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3 ARCABOUÇO TEÓRICO-ANALÍTICO

3.4 ASPECTOS METODOLÓGICOS DOS ESTUDOS BAKHTINIANOS

Antes de adentrarmos às próximas discussões, faz-se necessário explicar os termos ideologia e ideológicos que serão frequentemente debatidos nesta dissertação. A ideologia na percepção do círculo pode ser compreendida como a dimensão valorativa contida nos enunciados e de modo algum pode ser vinculada ao viés marxista que a enxerga como algo negativo. As ideologias ou conceitos ideológicos são dimensões que não se dissociam da própria linguagem. Por isso, de acordo com Faraco (2009)

esses termos (ideologia, ideologias, ideológico) não têm, portanto, nos textos do Círculo de Bakhtin, nenhum sentido restrito e negativo. Será, portanto, inadequado lê-los nestes textos com o sentido de “mascaramento do real”, comum em algumas vertentes marxistas.(...)Para o Círculo, a significação dos enunciados tem sempre uma dimensão avaliativa, expressa sempre um posicionamento social valorativo. Desse modo, qualquer enunciado é, na concepção do Círculo, sempre ideológico - para eles, não existe enunciado não-ideológico. (FARACO, 2009, p.47. grifo do autor)

É dialogando com o princípio ideológico do Círculo que iremos trabalhar com a construção do que é ou não valorativo naquilo em que debatemos e nas ladainhas a serem analisadas. Quando falarmos sobre valorização também estaremos falando de ideologias e vice-versa.

Uma das discussões primordiais do círculo bakhtiniano em Marxismo e Filosofia da Linguagem ([1929]2004) é a problematização da filosofia da linguagem. E dentre todo o percurso percorrido para se explicar um pouco essas discussões nos deparamos, também, com a discussão, que para nós dentro desta obra é mais pertinente, sobre a filosofia do signo ideológico.

A filosofia do signo ideológico encara os signos como estruturas que fazem parte da interação entre uma consciência e outra e como tipos de estruturas que são, em suma, ideológicas.

Separando os fenômenos ideológicos da consciência individual nós os ligamos às condições e às formas da comunicação social. A existência do signo nada mais é do que a materialização dessa comunicação. É nisso que consiste a natureza de todos os signos ideológicos. Mas esse aspecto semiótico e esse papel contínuo da comunicação social como fator condicionante não aparecem em nenhum lugar de maneira mais clara e completa do que na linguagem. A palavra é o fenômeno ideológico por excelência. A realidade toda da palavra é absorvida por sua função de signo.

A palavra não comporta nada que não seja ligado a essa função, nada que não

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tenha sido gerado por ela. A palavra é o modo mais puro e sensível de relação social. (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 2004, p.36)

Tendo o signo uma materialização na linguagem, este encontra na palavra um aspecto social determinante com tema e estrutura concretos, pois é através da palavra que as mudanças sociais são registradas. A palavra entendida como fenômeno ideológico por excelência corresponde ao que é desenvolvido pelos sujeitos em meios específicos, com funções e intenções específicas. Por exemplo, existem diferenças valorativas quando se tem a escolha de uma palavra, assim temos como exemplo a escolha de se trabalhar com o termo afro-brasileiro em vez da utilização afro-descendente. Mesmo que o significado seja parecido, a relação ideológica do signo é diferente, justamente porque as palavras são diferentes, daí existir a possibilidade de duas palavras aparentemente sinônimas, poderem designar outras perspectivas a partir de suas formas concretas de enunciação.

Existe um sistema ideológico do qual fazemos parte que diz respeito às nossas crenças e aos valores que atribuímos para o que se situa neste mundo. A obra Marxismo e Filosofia da Linguagem ([1929]2004) recebe influência nos princípios marxistas e apesar disso as ideias desenvolvidas nesta obra têm como propósito repensar justamente o conceito de ideologia do marxismo que se torna restrito por não compreender que todo signo é por si só ideológico. Isto é, “tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo”(BAKHTIN; VOLOSHINOV, 2004, p. 31). O fora de si mesmo são os sentidos que podem ser atribuídos às palavras, sentidos múltiplos, porém, que caminham junto com a palavra por serem constituídos a partir dela. Este caminhar junto pressupõe que a escolha de determinada palavra é uma escolha também ideológica. Portanto,

a palavra acompanha e comenta todo ato ideológico. Os processos de compreensão de todos os fenômenos ideológicos (um quadro, uma peça musical, um ritual ou um comportamento humano) não podem operar sem a participação do discurso interior. Todas as manifestações da criação ideológica – todos os signos não-verbais – banham-se no discurso e não podem ser nem totalmente isoladas nem totalmente separadas dele.

(BAKHTIN; VOLOSHINOV, 2004, p. 37)

O discurso verbal ou extra-verbal faz parte de uma criação ideológica que corresponde tanto à escolha de um signo específico, quanto à compreensão deste. A interação social e verbal engloba este escolher e compreender, isto é, engloba uma interlocução, por significar realidades sociais próprias de um determinado contexto.

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Os temas e discussões presentes em um determinado discurso trarão como possibilidade uma valorização vinculada aos enunciados que comportam tais signos.

Dessa forma, não há como dizer que exista linguagem sem ideologias.

A fim de veicularmos de forma mais adequada o corpus de nossa pesquisa, iremos elencar as regras que farão parte da nossa perspectiva teórico-analítica, cuja utilização servirá de base para toda a estrutura da dissertação:

1. Não separar a ideologia da realidade material do signo (colocando-a no campo da ‘consciência’ ou em qualquer outra esfera fugidia e indefinível).

2. Não dissociar o signo das formas concretas da comunicação social (entendendo-se que o signo faz parte de um sistema de comunicação social organizada e que não tem existência fora desse sistema, a não ser como objeto físico.) (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 2004, p. 44)

Sabemos que para a nossa proposta de análise existem temáticas específicas como as relações étnico-raciais e as construções de identidades nos discursos. É importante deixar claro que, todas as análises tentarão abarcar o máximo possível de compreensão acerca das ideologias que perpassam os enunciados de forma concreta, a partir da construção de enunciados concretos no gênero ladainha.

A partir dos pressupostos metodológicos evidenciados acima garantiremos às análises uma vinculação com o próprio meio em que se estabelecem, com as crenças que são exaltadas neste mesmo meio, assim como não faremos associações que vão para além do que nos é apreensível como real. As abstrações quanto à relação dos enunciados com a prática da capoeira só serão feitas para elucidar as teorias propostas aqui, isto é, sem fugir dos aspectos enunciativos e valorativos dos próprios enunciados.

Utilizaremos como base metodológica, também, os princípios unidos ao entendimento da interação verbal cuja

ordem metodológica para o estudo da língua deve ser o seguinte:

1. As formas e os tipos de interação verbal em ligação com as condições concretas em que se realiza.

2. As formas das distintas enunciações, dos atos de fala isolados, em ligação estreita com a interação de que constituem os elementos, isto é, as categorias de atos de fala na vida e na criação ideológica que se prestam a uma determinação pela interação verbal.

3. A partir daí, exame das formas da língua na sua interpretação linguística habitual. (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 2004, p.124)

Ou seja, é necessário que se estudem os contextos de que fazem parte as interações verbais que serão analisadas; o gênero dessas interações, bem como suas estruturas.

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Este nosso aporte teórico será muito utilizado no capítulo em que faremos as análises das ladainhas. Assim, traremos essas discussões à tona novamente com uma característica menos descritiva e mais prática, da mesma forma com que afirma Faraco (1998) quando este diz que

não basta estudar a heteroglossia, isto é, não basta caracterizar as línguas sociais. É preciso ir além e se envolver com a intrincada rede de relações dialógicas que se estabelecem entre as inúmeras línguas sociais, buscando explicitar os diferentes processos pelos quais se dá essa complexa dinâmica dialógica. (FARACO, 1998, p.9 grifo do autor)

Busquemos agora o conhecimento da prática capoeira angola, para podermos explicitar os processos dialógicos nas ladainhas e compreender um pouco mais sobre as enunciações propostas na entrevista.