CAPÍTULO 1 – A INFÂNCIA, AS BRINCADEIRAS E AS CANTIGAS DE RODA:
1.4. Aspectos literários e orais das cantigas de roda
As brincadeiras denotam diversas linguagens que permitem a construção de sentidos múltiplos pelas crianças. Durante a brincadeira com as cantigas de roda, diferentes modos semióticos como a poesia, a música, o canto, o texto verbal, a representação e o movimento são absorvidos de forma articulada realizando um engajamento semântico que produz significações dentro de um contexto situacional22e da cultura lúdica da infância. Vale salientar, conforme Martins (2012, p. 22) explicita, que “as cantigas de roda florescem nas diversões do sociais infantis as quais obedecem a um ritual para iniciação e que não foram transmitidas não por obras eruditas, mas por tradição oral”.
O que se tem observado, na atualidade, é uma reformulação das manifestações orais e representativas produzidas por estas brincadeiras. Diversos fatores, tais como a diminuição do número de membros do seio familiar, em especial, a redução no número de filhos por família, as mudanças comportamentais na sociedade frente a questões de cunho social (crescimento populacional e urbano, diminuição dos espaços ao ar livre, falta de segurança e violência, entre outros), a desvalorização destas brincadeiras em virtude do processo histórico e transmidiático das cantigas de roda, do uso de novos dispositivos tecnológicos e das novas concepções de infância para o momento atual da sociedade têm colaborado para que estas expressões genuínas estejam sendo organizacionalmente omitidas e se configurando como brincadeiras quase esquecidas, porém não extintas: elas ainda são reconhecidas pela população em geral.
22 Contexto situacional (ou de situação) é o contexto momentâneo ou imediato em que o texto está funcionando e sendo, de fato, utilizado (FUZER; CABRAL, 2014).
42 Martins (2012) elucida que as cantigas de roda tomaram diferentes caminhos durante o percurso histórico. A partir disto, podemos discutir que, inicialmente, estas brincadeiras eram cantadas e representadas, em especial, por grupos femininos23 no núcleo familiar ou na comunidade, “[...] podendo ser vista nas ruas, praças, pátios escolares, festinhas domiciliares” (JURADO FILHO, 1985, p. 9). Em contrapartida, uma vez percebidas como potenciais ferramentas didáticas para a pedagogia e para a educação, elas foram inseridas no ambiente escolar e passaram a ser utilizadas pelos professores na sala de aula com grupos mistos (meninos e meninas) para o ensino da língua materna através de suas estruturas em verso e prosa. As cantigas de roda também passaram a aparecer nos livros e materiais didáticos, bem como em outras mídias tais como fitas cassetes, discos de vinil, CDs e DVDs com função educativa e, em um outro patamar, com função de entretenimento musical.
O que tem se observado é que o caráter oral e lúdico destas brincadeiras vem gradativamente perdendo seu prestígio na escola. Existe a presença das cantigas de roda em coleções de livros didáticos em língua portuguesa voltados para a educação infantil. Porém, o trabalho é mais voltado para as crianças de menor idade, sobretudo para crianças entre os 5 e 7 anos de idade, com apresentação de cantigas e o trabalho com elas realizado para o estudo institucional da língua materna. Atualmente, por sua característica de sempre estar em evidência (mas nunca extinta), além de sua presença no livro didático, podemos encontrar as cantigas de roda registradas em meios escritos ou em outros meios midiáticos-tecnológicos, como nas plataformas digitais na internet, representadas em vídeos online voltados para o público infantil, determinando que elas ainda são reconhecidas pela sociedade.
23 Na obra Folclore Infantil, de Veríssimo de Melo (1985), há uma seção em que o autor traz inúmeras cantigas de roda com partituras e com a descrição de como elas devem ser brincadas. Atenta-se para o fato de que as explicações dadas ao modo de brincar sempre revelam informações sobre como as meninas deveriam se comportar durante a brincadeira com a cantiga de roda, não existindo nenhuma instrução voltada para os meninos.
43 Figura 3: presença das cantigas de roda nos livros didáticos de língua portuguesa no ensino infantil.
Todo este processo histórico e transmidiático demonstra o reconhecimento destas narrativas orais através das gerações, mesmo que a essência desta brincadeira, a disposição em roda com representatividade oral pelas crianças, não seja tão percebida nos dias atuais. Apesar da existência de alguns reveses diacrônicos refletidos pelas mudanças ocorridas no modo de manifestação das cantigas de roda, Maranhão, Sá e Melo (2014) reportam que “alguns estudiosos e folcloristas [...] contemplam as cantigas de roda como interface de uma rica manifestação folclórica a que denominam de Literatura Oral” (p. 123).
Ong (1998) ilustra que a existência do termo “literatura” tem significação essencial para aquilo que é escrito. Pensar, pois, em uma Literatura Oral demonstraria uma contradição à própria etimologia da palavra (do latim litera, referente à letra do alfabeto, à escrita). Os textos orais, tais como cantigas de roda, parlendas, contos e provérbios, oriundos do saber popular, acabam por serem remetidos inevitavelmente e de forma análoga ao texto escrito. Porém, os produtos orais, lateralmente às produções escritas, se adequam e são percebidos por meio da vocalização, característica que melhor define a natureza oral destas produções. Nesse sentido, Alcoforado (2008) reflete algumas considerações feitas por Zumthor (2008), dentre as quais se faz importante destacar que a natureza oral do texto se acentua através da plenitude da voz. Essa acentuação imprime mais força à estrutura modal do texto e acaba por explorar, também, fatores comunicativos de cunho extralinguístico para uma maior ênfase ao ritmo e às sonoridades significativas, não tendo o foco na estrutura verbal do texto, que é legado da escritura.
A vocalização feita pelas crianças ao brincar com cantigas de roda torna-se o instrumento primordial para a execução, representação e veiculação da brincadeira. Sem a presença da voz, esta brincadeira não haveria de existir. Não se concebe brincar de roda sem a expressão cantante realizada pelas crianças. Desta forma, essa brincdeira, por mais
44 que apresente características do movimento, da representação, do som, dos gestos etc., tem, por excelência, o caráter da oralidade. Braga (2013) demonstra que elas estão sempre em evidência por serem transportadas oralmente de geração em geração através do canto e da representação, que reforçam e permitem o reconhecimento, a manutenção e o desenvolvimento da cultura local de um povo.
A essencialidade oral das cantigas de roda e o transporte de suas canções através do tempo e do espaço refletem um caráter existencial de produção e de modificações realizadas por quem faz uso delas na brincadeira. É fato que elas apresentam autoria desconhecida. Não é possível precisar o autor – ou autores - das cantigas porque elas fazem parte do coletivo e do inventário cultural de uma comunidade, refletidos em um momento histórico e rodeados de conotações folclóricas.
As narrativas orais, como as cantigas de roda, reúnem um acervo de experiência de vida do(s) autor(es) e são transmitidas para outras pessoas que acabam por se tornarem coautoras. Percebe-se, entretanto, que as formas de cantar estas canções apresentam características não específicas (a depender da comunidade ou região em que ela é cantada) e que certas palavras e expressões são veiculadas diferentemente pelas crianças durante a brincadeira, o que caracteriza a existência de versos do mesmo texto e diversidade na execução da brincadeira.
Nesse sentido, a coautoria das cantigas de roda também é desconhecida, mas pertence aos que as cantam e participam da brincadeira. Podemos dizer que este fato se dá pela ocorrência de alterações ou inclusões vocabulares próprias do grupo social em que ela é utilizada, e por acomodações fonético-fonológicas e modificações léxico-semânticas realizadas pelas crianças durante o processo de aquisição da linguagem. Estas características proporcionam a diversidade de versões de uma mesma cantiga, fato que se dá, principalmente, pela substituição de nomes das personagens e por trocas sinonímicas de verbos, substantivos e adjetivos, bem como o intercâmbio fonético nas palavras. Porém, os contextos musical e cancioneiro são preservados, o que caracteriza a versão ou variante do mesmo texto e/ou brincadeira.
Inseridas em um âmbito cultural e sendo parte dos acervos de textos orais antes conhecidos como Literatura Oral, a distinção oral destas brincadeiras demonstra que, mesmo evidenciadas, estas narrativas orais podem cair no esquecimento de um povo, mas que podem ser reerguidas e reconhecidas por outros povos de gerações futuras a partir da sua utilização nas brincadeiras, perdurando com o passar do tempo. Além disso, a possibilidade de variação nos textos orais permite que ocorram adaptações de contornos
45 locais e temporais, embora a essência destes textos aponte sempre para o universal (MARANHÃO; SÁ; MELO, 2014).
Silveira (2014) ainda explicita que a existência de diversidades e variedades no texto oral oferece a possibilidade de manutenção na memória dos grupos humanos que os utilizam, mantendo uma matriz que identifica e aceita as diversas formas de dizê-lo. Isto, então, contribui para que haja certa legitimidade mnemônica das cantigas de roda, produzidas em performance ao serem brincadas e cantadas pelas crianças, independentemente da versão que seja utilizada.