Santa Casa de Misericórdia pela Rainha D. Leonor de Lencastre, com o objetivo de tratar os doentes, amparar os órfãos e atender aos necessitados. As Santas Casas disseminaram pelas Colônias Portuguesas na Europa, África e Ásia; e principalmente no Brasil (CMB, 2008).
A primeira Santa Casa de Misericórdia do Brasil foi fundada em 1543, na Vila de São Vicente - Santos (GÓES, 2004; CMB, 2008), porém há questionamentos se a Santa Casa de Olinda em Pernambuco não teria sido fundada anteriormente, em 1539. A Santa Casa de Salvador foi fundada em 1549 e a de São Paulo em 1599. No Paraná, a Santa Casa mais antiga é a de Paranaguá fundada em 1835 e a de Curitiba foi fundada em 1843, sendo transferida em 1868 para a sua atual localização em frente à Praça Rui Barbosa (CMB, 2008; PUC, 2009).
No século XX, com o desenvolvimento das ciências, há um grande crescimento na complexidade do edifício hospitalar com incrementos de muitas normatizações.
Surgem novas tipologias formais: o hospital monobloco e o hospital arranha-céu.
A figura 12 representa um quadro resumo da evolução da arquitetura hospitalar.
FIGURA 12 - EVOLUÇÃO DA ARQUITETURA HOSPITALAR FONTE: Miquelin (1992)
A ilustração apresenta a evolução da tipologia predominante dos hospitais ao longo do tempo no Ocidente. Observa-se a evolução dos sistemas construtivos e uma setorização dos ambientes, pelo seu uso. A unidade de internação ainda serve
de base para a implementação da volumetria da edificação, mas a setorização como volumetria vai assumindo complexidade (MIQUELIN, 1992).
A arquitetura hospitalar começou a ser estudada de forma mais aprofundada a partir do término da Primeira Guerra Mundial. A sua grande complexidade requer um planejamento adequado para evitar desperdícios de capital, tempo e pessoal. No decorrer do século XX, fica clara a necessidade de uma gestão pensando numa maior flexibilidade do espaço físico do hospital, para suportar as mudanças provocadas pelo avanço dos diversos campos da medicina (LISBOA, 2002).