Para a análise dos aspectos interdisciplinares, inicio com o pensamento de Lück (1995), que destaca a necessidade da realização do homem como pessoa, em todas as suas dimensões, superando o individualismo, os desajustamentos oriundos de uma ótica fragmentadora. Também há a necessidade da interação política e social do homem em seu meio.
Para a mesma autora,
A interdisciplinaridade, do ponto de vista da laboração sobre o conhecimento e elaboração do mesmo, corresponde a uma nova consciência da realidade, a um novo modo de pensar, que resulta num ato de troca, de reciprocidade e integração entre áreas diferentes de conhecimentos, visando tanto a produção de novos conhecimentos, como a resolução de problemas de modo global e abrangente (Lück, 1995, p. 62).
As resistências encontradas à adoção dos enfoques interdisciplinares situam-se no medo da perda de privilégios e/ou direitos dos professores; no romper hábitos e acomodações; na busca do desconhecido.
Feitas estas considerações, é preciso deixar claro que não houve uma intenção nem um efetivo trabalho que envolvesse os professores das diferentes disciplinas, em nenhuma
turma escolheu um tema para desenvolver a pesquisa e que estes temas permitiriam um enfoque além daquele que se refere aos cálculos e construção de tabelas e gráficos, propiciou a integração com outras disciplinas.
Os temas tratados possibilitaram que o estudo se mantivesse conectado com o mundo vivido pelos alunos, aumentando o interesse pelas tarefas realizadas. Mesmo com a alteração do tema na Escola A — que inicialmente era Drogas e passou para O que os jovens desta escola pensam do futuro — percebi, pelas considerações feitas pelos alunos sobretudo nas entrevistas individuais ao final do trabalho, que havia um grande interesse por parte deles. Este interesse evidenciou-se não somente no sentido de saber a opinião dos jovens da escola sobre o futuro, mas pela oportunidade de integração com as diferentes salas, o que foi possível quando os alunos da 6a C levaram os questionários às demais classes de 5a a 8a séries da escola.
Um outro aspecto interdisciplinar situa-se no estudo de gráficos e tabelas feitos pelos alunos (Anexos 6 e 7). Para interpretar/entender os gráficos e tabelas foi necessário mais do que decifrar as informações numéricas contidas nelas. Como expressa Carvalho (2001)
Os significados produzidos para a linguagem matemática devem ser independentes das características dos contextos (escolares ou não) nos quais aqueles assuntos foram tematizados pela primeira vez, livres das amarras dos contextos que os originaram, úteis em outros contextos, possibilitando uma análise crítica do texto escrito que envolve elementos da linguagem matemática
(p. 97).
Partimos das leituras das solicitações enunciadas em cada tarefa. As tabelas e gráficos foram extraídas de jornais. Esta atividade de leitura não é usual para os alunos e demandava um certo esforço. Também se fazia necessário o entendimento de alguns itens contidos nelas. Para a tarefa da Escola A, os termos que se referiam às drogas, a compreensão dos pictogramas e a interpretação de pequenos textos jornalísticos trouxeram dificuldades. Embora as notícias não fossem de difícil interpretação, os alunos inicialmente resistiram a enfrentar esta forma de informação. Além do mais, havia a solicitação de que redigissem suas impressões, atividade que para eles era novidade como proposta de aulas de Matemática.
No que se refere à Escola B, embora não tivesse sido intencional, alguns gráficos demandaram dificuldades para a sua interpretação, como por exemplo, o da Atividade 2 do Anexo 7. Repetiram-se aqui também os estranhamentos relacionados à necessidade de os alunos redigirem suas interpretações numa atividade de Matemática.
Tanto em uma sala quanto na outra, o posicionamento crítico-social dos alunos acerca dos temas abordados foi necessário, constituindo-se em exercício de cidadania. Na Escola A, os alunos discutiram os valores necessários para o que eles chamaram de felicidade. Família, honestidade, estudo e trabalho, para aqueles meninos e meninas, significavam o caminho para ser feliz na vida. A inclusão das perguntas “8” e “9” do questionário — O que você acha importante conquistar no futuro? ( ) fazer muitos passeios ( ) adquirir bens ( ) casar ( ) ter filhos e O mais importante no futuro é: ( ) ser uma pessoa honesta ( ) ter uma profissão ( ) ter uma família — levou a uma discussão sobre os três aspectos que aqueles jovens consideravam importantes: escola e profissão; o casamento; a honestidade. Seria ingenuidade considerar que apenas aqueles momentos seriam decisivos no planejamento do futuro desses alunos, no entanto, a ocasião de falar sobre o que é necessário construir para se chegar a um futuro mais livre dos conflitos com os quais muitos conviviam, acredito ter sido relevante.
Na Escola B, além das informações retiradas das matérias dos jornais (Anexo 7), os alunos fizeram painéis nas diferentes disciplinas envolvendo o racionamento de energia, tema que afligia os consumidores àquela época. Estavam interessados no consumo dos diferentes aparelhos elétricos de suas casas e, durante os nossos debates, relatavam que em suas casas faziam planos de racionamento, além de apontarem aspectos positivos do problema pelo qual estavam passando. Perceberam, por exemplo, que havia muitos gastos inúteis: lâmpadas ficavam acesas desnecessariamente; televisores ligados ao mesmo tempo em diferentes ambientes da casa, às vezes sintonizados no mesmo canal. Alguns até disseram que substituíram a televisão por leituras ou por conversas na família.
Por outro lado, discutiram que a falta de planejamento causou o racionamento de energia. Aqui se verifica mais uma vantagem da aprendizagem da Estatística numa perspectiva como a que deflagramos: a discussão de problemas que fazem parte do dia-a- dia do cidadão e que nem sempre são abordados na escola. Os alunos opinavam que, se o
governo tivesse dado atenção ao aumento do consumo de energia, o que era apontado por estatísticas, poderia ter evitado o racionamento, praticando uma política de conscientização.
Nos dois ambientes, Escola A e Escola B, a socialização do que pensavam os alunos diretamente envolvidos e ainda daqueles que responderam aos questionários, auxiliou a capacidade de interpretar o que as pessoas dizem, registrar tais interpretações e tirar conclusões. Em conjunto, os alunos destacaram ao final das tarefas, que “a Estatística pode ajudar a saber sobre o passado, compreender o presente e planejar o futuro”.
Por fim, as formas de divulgar a pesquisa também envolveram outras áreas de estudo, além da Matemática. A escolha das diferentes maneiras de divulgação foi feita pelos alunos, negociando com os colegas durante um debate em aula. As divulgações envolveram a confecção dos gráficos. Além dos instrumentos normalmente usados para a sua construção — régua, compasso, transferidor —, utilizaram lápis de cor e canetas hidrográficas, tanto na confecção dos gráficos em folhas de sulfite, quanto em folhas de cartolina. Estes gráficos foram depois reproduzidos pelos alunos no computador. O manuseio do programa necessário para a sua confecção não era de domínio de todos, sobretudo dos alunos da Escola A. O momento de explorar a sala de informática nessa escola, embora tenha sido numa única tarde, proporcionou, à maioria dos alunos, um primeiro contato com o computador e com a área de Informática.
Na Escola B, a confecção da matéria a ser divulgada no site da escola, mobilizou os alunos no sentido de procurar informações com pessoas que lidavam com informática dentro e fora da escola. Os gráficos feitos pelos diferentes grupos, acrescidos dos textos escritos pelos alunos, constituíram a divulgação da pesquisa pela internet.
As outras formas de expressão dos resultados — textos para jornais, faixas, cartazes para painéis, a paródia e a peça de teatro — envolviam a linguagem oral e escrita, expressão de idéias, expressão corporal, enfim, manifestações usualmente utilizadas em disciplinas que se relacionam com as Artes e Comunicação e Expressão.
Além da natural euforia dos alunos para realizar tais produções, aconteceu também a possibilidade de se apresentarem para outros, aspecto fundamental, sobretudo para os alunos da Escola A, tão desacreditados na comunidade escolar. A professora de Artes dessa escola elogiou seus gráficos, os colegas gostariam de também terem sido filmados e, inclusive o diretor da escola parabenizou-os pelas atividades realizadas na sala de
informática. Todos estes aspectos permitiram que os alunos se destacassem na comunidade escolar, deixando-os envaidecidos.
Assim, vemos que além da Matemática, as atividades necessitaram da concorrência de conhecimentos em outras áreas como Português, Comunicação e Expressão, Artes, Informática, além de influir na socialização dos estudantes em seu meio.
4. A aprendizagem de participar ouvindo, de expor e acatar opiniões,