Factores ambientais influenciam frequentemente a performance física e mental de futebolistas. Assim, podem-se tornar fundamentais as intervenções nutricionais que contribuem para minimizar a desidratação, hipertermia, hipotermia, hipoxia, deficiência de substratos, perda de sono e dessincronização do “relógio biológico” causadas por ambientes frios ou quentes, altitude e diferenças de fuso horário.
9.1- Altitude
A altitude tem um impacto negativo na performance fisiológica (74). Nestas condições existe uma menor capacidade de endurance, menor coordenação, aumento das necessidade de hidratos de carbono e água, alterações no apetite e preferências alimentares, menor performance cognitiva e aumento da fadiga e stress oxidativo. As intervenções nutricionais específicas passarão pelo consumo de líquidos e sólidos ricos em hidratos de carbono, garantir que a ingestão diária recomendada de ferro é cumprida e suplementar o consumo de vitamina C e E e outros antioxidantes, se a exposição for prolongada. O consumo de tirosina mostrou reduzir o défice cognitivo, doenças causadas pela altitude e défices na performance (28).
9.2- Calor
Em ambientes em que as temperaturas são muito elevadas há um aumento do metabolismo anaeróbio, maior taxa de depleção de glicogénio, maiores perdas de fluidos e electrólitos e aumento da taxa de metabolismo basal. Isso significa que em termos nutricionais deve existir principalmente um alto consumo de
hidratos de carbono, água e electrólitos, com especial atenção à reposição de sódio (28). Os atletas jovens devem ter cuidados redobrados, já que se encontram mais susceptíveis à exaustão por calor (6).
9.3- Frio
Por outro lado, em temperatura muito baixas, os maiores risco para um futebolista são a hipotermia e desenvolvimento de potenciais lesões (a força muscular baixa quando a temperatura do músculo é muito reduzida) (6). O frio também pode reduzir a performance em exercícios de endurance por baixar a utilização de ácidos gordos livres e aumentar a utilização de glicose plasmática e glicogénio muscular. Uma menor sensação de sede em ambientes frios potencia uma possível desidratação à qual se junta um aumento da diurese provocado pelas baixas temperaturas. As necessidades energéticas encontram-se aumentadas devido à termorregulação (28).
9.4- Jet lag
Viajar entre países com diferentes fusos horários é outra situação muito frequente no futebol. O jet lag reflecte a dessincronização temporária do “relógio biológico” do viajante, baseado no ponto de partida e hora local no destino. Esta ocorrência normalmente origina cansaço periódico durante o dia, desconcentração, aumento da irritabilidade, alteração da função gastrointestinal e distúrbios no sono durante a noite. Uma adaptação prévia ao horário e particularidades do país de destino antes da viagem, adoptando hábitos, horários, tipos e composição das refeições ajuda a reduzir os efeitos negativos do jet lag.
Um consumo moderado de cafeína reverte temporariamente a sonolência e défices cognitivos da privação de sono (28).
Análise Crítica e Conclusão
A alimentação de muitos futebolistas é inadequada, sendo caracterizada por um défice de ingestão de hidratos de carbono aliado a um excesso de consumo de gordura. É determinante que haja uma crescente consciencialização dos futebolistas acerca da importância que aspectos como a alimentação têm no seu rendimento. Muitos mitos e crenças erradas sobre a alimentação acompanham jogadores, treinadores e até médicos no futebol. É fundamental educar equipas técnicas e particularmente equipas médicas dos clubes para as particularidades da nutrição de um futebolista. Felizmente, com o desenvolvimento da ciência aliada ao deporto, os grandes clubes vão começando a reconhecer a importância de ter nutricionistas responsáveis pela alimentação dos seus atletas. Isto é tão importante para as equipas seniores como para os escalões de formação, onde a alimentação além de contribuir para a performance, é determinante para um correcto crescimento e desenvolvimento dos jovens futebolistas. Graças ao esforço e à competência de alguns nutricionistas especializados no desporto do nosso país, esta profissão começa a ter destaque no futebol português, o que irá certamente contribuir para engrandecer e potenciar a qualidade dos nossos jogadores e clubes.
A nutrição e alimentação, em conjunto com outros factores, são determinantes para o desempenho desportivo de um futebolista. Aspectos preciosos, como atrasar a sensação de fadiga, evitando a perda de qualidades
técnicas e físicas durante treinos e jogos; tirar o máximo proveito das adaptações ao treino; prevenir lesões e doenças e obter uma composição corporal ideal, são demasiado determinantes para serem ignorados pelos grandes clubes de futebol. Neste desporto colectivo, que tantas paixões despoleta, a competitividade e rivalidade existentes entre os clubes pouca margem de manobra deixam para erros. Assim, é fundamental que a alimentação de um futebolista seja direccionada para as suas necessidades específicas, de modo a que este possa tirar o máximo proveito das suas características e do seu potencial genético enquanto jogador de futebol.
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