Nas observações em sala de aula e no trecho de aula filmado e selecionado se
constatou que o PA prefere realizar seu trabalho em pé mesmo que tenha que se inclinar para
digitar. Considerando que Clot (2008/2010, p. 122) diz que “o gesto profissional de um
sujeito é uma arena de significações”, busca-se analisar o estilo do PA para compreender o
que o leva a optar pelo gesto de trabalhar em pé mesmo que tenha que se inclinar para digitar.
Para a análise do estilo do PA será utilizado o trecho de aula selecionado e os
diálogos da Autoconfrontação Simples, que ficaram registrados no formato audiovisual e que
foram transcritos, nos quais é possível constatar certos aspectos do estilo do PA, os quais
podem ser acompanhados a seguir.
3.1.1 Um Professor que procura manter a atenção dos alunos
Isso é possível constatar logo no início do trecho de aula quando o PA muda o tom
de voz e diz “nesse momento entra a parte MAIS IMPOrtante de um programa que usa a rede
((senta-se sobre uma mesa próximo aos alunos))” (AA, L. 89-90). Ele não só diz que é a parte
mais importante, como também utiliza em sua construção composicional uma expressão de
voz mais forte. Ao se observar, o PA pausa o vídeo e explica que utiliza esse recurso de
mudar o tom de voz para chamar a atenção do aluno que poderia estar distraído com outra
atividade: “mas até uma maneira se eles estiverem fazendo algo aleatório quando eles ouvem
aquela... „pessoal AQUI ó‟ daí o pessoal já... dá uma pausa e: presta atenção [...] eu usei esse
recurso para chamar atenção mostrar o que ( )” (AA, L. 97-100). O PA em sala de aula se
encontrava em uma relação interlocutiva com seus alunos. A filmagem dessa ação apreende
esse momento e dessa forma se têm o PAV. Nesse caso o PA se torna outro para ele mesmo,
ele se duplica: está no vídeo e está se observando no vídeo. Ao se observar percebe que
marcou seu tom de voz como uma expressão mais forte e explica que faz isso para chamar a
atenção dos alunos.
Nota-se que acompanhado desse tom de voz há um gesto de buscar a proximidade
com o aluno quando o Professor se senta em uma mesa próxima aos alunos. Isso indica que,
quando o Professor usou o tom de voz para chamar a atenção dos alunos ele estava em pé e se
movimentando pela sala. Talvez se estivesse sentando não teria condições para perceber a
necessidade de chamar a atenção dos alunos.
Além do tom de voz, também usa perguntas para fazer a manutenção da atenção dos
alunos. Na sequência do trecho de aula, faz perguntas retóricas “já ouviram falar em
protocolo? O que significa protocolo?” (AA, L. 101-102). Ao explicar o que estava fazendo
no vídeo, diz que tem o objetivo de com isso chamar a atenção dos alunos: “aqui é um
exemplo quando eu fiz uma pergunta... e respondo na... na sequência também visando... é:::...
chamar atenção dos alunos” (AA, L. 103-104).
Logo no início da Autoconfrontação Simples, ao se observar no vídeo, percebe que
se sentou sobre uma mesa durante uma explicação e se posiciona à respeito. Explica que o
gesto de se sentar sobre a mesa, enquanto provoca uma reflexão através de perguntas seguidas
de pausa, é para buscar uma proximidade com os alunos: “esse é:: um hábito que eu tenho
com os alunos assim pra::: me aproximar mais então na verdade sempre que eu posso eu sento
ao lado deles ou chego perto mesmo pra ajudar” (AA, L. 106-108). A palavra “hábito” indica
uma “disposição adquirida pela repetição frequente de um ato” (FERREIRA, 2008, p. 446).
Ou seja, o gesto de se sentar sobre a mesa é utilizado para quebrar a formalidade que distancia
professor e alunos, para estar próximo ao aluno.
Existe uma ideia de que o Professor não pode sentar sobre a mesa em sala de aula.
Essa ideia vem de especialistas que recomendam aos Professores o que devem ou não
fazerem, sem participarem da realidade de sala de aula do Professor. Entretanto, para essa
abordagem o Professor é um especialista sobre a atividade que realiza, ninguém saberá dizer
melhor do que ele o quê faz e porque faz. A explicação do PA sobre seu gesto de se sentar
sobre a mesa revela uma recriação estilística sua para estar próximo de seus alunos.
Constata-se que para lançar mão de se sentar sobre a mesa é preciso, primeiro, estar
em pé.
3.1.3 Um Professor que utiliza exemplos
No trecho de aula, o PAV em pé e inclinado simula um programa de servidor com
um protocolo de informações, tais como data, hora, entrada, saída, etc. Ao se observar,
explica o seguinte: “esse é outro recurso que eu costumo utilizar com uma certa frequência... é
usar exemplos tipo::... por/ como é algo bastante técnico e muitas vezes é o primeiro contato
do pessoal... usar exemplos [...] tipo eles fazerem o mapa mental” (AA, L. 123-127).
A expressão “costumo utilizar” indica que isso é um tipo relativamente estável de
ação e enunciado, ou seja, é um gênero de atividade no trabalho do PA. O que chama atenção
é que o PA explica que tem uma forma para utilizar o exemplo: “falar de forma um pouco
mais pausada:: e... focar um pouco mais” (AA, L. 130). O uso de exemplos é um gênero da
atividade docente e o PA utiliza com o seu estilo. Isso fica marcado em sua ação no vídeo e na
sua explicação sobre a ação.
O PAV continua em pé e se inclinando para digitar enquanto explica de forma
dosada. A explicação é dosada no sentido de não fazer para o aluno, e sim orientá-lo usando
recursos como o passo a passo “para eles montarem o conhecimento então e não
simplesmente ler o conheci/ é:: não não entregar tão mastigado” (AA, L. 131-132).
No trecho de aula, o Professor à medida que executa o programa, que está sendo
simulado, exemplifica-o passo a passo. E mesmo um passo que os alunos já estudaram em
outra disciplina é exemplificado para ficar bem marcado o que está sendo agregado na nova
situação. Conforme AA (L. 139-144, grifos da pedagoga-pesquisadora):
tá daí aqui outra situação de exemplo né... é::: focando... algo bem específico que a gente vai trabalhar então “nessa situação aqui o que que a gente vai fazer” cliente ou protocolo... que eles já conhecem já viram em outra disciplina mas nesse protocolo então nesse conjunto de regras o meu cliente vai começar... a transação pra eles saberem que como é duas pessoas um tem que trabalhar em sincronismo com... com a outra
Tanto no trecho de aula quanto na explicação do Professor, ficam explícitos dois
tipos de exemplos. Um exemplo mais amplo, que se refere à programação de um servidor e
que para os alunos é o primeiro contato com o conteúdo. Outro exemplo mais específico, que
se refere a um passo da programação, o “protocolo”, e com o qual os alunos já tiveram algum
contato em outra disciplina. Os alunos são levados a mobilizar um conhecimento que já têm
para aplicá-lo em uma situação nova e com mais elementos. Nesse caso, os alunos já
conheciam um dos passos que deveriam fazer, e nessa situação o Professor deixou mais
complexo, com “duas pessoas”, e precisavam estar atentos ao sincronismo necessário.
O PA em seu comentário explica os critérios do passo a passo do processo
ensinoaprendizagem em sua aula: “eu procuro fazer em três momentos [...] e eu vou
aumentando a complexidade” (AA, L. 156-161). O PA explica
que vai aumentando a
complexidade do conteúdo ao mesmo tempo em vai tirando as ajudas para que ao final o
aluno consiga resolver sozinho um problema complexo.
3.1.5 Um Professor que, para garantir a melhor qualidade possível de sua aula, compromete
sua saúde física
Para esse Professor o bem-estar está relacionado com o mental, com o sentimento de
que fez o melhor, mesmo que para isso comprometa seu físico. No AA (L. 145-150), o PA
observa uma parte do trecho de aula em que está digitando inclinado para demonstrar como o
“servidor” recebe mensagens. Embora opte por digitar inclinado, reconhece que seria melhor
se pudesse ficar em pé: “eu acho assim ó eu me sentiria melhor... se eu pudesse ficar de pé...
eu posso/ me:: me daria maior/ sei lá dá impressão que eu ainda estou... a::: acompanhando
todo mundo...” (AA, L. 191-193).
Ou seja, compromete sua saúde física se inclinando porque não tem condições de
fazer seu trabalho em pé, como seria melhor para o “bem-estar do Professor” (AA, L. 199).
Um Professor cujo “bem-estar” decorre de conseguir manter o contato com os alunos,
conseguir acompanhar todos os alunos.
3.1.6 Um Professor flexível
Enquanto o PA, para conseguir acompanhar os alunos, opta por inclinar-se para
digitar e não por sentar-se, o coletivo de Professores cogita a ideia de colocar um espelho ao
fundo da sala a fim de verificar se os alunos estão entrando em sites diferentes dos abordados
em aula. De forma que “já teve Professores que sugeriram por exemplo... em conversa colocar
um espelho ( ) aqueles espelhos complexos no fundo... ( ) no fundo da sala... pra::: por
exemplo visualizar o que os alunos estão fazendo” (AA, L. 223-226). Entretanto, o objetivo
do PA é manter o contato com os alunos, conforme exposto anteriormente. Ele se posiciona
em relação aos alunos dizendo: “eu não sou/ eu não me considero aquele general... que tem
que FAZER como eu quero... se eles (os alunos) quiserem fazer de uma maneira um pouco
diferente... eu eu sou aberto à negociação...” (AA, L. 270-272).
O PA está bem resolvido com o fato de os alunos acessarem a internet porque ele não
nega isso, ele previne: “eu eu sou aberto à negociação...”. Isso indica que há Professores que
não são flexíveis e essa indicação é confirmada logo em seguida: “mas eu percebo que tem
Professores que são mais radicais quanto a isso” (AA, L. 273-274).
Isso significa que o espelho pode ser um recurso de autoritarismo para professores
que não são flexíveis. Quando o professor é mais flexível, ele busca compreender o que leva o
aluno a navegar por sites diferentes da aula, isso lhe permite negociar com alunos de forma a
prevenir a dispersão deles. Ser um Professor flexível permite encontrar a regulagem entre o
autoritarismo e a libertinagem. Ressalta-se que o PAV lança mão dessa flexibilidade porque
estando em pé consegue acompanhar seus alunos.
3.1.7 Um Professor engajado, que se adapta para atender melhor seus alunos
O PA dispensaria o espelho, mas, se este lhe for disponibilizado, ele se adaptaria a
essa nova condição, conforme a Linha 304 do Anexo A. Isso porque sua preocupação não é
vigiar o que vai à tela dos computadores dos alunos e sim atender melhor a seus alunos. Então
se posicionada dizendo:
eu poderia utilizar... é a mesma coisa a bancada... hoje eu dispensaria a bancada... mas::: se tivesse uma bancada eu acharia... de repente... o fato de precisar ficar me abaixando e coisa... talvez eu me sentiria melhor dando aula... assim... como se eu/ para ver se o pessoal está olhando para frente o pessoal às vezes levanta o braço... eu se tivesse num nível mais elevado já iria pegar de primeira às vezes o cara levanta o braço eu estou digitando não vi não sei se isso acontece né... aí o cara “ah deixe quieto... o Professor não viu ele está/ continua explicando”... então... (AA, L. 307- 314).