3 A SINGULARIDADE DA ESPÉCIE HUMANA: ASPECTOS
3.4 Aspectos interacionais e associativos da singularidade humana
Como vimos, nossa humanidade se mostra como a expressão concreta daquilo que nos distingue das demais espécies animais, e se caracterizada pela complexidade e interação de fatores situados entre o campo biológico e o social, como afirmam acertadamente Bussab e Ribeiro (1998), resultando na forma especial como conservamos (memória individual e social) e repassamos nossos conhecimentos de geração a geração (tradição cumulativa), e nos modos como convivemos, interagindo e nos relacionando uns com os outros, e também como atuamos, interagimos e nos relacionamos com o mundo.
Desta sorte, a singularidade humana há que ser focalizada também sob tal perspectiva, valendo trazer a lume algumas considerações feitas por Aristóteles,141
filósofo cuja importância para o pensamento ocidental foi ímpar e que Rodríguez (2019) aponta como responsável pela introdução (fundamental) de conceitos como os de virtude, corrupção, justiça, constituição, sociedade, prudência, educação para a cidadania, classe média, tirania, democracia, amizade, substância, forma, matéria (ou conteúdo), acidental, experiência, causalidade, finalidade, justo meio, dentre outros, que hoje ocupam grande parte das mais elevadas discussões contemporâneas.
Aristóteles (2018) já afirmava há cerca de 2.300 anos o que hoje pode ser considerado um fato notório e inconteste: o homem é um animal político, e, para a espécie humana, a sociedade é um fato natural, já que ela é mais sociável do que qualquer outra espécie animal que viva reunida; o homem se desenvolve em
141 Nascido em Estagira (384 a.C.), aos 17 anos foi enviado para a Academia de Platão, em Atenas, onde tornou-se seu discípulo, lá permanecendo cerca de 20 anos (367 e 347 a.C.). Por volta de 334 a.C., após incursionar pela Asia Menor e Macedônia, retornou a Atenas e fundou o Liceu, onde transmitia seus conhecimentos.
sociedades políticas estruturadas como “cidades” (pólis), de modo que estas se mostram como uma realidade decorrente da natureza humana. Sendo o ser o humano um animal naturalmente político (politikón zôon), caso vivesse fora da pólis por determinação sua, e não por um infortúnio qualquer (como um naufrágio), certamente seria ou um ser degradado e inferior ao humano, ou um ser superior a este.
Sem embargo de outras especificidades, a fala aristotélica ilustra o fato de que a humanidade tem em sua essência, inclusive como um impulso natural, interno e comum a várias outras espécies animais, a necessidade de existir em sociedade, o que denominamos de socialidade; evidentemente o habitat humano nos primórdios foi notoriamente marcado por riscos à integridade de cada indivíduo e à sobrevivência da espécie, fortalecendo o impulso natural de “associação para preservação”.
Ocorre que, embora o impulso natural de “associação para preservação” da espécie pudesse variar em suas expressões (tempos e modos de convivência entre indivíduos, por exemplo), a socialidade se mostra como uma característica geral e comum aos animais, sendo modulada em suas formas de concretização a partir do modo como cada espécie buscaria a satisfação de necessidades básicas originadas nos planos fisiológico e biológico, tais como a manutenção da vida individual e a perpetuação da espécie, no tocante à nossa espécie.
Aristóteles (2018) observava, contudo, que a associação humana teria também outros fundamentos, os sentimentos mais refinados (do que as sensações) e a razão (superior aos impulsos naturais básicos), o que indica claro envolvimento de campos especificamente humanos, como o intelectual, o moral e o psicológico, os quais abrigam fatores por si mesmo complexos, mas cuja infindável formas de conjugação eleva exponencialmente a complexidade da estruturação e funcionamento da associação humana e de sua teia de relacionamentos envolvendo indivíduos, grupos específicos e corpo associativo integral.
Considerando-se as especificidades humanas e todos os seus desdobramentos, dentre os quais destaca-se a possibilidade de haverem incontáveis formas de combinação (entre intelecto, moral e psique) e consequente variações individuais e coletivas, temos evidente que os impulsos “naturais” (por estarem atrelados aos campos biológico e fisiológico) não seriam capazes de determinar tão uniformemente as formas de associação e condutas humanas como o fazem em relação aos demais animais, como evidencia, por exemplo, o sacrifício voluntário e
consciente que faz um indivíduo em prol de outro(s), sem que isso contribua isoladamente para a perpetuação da espécie, mas simplesmente por amor, em busca de honra etc.
Durkheim (1990, p. 93-94) corrobora essa linha de pensamento ao observar que a associação humana dos primeiros tempos seria como “[...] um produto da vida social que lentamente em nós se organizou; pois é dado de observação comum que os animais são sociáveis ou não, segundo as disposições de seus habitats os obrigam à vida comum, ou destas os desviam [...]”, culminando por ressaltar a existência de notável afastamento entre as inclinações instintivas e a nossa realidade social.
O que é reforçado por Aristóteles (2018) que ressalta configurar-se a pólis como a mais elevada forma de associação, a qual englobaria todas as demais, bem mais simples (famílias, aldeias etc.), e nela poderiam os homens atingir o máximo de bem- estar (considerando-se as especificidades humanas).
Resulta de tudo quanto foi dito, que a socialidade típica de todas as espécies animais não seria o bastante para que uma associação humana se desenvolvesse a ponto de formar a pólis, especialmente porque a racionalidade e a moralidade presentes em nossa espécie, e que se desenvolve variavelmente em cada indivíduo, leva às diferenças e à pluralidade em seu interior, o que não acontece com as espécies animais em essência, muito mais uniformes, regulares e estáveis.
Uma evidência ilustrativa do que afirmamos anteriormente está nas inúmeras pesquisas realizadas em torno de um desdobramento da racionalidade humana consistente na temática pertinente às “diferenças intelectuais” entre indivíduos e gêneros, as quais têm apontado para predomínio de certas habilidades ou aptidões cognitivas, entendidas como “[...] a capacidade do indivíduo em operar, eficientemente, na esfera cognitiva, determinados tipos de informação [...]”, o que quer dizer que há diferenciação cognitiva entre as pessoas e também entre habilidades de cada indivíduo conforme Juan-Espinosa (1997) e Colom (1998), citados por Flores- Mendoza (2000, p. 28)142. Naturalmente, conforme o ambiente em que se encontrem
e conforme a demanda por tais habilidades que dele decorram, alguns indivíduos poderão ter mais facilidade de sobrevivência ou sucesso que outros de forma geral, e, em especial, conforme suas posições e atividades pessoais.
142 Obras citadas por Flores-Mendoza (como referenciada): JUAN-ESPINOSA, M. (1997). Geografia de la inteligencia humana. Madrid: Pirámide; COLOM, R.B.M. (1998). Psicología de las Diferencias Individuales. Teoría y Práctica. Madrid: Pirámide.
As características que nos diferenciam dos demais animais foram se estabelecendo ao longo de um contínuo e perene processo evolutivo (que parece nunca cessar), e implicam construção de associações com estruturação e organização sociopolítica estabelecidas fundamentalmente a partir do exercício da racionalidade, e, consequente, do desenvolvimento de interações comunicativas eficientes o bastante para conferir ordem às diferenças e para acomodar a pluralidade. Em sendo assim, a socialidade, que basta às demais espécies para fundar e garantir seu êxito associativo perante o mundo natural, de há muito se mostrou insuficiente para a nossa.
A capacidade que um contingente humano tem de, com todas as diferenças individuais e de grupos (e conflitos advindos), estruturar uma associação e nela perdurar de modo estável e consistente (pela racionalidade aplicada), valendo-se da contribuição de cada indivíduo ou grupo para o estabelecimento de uma determinada ordem social, tanto ativamente (organizando), quanto passivamente (adaptando-se à organização), denominamos sociabilidade.
Do processo evolutivo humano em suas múltiplas dimensões resultam nosso aperfeiçoamento físico (especialmente, cerebral) e intelectual (níveis superiores de capacidade de aprendizagem, comunicação/interação e criação), os quais, por sua vez, tanto afetam o modo como organizamos nosso ambiente social (cada vez mais complexo), quanto o que somos por este ambiente afetados.
O pressuposto de uma associação qualquer é, sem dúvida alguma, a competência que os indivíduos desenvolvem para se relacionarem, seja para formar pequenas coletividades, seja para relacionar-se individualmente com várias destas, seja para as coletividades relacionarem-se entre si, formando todo o complexo associativo.
Deste modo, o processo que marca a “entrada participante” de cada indivíduo na organização associativa humana é denominado socialização, que Wazlawick et
al. (2017) esclarecem circunscrever “[...] um processo de aprendizagem e (re)criação
(e/ou reprodução) ativa, pela pessoa, de suas experiências sociais no decorrer de suas atividades e seu convívio [...]”, de modo que socializar, como veremos adiante, se mostra como um processo que ultrapassa o simples educar, já que se realiza também a partir de influências naturalmente advindas do ambiente social, de modo
que o indivíduo, conhecendo143 a cultura, passa a integrar a sociedade em que se
insere, e adquire nesta, certa identidade.144
Berger e Luckmann (2004, p. 175) corroboram nosso entendimento ao afirmarem que a socialização se faz em etapas, a primeira etapa ou socialização
primária, seria aquela que insere o indivíduo na sociedade e ocorreria na infância,
enquanto a socialização secundária seria qualquer processo posterior que introduzisse o indivíduo em algum setor específico do mundo social objetivo.145
Seguindo a linha de pensamento de Weber (1964, p. 33), tendo por foco a humanidade, podemos identificar uma comunidade como uma relação social quando e na medida em que a atitude nas ações sociais se inspira em um sentimento subjetivo (afetivo ou tradicional) dos partícipes de constituir uma totalidade.
Encontramos em Weber reforço para o entendimento de Prezza e Constantini (apud ELVAS; MONIZ, 2018, p. 452) em relação ao que se referem como sentimento
de pertença ou sentimento de comunidade, no sentido de os indivíduos considerarem-
se, eles próprios, pertencentes a um grupo ou comunidade em razão de reconhecerem seus integrantes e a si mesmos como similares, de modo que suas ações se mostram interdependentes em referência à satisfação de suas necessidades, o que as leva a obedecer às normas vigentes no grupo ou comunidade para poderem realizar-se sem afetar o equilíbrio, a estabilidade e a segurança geral e individual.
Nos primeiros tempos da humanidade, em que o número de conviventes era muito reduzido e a convivência muitíssimo mais íntima e intensa, já que realizada em
143 Notemos que ao nascer o indivíduo está imerso na cultura de seu grupo social, e a vai conhecendo pelo exercício de seu intelecto de maneira espontânea e natural, por impulso adaptativo; neste sentido, um indivíduo não estuda “sua” cultura conscientemente, o faz de modo inconsciente, para adaptar-se à sociedade em que se insere, é aí que vai se apropriando de vocabulário próprio, de sotaques, de hábitos criados pela repetição etc., e que também vai internalizando ideologias. Trata- se de importante aspecto da socialização. Por esse motivo, grande parte dos estudos de um nacional quanto à “sua” cultura se destina a compreendê-la, a saber suas “razões de ser”, e não como ela em si, “é”.
144 Bobbio (1997, p. 30-31), poeticamente, corrobora nosso entendimento e chama a atenção para o fato de que é na memória que nossa identidade pessoal, social e cultural finca raízes: “[...] Na rememoração reencontramos a nós mesmos, e a nossa identidade, não obstante os muitos anos transcorridos, os mil fatos vividos [...]”. Ratts e Damacena (2008, p. 63) seguem na mesma linha desse entendimento, observando que para a socialização importam todas as mínimas coisas de cada vivência, em todos os momentos da existência, implicando um processo contínuo que envolve o relacionamento com o outro e as ações praticadas, e que ele tanto ensina quanto constitui uma pessoa.
145 Visando o ponto temático central desta Tese, temos que os bacharéis em Direito passam por um processo de socialização secundária, com todas as suas exigências.
um ambiente em que basicamente todos tinham contato uns com os outros e no qual os impulsos internos instintivos predominariam, a busca da estruturação comunitária reforçaria o desejo de cada indivíduo em se sentir parte dela e assim ser considerado- sentido pelos demais. Isto sugere que as comunidades se configurariam mais naturalmente nestes momentos.
Tal conjuntura facilitaria a obediência às lideranças comunitárias (com acesso físico direto sobre todo e qualquer membro da comunidade) e a obtenção de coesão, pela identidade de interesses e objetivos comuns que se realizava em um ambiente marcado pela simplicidade do horizonte de ações e relacionamentos possíveis, bem como pelo reduzido número de alternativas disponível. Desta forma, nas primeiras associações humanas predominaria a socialização primária explicitada por Berger e Luckmann (2004, p. 175), implicando isto que a normatividade social seria tão mais eficaz e pacificamente aceita socialmente quanto mais fosse compreendida como um elemento comunitariamente valorizado.
Por outro lado, ainda na linha de distinção weberiana, tem-se a configuração de uma sociedade quando e na medida que a atitude nas ações sociais se inspira em uma compensação ou união de interesses por motivos predominantemente racionais, tais como fins ou valores perseguidos, de modo que as sociedades repousam básica, mas não exclusivamente, em um pacto racional que exige reciprocidade. Neste caso, as interações são orientadas conforme a base do pacto firmado: se se tem em vista fins ou propósitos, pela expectativa de que os outros agirão de igual forma; se se tem em vista valores, pelos crença na (identidade que funda a) própria conexão em si (WEBER, 1964, p. 33).
Notemos que, à medida que há uma ampliação do contingente humano e complexificação das relações entre seus partícipes, inclusive com afastamento físico das lideranças, as organizações associativas humanas necessariamente passaram a se caracterizar mais como sociedades, considerando-se o seu todo. Atualmente, evidencia-se que as relações sociais se mostram essencialmente sustentadas e direcionadas por fatores exteriores, frutos da racionalidade e da objetividade, como fins e valores que se opta por perseguir, fundam-se muito mais na busca de compensações (entre o que se oferece e o que se recebe) ou de união (para obter o mesmo), muito embora no tocante às suas especificidades internas, como no caso dos grupos sociais, possa haver forte viés comunitário.
Bauman (2005, p. 17) faz análise que contribui para essa análise e que permite lanças luzes sobre a importante questão das identidades sociais, que veremos mais detalhadamente adiante; ele se refere a comunidades em sentido amplo (sem distingui-las das sociedades), considera-as como entidades que definem as identidades e que podem ser classificadas, com apoio na perspectiva de Siegfried Kracauer146, como de vida e de destino; na primeira espécie, seus membros “[...]
‘vivem juntos em uma ligação absoluta’ [...]”, e quanto à segunda, podemos dizer que são “[...] ‘fundidas unicamente por ideias ou por uma variedade de princípios’ [...]”, de modo que
[...] A questão da identidade só surge com a exposição a “comunidades” da segunda categoria – e apenas porque existe mais de uma ideia para evocar e manter unida a “comunidade fundida por ideias” a que se é exposto em nosso mundo de diversidade e policultural. É porque existem tantas dessas ideias e princípios em torno dos quais se desenvolvem essas “comunidades de indivíduos que acreditam” que é preciso comparar, fazer escolhas, fazê- las repetidamente, reconsiderar escolhas já feitas em outras ocasiões, tentar conciliar demandas contraditórias e frequentemente incompatíveis [...]. Ressalta dessas considerações que a complexidade é a tônica das comunidades fundidas por ideias e princípios, dada a variedade destes e face à ampliação do horizonte de relacionamentos e estruturações sociais que acontece à medida que se expandem e se diversificam os posicionamentos, as atividades possíveis, os grupos e os relacionamentos, em razão de múltiplos fatores, dentre os quais se destaca a ampliação dos conhecimentos produzidos e compartilhados e partilhados no processo de tradição.
Relembremos, pela utilidade, que as expressões processo de tradição, tradição ou tradição cumulativa são utilizadas nesta Tese como no sentido atribuído por Huxley (2019) ao fenômeno consistente na transmissão, geração a geração, de conhecimentos, comportamentos, costumes, usos, código comunicacional e saberes em geral, via atividades comunicativas, julgados como essenciais para a manutenção da organização associativa; a isto acrescentamos que a tradição alcança também aquilo que “deve ser esquecido” e o aquilo sobre o que se deve “silenciar”.
Tanto a perspectiva weberiana de sociedade quanto a baumaniana de
comunidade de destino se adequam à complexidade das sociedades
contemporâneas, as quais, especialmente as com características democráticas, abrigam em si comunidades e grupos diversificados, com valores e interesses, por
vezes, contraditórios, valendo ressaltar que um mesmo indivíduo pode pertencer a múltiplas comunidades e/ou grupos, e manter múltiplos relacionamentos com vários outros indivíduos, coletividades e grupos no seio social.
Ao nos referirmos à complexidade das sociedades contemporâneas não queremos nos contrapor à afirmação de Goldman (2018), fundada no conhecimento antropológico produzido até o momento, de que não existem sociedades “simples”, vez que toda sociedade sempre tem em si a complexidade específica de sua cultura, já que por “sociedade” e por “cultura” se deve entender o arranjo particular de processos e forças que pode estar presente no todo social ou em partes deste, dependendo da posição do observador e dos recortes que este faz a definição dos limites de seu objeto da pesquisa. Daí tais expressões possuírem sempre um sentido que precisa ser esclarecido no e pelo contexto em que são referidas.
Tais sociedades são frutos da longa jornada percorrida pela humanidade em busca da conciliação em todos os níveis entre individualidade e coletividade, entre o direito à igualdade (que busca o tratamento igual para iguais e desigual para desiguais) e o direito à diferença (que leva à diversidade e à pluralidade). Elas buscam permitir que o indivíduo seja tão livre quanto possível para conviver, razão pela qual, por exemplo, as organizações políticas dominantes, os Estados, são também organizações institucionais destinadas a realizar essa inesgotável tarefa nas sociedades contemporâneas, sempre complexas.
Sob tal ângulo, razão assiste a Maritain (1966, p. 20) quando afirma que o Estado é “[...] uma instituição autorizada a usar do poder e da coação [ ], um instrumento ao serviço do homem [...]”, caracterizando-se por ser, segundo seu entendimento, a principal parte do que denomina Corpo Político ou Sociedade Política, que reputa ser a mais perfeita das sociedades temporais e a que tende ao bem humano em completude: o bem comum (MARITAIN, 1966, p. 17).
É esta convivência interacional em sociedade que contribui para o sustento da humanidade e para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento individual e coletivo (TELLES JÚNIOR, 2008, p.16).
A entrada de um indivíduo para o mundo social ocorre a partir de sua família, e esta, tem seus membros figurando em determinados grupos sociais. Desta forma, o processo de socialização tem início no seio familiar e se desdobra com o passar do tempo, com o amadurecimento do indivíduo até que finalmente culmine com sua
integração em algum(ns) dos muitos setores do complexo social organizado política e juridicamente, hoje, o Estado.
A diversidade e a pluralidade certamente levam a embates constantes envolvendo indivíduos e grupos. Contudo, se tais embates se desenvolverem à luz de regras aceitas socialmente como legítimas para regulá-los, inclusive sob a perspectiva ideológica (ainda que com resistências óbvias), seu resultado legitimará a corrente de pensamento vitoriosa, o que, por sua vez, se estenderá como juízo de valor social ao grupo ou coligação de grupos sociais que tenham se articulado em defesa de tal corrente de pensamento, já que se mostraram em meio às disputas como seus também legítimos representantes, o que em uma democracia deve ser reconhecido até mesmo pelos grupos ideologicamente opositores e “perdedores”.
O sucesso da convivência interativo-cooperativa que permitiu o desenvolvimento da humanidade está diretamente ligado ao exercício de atividades relacionais colaborativas em meio à pluralidade e à diversidade, exigindo-se desde sempre mais do que mera convivência de individualidades, o que caracterizaria simples grupamento humano (gênero), tendo sido necessário que os indivíduos efetivamente se associassem entre si, de modo que o grupamento viesse a se caracterizar como uma sociedade política (espécie).
Nossa sociabilidade nos fez prosperar enquanto espécie, e é importante que se relembre: a organização sociopolítica deriva das interrelações humanas dialogais (mais ou menos democráticas) havidas sob a orientação da racionalidade (que abriga as ideologias plurais e diversas), de modo que a teia de relações sociais será tecida a partir de fios provenientes de vários campos sociais, tais como o científico, o moral, o tecnológico, o cultural etc., que têm suas origens essencialmente situadas em grupos sociais, todos eles, de alguma forma, atravessados e afetados em alguma medida pelo ordenamento jurídico, e vice-versa.
Obviamente, isto depende da invenção147 humana de uma estrutura
institucional148 cujo funcionamento se dê de modo ordenado e apropriado à realização
147 Empregamos o termo no sentido utilizado por Foucault (1980, p. 20-21) ao tratar das “histórias da verdade” a partir da análise do pensamento de Friedrich Nietzsche, o qual distingue “invenção” de “origem”, porque a invenção é a criação a partir de um ato de vontade, que se configura como uma ruptura com o que está dado pela natureza.
148 Moreira Neto (1992, p. 24) fornece uma conceituação sintética e útil para a compreensão do que seja uma instituição, qual seja, “[...] uma criação estável da convivência social dirigida à consecução de certos resultados específicos.”, no que é corroborado por Hauriou (1968, p. 31), que destaca: “Las instituciones representan en el derecho, como en la historia, la categoria de la duración, de la