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6. PENHORA “ON LINE” E O PRINCÍPIO DA MENOR ONEROSIDADE

6.1. Penhora ―On Line‖ – Procedimento

6.1.2. Aspectos negativos

Caso o presente trabalho fosse encerrado no item anterior chegaríamos à ilusória conclusão de que todos os problemas relacionados à Execução Fiscais, então, estariam resolvidos pela excepcional, insubstituível e revolucionária espécie de Penhora ora tratada.

Na verdade, a prática da penhora ―on line‖ extrapola os limites do Convênio BACEN JUD. Alguns juízes ao receberem os ofícios determinam, indevidamente, a transferência do valor bloqueado para a conta judicial, o que extrapola os limites previstos no Convênio BACEN JUD, já que este apenas prevê a possibilidade de determinação de bloqueios e desbloqueios de contas correntes e aplicações financeiras.

A penhora ―on line‖ viola o direito e garantias fundamentais que destacamos de grande importância ao desenvolvimento de todo país, como, a preservação dos direitos patrimoniais, da livre-iniciativa e da função social da empresa, como geradora de emprego, e assim, da própria economia nacional.

Admitir que o juiz, arbitrariamente, determine a quebra do sigilo bancário do devedor, fere diversos princípios constitucionais (como por exemplo, da intimidade e do devido processo legal) e regras processuais inerentes à execução (o artigo 620 do Código de Processo Civil – MENOR ONEROSIDADE AO DEVEDOR).

Falar em princípios quando se tem um instrumento de tanta efetividade processual como a Penhora ―On Line‖ certamente cultiva animosidade e desconfiança, principalmente

193 Ob.cit., pág.35.

168 porque já nos deparamos com muitas criações científicas que não encontram saídas plausíveis e se apoiam em princípios sem qualquer força probante.

Não, estamos nos debruçando em argumentos que estão longe de plantar essas vigas falsas.

O Processo de Execução Fiscal deve buscar um equilíbrio, uma harmonização, entre o direito de um credor em haver o que lhe é devido e o direito de um devedor em se defender de cobranças ilíquidas, incertas ou inexigíveis.

Sabemos que o pagamento tributário é um dever de todos nós, mas, pagar tributo com clara ofensa à dignidade, ou de forma a gerar grande descompasso na continuidade a uma atividade empresarial não pode servir de base a um país e muito menos a um dos poderes da república (JUDICIÁRIO).

Assim ocorrendo, a penhora ―on line‖ configura-se como um verdadeiro abuso de poder.

Discorremos vastamente no Capítulo antecedente que, é direito do devedor quando citado para realizar o pagamento do crédito tributário inadimplido, nomear bens ou direitos na garantia da execução, e, então, possa exercitar a ampla defesa e o contraditório no processo.

A ordem de nomeação é relativa, ou seja, pode ser alterada de acordo com as circunstâncias fáticas de cada caso concreto, cabendo ao magistrado decidir com razoabilidade e justiça social.

Não se pode admitir que a Penhora ―On Line‖ como ato de afetação afiance inúmeros excessos, como destacaremos abaixo:

A) Excesso de execução: Afetação de todas as contas da Pessoa Jurídica A determinação de bloqueio pode afetar todas as contas bancárias do devedor, independentemente da quantia necessária para o pagamento da dívida, o que resulta num verdadeiro excesso de execução. Ao digitar apenas o CNPJ da empresa ou até mesmo o CPF dos sócios, a ordem dada atinge todas as contas cujos dados correspondem em nível nacional. Da mesma forma, tal ação compromete o capital de giro da empresa, tornando o ato abusivo, por não atender o princípio da economicidade da execução, previsto no artigo 620, do CPC.

B) Extrapola os limites do título executivo

A penhora extrapola os limites contidos no título executivo. Todo valor bloqueado que extrapole o que indica o título se revela em excesso e não faz parte da execução, logo, a

169 medida não poderia ser adotada, pois o devedor deverá sofrer constrição de seus bens até o limite do necessário para garantir a obrigação.

Nesse sentido esclarece o i. Professor José Frederico MARQUES194 que: ―O título executivo, judicial ou extrajudicial, como pressuposto específico da execução forçada, além de lhe servir de fundamento, traça-lhe os limites e extensão‖.

Os limites e extensão do título executivo extrajudicial representado pela CDA não podem ser sobrepostos com outros valores ou outras disposições sob pena de atingir diretamente o sucessivo Controle de Legalidade dos atos administrativos praticados, e, com isso, declinar da própria veracidade daquela inscrição.

Sabemos que o artigo 26 da LEF abaixo transcrito autoriza o cancelamento da inscrição na Dívida Ativa:

―Art. 26 - Se, antes da decisão de primeira instância, a inscrição de Divida Ativa for, a qualquer título, cancelada, a execução fiscal será extinta, sem qualquer ônus para as partes‖.

Esse cancelamento está condicionado no tempo e no espaço na Execução Fiscal. No tempo, pois essa decisão de primeira instância retrata a Sentença a ser proferida nos Embargos à Execução Fiscal, criando um tempo razoável para que o Procurador que a inscreveu possa convalidar, com a defesa do devedor e seus argumentos, a admissibilidade de seu instrumento, e ainda, no espaço, pois, assim resolvido, os limites da execução estarão condicionados àqueles conferido pelo seu respectivo Título Executivo, no caso a CDA.

Não faz sentido algum a penhora ―On line‖ exceder o valor do título.

C) Ônus excessivo à empresa

Sabemos que o capital de giro de uma empresa representa seu alicerce no prosseguimento de suas atividades. Não se pode acessar, incondicionalmente, esses alicerces sem o devido planejamento, ou provisionamento.

As consequências podem acarretar em ônus excessivo, de fácil percepção, quando dessa penhora excessiva, resultar em valores destinados ao pagamento de outras obrigações como tributos, ou até mesmo, sobre outras verbas de natureza alimentar, como salários de empregados.

194 MARQUES, José Frederico; SANDOVAL, Ovídio Rocha Barros. Instituições de Direito processual Civil.

170 Temos certeza que, a empresa, sempre que possível deve ser preservada, em razão de relevante função social que desempenha na sociedade moderna, pois é fonte geradora de empregos.

Ocorre que nem sempre essa condição é considerada, como destaca o autor Sávio195 sobre a Penhora ―On Line‖:

―Ainda que se informe ao juiz da causa que já foi efetuado bloqueio suficiente em uma conta corrente, em vários casos o magistrado não libera imediatamente as outras contas, aguardando a transferência do valor para conta do Banco do Brasil em nome do juízo. Sem dúvida, é uma situação que pode levar uma empresa a uma crise financeira, podendo inclusive, inviabiliza-la durante alguns dias. Alegam os senhores juízes, que eles nada podem fazer, pois se trata de um problema exclusivamente operacional, competindo o Banco Central a criação de mecanismos que limitem a penhora em uma conta até o total da dívida.‖

Contrários ao absurdo acima descrito, destacamos que, na efetivação da penhora incumbe ao magistrado aferir as circunstâncias de cada caso concreto, e decidir com cautela e reflexão, mormente porque as normas instrumentais não possuem caráter absoluto, a ponto de afetarem a sobrevivência de uma empresa ou o normal desenvolvimento produtivo do patrimônio do devedor.

Nesse descompasso, alertamos ainda que, a ordem de desbloqueio não acompanha a mesma rapidez que o bloqueio, fazendo com que o devedor fique a mercê das secretarias das Varas, e por isso nos adverte o i. processualista Dr. Cândido DINAMARCO196:

"Esse procedimento leva, em alguns casos, semanas, gerando transtornos e colocando em risco a saúde econômica das empresas executadas‖.

A invasão bancária dos devedores prestigia claramente os maus devedores e cria grande deficiência no sistema, como novamente pondera o i. Professor197 abaixo destacado:

―[...] todo movimento de agilização encontra limites legitimamente intransponíveis, que levam o construtor do sistema a conformar-se com o racional equilíbrio possível entre duas exigências antagônicas, a saber: de um lado a celeridade processual, que tem por objetivo proporcionar a pacificação tão logo quanto possível; de outro, a ponderação no trato da causa e das razões dos litigantes, endereçada à melhor qualidade dos julgamentos.‖

195 ZAINAGHI, Sávio Domingos. Mitos e Verdades sobre a Penhora on line. Direito e Justiça. O Estado do

Paraná - Publicado em 08.08.2004, p. 05.

196 DINAMARCO, Cândido Rangel: Instituições de Direito Processual Civil, 1°vol. 4.ed. São Paulo: Ed.

Malheiros. 2004, p. 141.

197 DINAMARCO, Cândido Rangel: Instituições de Direito Processual Civil, 1°vol. 4.ed. São Paulo: Ed.

171 Resta claro que nesses moldes a medida não é adequada, exigível e muito menos proporcional. Não podemos conceber o fato de que, ao digitar apenas o CNPJ da empresa ou até mesmo o CPF dos sócios, a ordem dada possa atingir todas as contas em nível nacional.

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